Cinema 2011: ranking março-abril


Nesse segundo bimestre, o maior número de estreias originais de 2011 possibilitou a formação de um ranking mais interessante e acirrado que o anterior. Assim, certos filmes acabaram ficando com o mesmo valor de média final — e então empatados na mesma posição.

Relembrando que para o ranking são considerados filmes com estreia original em 2011 em seus países de origem. Em Ainda estrearam, as produções do período que não conseguiram entrar na lista. Em Filmes remanescentes, as estreias de anos anteriores que só agora estão chegando comercialmente ao país e que foram avaliadas pelos editores.



#1 | Thor [7]

Embora consiga apresentar com certa eficiência seus temas e tramas, não se pode isentar o filme pela falta de desenvolvimento apropriado que algumas situações requeriam. Além disso, a desconsiderar os vínculos e obrigações que toda adaptação tem com seu material de origem, é visível que a estrutura aqui fica amarrada a uma espécie de preparação para algo maior, uma ligação burocrática que certamente priva da história certos rumos e liberdades. Mesmo assim, Thor é agradável, visualmente encantador e divertido. Branagh, afinal, mostrou ser o diretor adequado. (resenha completa) (Mateus)



#2 | Rio [6]

O filme tem seus meios de compensar a sessão: os protagonistas ganham em carisma e conseguem momentos envolventes; há os coadjuvantes divertidos, tipicamente representando as melhores investidas de humor; têm-se belos arrebatamentos de pura contemplação visual, por vezes focando em pontos turísticos da cidade; e há uma boa porção de canções originais que pontuam bem diversas cenas, criadas para a trilha sob a supervisão do talentoso Sérgio Mendes. O que, entretanto, não é suficiente para fazer de Rio um trabalho criativo, importante ou memorável. Uma boa aventura, mas enfraquecida pela abordagem romantizada e simplista de seu diretor. (resenha completa) (Mateus)



__ | Sem Limites (Limitless) [6]

Visualmente fascinante e com uma ideia atraente, Sem Limites é uma ótima surpresa em tempos de refilmagens, continuações e readaptações. A direção mostra inteligência e criatividade, especialmente na comunicação com os outros elementos da narrativa, notadamente a fotografia e a montagem — o que não só assegura o interesse no produto original que o cineasta tem em mãos, mas também o justifica. No elenco, Bradley Cooper conduz com segurança o papel principal, apoiado também por ótimos coadjuvantes. (Mateus)



#3 | Rango [5,8]

O diretor declarou que Rango foi feito tendo-se em vista uma concepção live action, e é fácil percebê-lo desta forma. É, a resultado das escolhas dos cineastas, uma obra inovadora — tanto em visual quanto em narrativa. Seu centro, a ser olhado com sensibilidade e entendimento, pode identificar-se mais facilmente com uma plateia mais madura, mas há ali também a emoção e a diversão para seduzir os mais jovens. De qualquer forma, a profundidade e o deslumbre de um faroeste intimista com traços místicos, que refere e celebra o Cinema e criado à luz da inteligência e da tecnologia, não deve ficar à dúvida: é imperdível. (resenha completa) (Mateus)



#4 | Água para Elefantes (Water for Elephants) [5]

Romance de época que, se tem efeito, é talvez apenas nessa reprodução histórica, Água para Elefantes é um filme arrumadinho, bonitinho, mas ordinário. Como protagonista, Robert Pattinson exibe completa falta de expressão e carisma, sendo a ponta mais fraca de um elenco que traz pouca correspondência. Previsível e piegas, é amenizado pela presença magnética de Hal Holbrook — que, mesmo em poucas cenas, até faz esquecer que se trata da versão mais velha do personagem de Pattinson. (Mateus)



__ | Pânico 4 (Scream 4) [5]

Conseguindo manter uma tênue linha com os filmes anteriores, Pânico 4, obviamente, falha ao tentar assustar com os truques típicos do gênero, mas satisfaz com sua graça, a qual se reflete principalmente em uma auto-paródia. Wes Craven assume os clichês como arma principal e, explorando a metalinguagem, torna seu filme um clássico e razoável produto de entretenimento. Porém, o longa não deixa de ser primitivo em seu roteiro, não desenvolve a história de seus personagens adequadamente e possui uma obviedade importuna. (Flávia)



__ | Passe Livre (Hall Pass) [5]

Bobby e Peter Farrelly, já não bastasse um histórico de ótimas direções dentro do gênero, conseguem, aqui, realizar um trabalho nem tão surpreendente, mas satisfatório, considerando o quão difícil que hoje se tornou realizar uma boa comédia, ainda mais com pontas de romance. Com um argumento simples, mas que rende algumas cenas engraçadas, Passe Livre é um prato cheio de situações inusitadas e apelação sexual, deixando de lado boa parte da originalidade típica dos irmãos Farrelly. (Flávia)



#5 | Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch) [3]

As cenas iniciais, anteriores à chegada da protagonista ao manicômio, são de uma praticidade e beleza necessárias: em câmera lenta e sem qualquer fala, Snyder conduz a ação com precisão e cuidado. Ao que decide pelo esgotamento desses e de seus outros recursos ao longo filme, acaba por cansar seu espectador. O surreal a que se refere o subtítulo brasileiro, então, só pode evidenciar uma coisa: como é sem graça uma mente rebelde. (resenha completa) (Mateus)


Ainda estrearam: Eu Sou o Número Quatro [2,4], Fúria sobre Rodas [2], A Garota da Capa Vermelha [2], Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles [1,6], Esposa de Mentirinha [1], Hop: Rebeldes sem Páscoa [1], Sexo sem Compromisso [1], As Mães de Chico Xavier [0], A Antropóloga [não avaliado], Assassino a Preço Fixo [NA], Corpos Celestes [NA], Gnomeu e Julieta [NA] e Vovó... Zona 3 [NA].

Filmes remanescentes: Cópia Fiel [8], Homens e Deuses [7], Sobrenatural [6] e Uma Manhã Gloriosa [4].

Cinema: "Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas"


Franquia bilionária, Piratas do Caribe alcançou grande sucesso na última década ao trazer para o Cinema uma combinação um tanto peculiar, envolvendo piratas, humor e bastante ação. Johnny Depp integrou mais um personagem atípico à seu histórico de interpretações, e seu Jack Sparrow tornou-se um ícone. No entanto, muito do êxito da série deveu-se à consistente direção de Gore Verbinski, que coordenou uma trilogia de proporções épicas sem maiores problemas, imprimindo-lhe ousadia, criatividade e um verdadeiro senso de aventura. Decepcionante é ver, então, que o principal equívoco deste novo Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas resida justamente em seu diretor, Rob Marshall.

Com modificações que pretendem transformar este episódio num novo início para a franquia, Navegando em Águas Misteriosas falta com o ritmo, com o humor e com os seus personagens, revelando uma combinação sintomática de maus roteiro, montagem e direção. A trama, tão compatível com a ideia de aventura, não atrai; as piadas, criadas e interpretadas sem qualquer inspiração, soam inconvenientes à narrativa; e a história, que revela e descarta elementos à sua vontade, segue linhas previsíveis. Ao elenco se juntam Penélope Cruz e Ian McShane, mas que só fazem constranger, num lamentável desperdício de talentos que abrange também o próprio Depp e o tão divertido Geoffrey Rush, que aqui destoa com tanto exagero.

Na função de conduzir a ação e ordenar os elementos narrativos, Marshall entrega um trabalho sem brilho, sem perícia, redundante e cansativo. O que a trilogia de Verbinski tinha de interessante, aqui se perde: as batalhas e confrontos entre os personagens não envolvem, normalmente se fazendo notar o trabalho dos dublês, o que sempre tira credibilidade do que é mostrado, e especialmente desaparecem toda a violência e tensão que, mesmo amenizadas nos filmes anteriores, eram tão necessárias ao tom de perigo e seriedade das cenas. O único momento em que Marshall se atreve a tanto é quando, já lá no final, o vilão aparece se deteriorando e aponta sua mão esquelética à tela, numa ótima composição de efeitos visuais que evoca todo esse clima de temor — o qual, afinal, adicionaria tanto à Navegando em Águas Misteriosas, além de fazer jus a seu título.

Continuando o trabalho formidável nas composições musicais da série desde que assumiu o posto no lugar de Klaus Badelt (de A Maldição do Pérola Negra), dessa vez Hans Zimmer se associa com a dupla de violonistas mexicanos Rodrigo y Gabriela e apresenta uma trilha vibrante e original, à qual o filme nunca corresponde. E tampouco corresponde à arrecadação estrondosa (impulsionada pelo valor dos ingressos das sessões em 3D), que o coloca na oitava posição entre as maiores bilheterias de todos os tempos. Todo esse dinheiro certamente assegurará a produção de mais continuações, mas, a não ser que ocorra alguma reinvenção na franquia, Piratas do Caribe seguirá o curso daquelas que poluem os cinemas todos anos e que pouco lembram o ânimo de suas origens.


Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides), 2011, Estados Unidos, 136 minutos.

Cotação: 4/10

Cinema: "A Onda"



A Onda, obra baseada em fatos reais, explica o sucesso (ou não) de um experimento realizado na Cubberley High School (Palo Alto, EUA), no ano de 1967, quando o professor Ron Jones decidiu mostrar aos seus alunos até que ponto alguns alemães foram capazes de alegar ignorância sobre o massacre dos judeus durante o Holocausto. Jones criou um movimento denominado A Terceira Onda, o qual inspirou, além desse filme, um livro e, até mesmo, um musical.

O longa conta a história do professor de ensino médio, Rainer Wenger (Jürgen Vogel), que, contra a sua vontade, acaba por ministrar uma matéria sobre autocracia. Notando o desinteresse na aula por parte dos estudantes, o professor propõe um breve experimento envolvendo a formação de um grupo regido por um líder autocrático. Aos poucos o mestre vai demonstrando como a base de uma ditadura se forma e como ela se solidifica, ilustrando quais seriam as estruturas psíquicas que teriam a capacidade de preparar uma população para receber um governo despótico e unificado.

Dirigido pelo jovem Dennis Gansel, e com um elenco de adolescentes estreantes, A Onda se destaca pelo seu Cast and Crew impecáveis. Seguindo uma linha de trabalho que se assemelha ao longa A Fita Branca, a obra de Gansel procura retratar o complexo psicológico que circunda a manifestação do nazismo, tentando ser um elo de esclarecimento para as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. O filme também retrata de forma geral, mas reflexiva, o comportamento da juventude alemã, tema tão recorrente na produção cinematográfica deste país, como, em Adeus, Lênin! e em Edukators. Destaque para a ótima trilha sonora de Heiko Maile, a qual consegue expressar a rebeldia do grupo através de canções que vão desde Ramones ao tradicional indie rock alemão.

A história se desenvolve a partir de conceitos básicos capazes de abrir espaço para uma tirania, como, o descontentamento de um povo, a força pela disciplina, a criação de um uniforme, o invento de uma saudação comum, a formação de uma comunidade gerida por uma unidade de poder e a elaboração de um símbolo unificador. Assim, o movimento A Onda vai sendo estruturado e aceito pela maioria dos estudantes, depositando, em cada um deles, um sentimento de pertencer a comunidade, de fazer parte de uma massa unificadora, acarretando, portanto, em uma força enérgica que ganha destaque e respeito dentro da escola. Ao mesmo tempo, a nova formação, de tão unificada, passa a ser facilmente manipulada, ganhando uma consciência coletiva que transpassa a consciência particular, diminuindo o espaço da reflexão individual, o que torna o grupo perigoso e coletivamente irracional.

Dessa forma, poder-se-ia dizer que a unidade social começa a fugir totalmente do controle de seu líder, o professor Rainer. Porém, em seu íntimo, o próprio líder é conquistado pela formação que suscitou e pelo reconhecimento que lhe foi atribuído, sendo condizente, ou, no mínimo, omisso em relação ao caminho que se grupo passa a traçar. Eis aí uma das complexidades da política tirana. Ao perceber a amplitude ilegítima que o bando atingiu, o professor decide denunciar aos estudantes o enfraquecimento do sujeito crítico que se instalou em cada um deles, devido ao poder carismático da liderança e devido ao fanatismo diante da adoção de objetivos específicos de grupo.

No filme, os sentimentos da nação alemã referentes à culpa e ao ódio da sua própria história são retratados de forma rasa. Os jovens estudantes, preocupados com a reputação pessoal no colégio, parecem ignorar os efeitos da unidade social sobre os mesmos, descartando a possibilidade de um governo autoritário surgir na esfera escolar.

Muitas das consequências que a experiência irá causar na vida dos adolescentes poderão, de certo modo, parecer exageradas aos olhos do expectador, porém, se levarmos em consideração os jovens envolvidos e os seus problemas pessoais, observamos que sempre há seres humanos mais suscetíveis, os quais serão atingidos de forma mais forte, como o personagem Tim (Frederick Lau), por exemplo. Neste microcosmo nazista, podemos perceber também algumas identidades esparsas (Karol, por exemplo), que resistem e militam contra a nova formação.

Em uma análise social, percebe-se que a ideia atualmente dominante de que as ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento dos direitos humanos são suficientes, é errônea. Esses valores universais humanitários devem ser incessantemente reforçados e trabalhados, a fim de evitar que o fenômeno do holocausto se estabeleça em qualquer grau de poder e espaço social. Assim como preconiza Zygmunt Bauman, não se deve "germanizar" o sentimento nazista, pois o germe da possibilidade de alguém se tornar um simpatizante de tendências nazistas está na essência do ser humano e se encontra enraizado na estrutura da sociedade moderna, sendo que hoje, pequenos movimentos fascistas ocorrem em menor grau, mesmo no alto estágio de civilização que nos encontramos. É nesse sentido que o filme A Onda vem nos alertar.


A Onda (Die Welle), 2008, Alemanha, 107 minutos.

Cotação: 7/10

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