Cinema 2011: ranking janeiro-fevereiro

Uma das novas seções que o Observatório do Cinema irá apresentar em 2011 são os rankings bimestrais de estreias no cinema. Serão considerados apenas os filmes de lançamento original (no seu país de origem) no ano corrente e que estrearam no Brasil no mesmo ano, dos quais, a cada dois meses, serão listados os cinco com melhor avaliação (a partir de cálculo de média harmônica das notas dos editores do blog, representada entre colchetes). Assim, apesar de carregar certa injustiça ao não incluir importantes estreias que chegam ao país com grande atraso, o contexto de lançamento original é preservado, com a base de comparação justificada no ano de produção dos filmes. Pretende-se que esses rankings sejam liberados um mês após o término do bimestre a ser analisado (como se vê, certamente esses primeiros não respeitarão essa regra), e trarão também as outras obras lançadas no período e que não chegaram a ocupar posição na lista (Ainda estrearam). Para finalizar, serão indicadas as produções que não se enquadram nas especificações dos rankings, e que são, então, aquelas que só estão chegando ao Brasil com desvio em relação ao seu ano de lançamento (Filmes remanescentes, onde estarão apenas obras avaliadas pelos dois editores).

Abaixo, o ranking de janeiro-fevereiro. (Os links nos nomes dos filmes no ranking são para suas respectivas páginas no IMDb; nos listados em remanescentes, para suas resenhas no blog.)


#1 | Bruna Surfistinha [6,5]

Mesmo com todos os desvios é possível extrair do filme alguma mensagem sobre, por exemplo, a importância do sexo em uma relação amorosa, tudo de forma bem plastificada e sintética. Bruna Surfistinha é, inegavelmente, uma obra divertida sobre uma mulher que descobriu, em meio a altos e baixos em sua vida, que gosta do que faz, ainda mais se isso lhe retribui fama e dinheiro. É um filme que não será lembrado pelo seu conteúdo, mas pela temática sexual que traz e pelas belas curvas de Deborah Secco. É uma pena, pois poderia ser diferente. (resenha completa) (Flávia)


#2 | Desconhecido (Unknown) [5]

Os suspenses de ação que envolvem trocas de identidade e grandes conspirações já foram bastante e bem explorados no Cinema, e é neste subgênero que se enquadra Desconhecido. Embora não traga qualquer traço de originalidade em sua trama, o filme consegue se manter graças a uma direção eficiente e a uma narrativa com poucas concessões. Se por um lado as participações de Bruno Ganz e Frank Langella representam ótimos momentos, as atuações de January Jones e Aidan Quinn pouco acrescentam a seus papeis sem dimensão. (Mateus)


#3 | Santuário (Sanctum) [4]

A produção de James Cameron se faz visível em vários aspectos, seja na condução de algumas cenas, seja na ótima trilha sonora — momentos que parecem sugados de
Avatar. Mas isso funciona, assim como a excelente fotografia e alguns bons momentos de tensão. O problema maior de Santuário é, como se esperaria, a trama superficial, que coloca um drama familiar em meio ao drama do homem versus natureza. E é justamente no primeiro que o filme não consegue envolver. (Mateus)


#4 | Caça às Bruxas (Season of the Witch) [3]

Nicolas Cage, além de já ser um ator que divide opiniões, passa por uma fase de trabalhos em filmes pouco expressivos, salvo sua atuação em Kick Ass: Quebrando Tudo. O diretor, Dominic Sena, não consegue repetir aqui a sua boa performance em 60 Segundos, realizando uma direção fraca em meio a uma história rasa, sem nexo algum. Caça às Bruxas deveria ter ido diretamente para as locadoras, não merecendo o glamour cinematográfico. (Flávia)


#5 | O Ritual (The Rite) [2,7]

Com um roteiro por vezes interessante, mas, em sua maioria, confuso demais, O Ritual se destaca apenas pela atuação de Anthony Hopkins e por uma abordagem um pouco mais realista do exorcismo, sem a inserção de cenas do terror trash e sem sustos gratuitos. No entanto, o longa é apenas mas um filme sobre a religião e o sobrenatural, sendo que nem as interpretações de Colin O'Donoghue e Alice Braga são capazes de tirá-lo do senso comum, sendo essas pouco expressivas. Em meio aos clichês típicos, O Ritual é um longa que comprova a atual dificuldade de valorizar o gênero suspense. (Flávia)


Ainda estrearam: O Besouro Verde [2], Brasil Animado [não avaliado], Justin Bieber: Never Say Never [não avaliado] e Mulatas! Um Tufão nos Quadris [não avaliado].

Filmes remanescentes: Bravura Indômita [9], Cisne Negro [8,9], 127 Horas [7,9], O Discurso do Rei [7,5], O Vencedor [7,5], Enrolados [7], Além da Vida [6], Biutiful [5,8], O Turista [3,4], Amor e Outras Drogas [3,4] e As Viagens de Gulliver [1,6].


Cinema: "Sucker Punch: Mundo Surreal"


É notável a popularidade que, com não muitos trabalhos na carreira, o cineasta Zack Snyder conseguiu nos últimos anos — não raro, os mais entusiasmados o chamam de visionário, o que é um certo exagero. Suas obras aos poucos foram consolidando suas marcas: o virtuosismo na composição das cenas, as escolhas inspiradas de canções para a trilha, os arrebatamentos de cores supersaturadas, o apoio constante nos efeitos visuais e, a mais notória, o uso frequente da câmera lenta. (Comum é se observar, aliás, que todas elas normalmente são citadas tanto para elogiar quanto para criticar os projetos do diretor.) E todas elas aparecem neste seu quinto filme, Sucker Punch: Mundo Surreal, o primeiro em que Snyder trabalha com uma história original sua.

Pois sendo assim a chance de o diretor explorar com maior liberdade narrativa e visual uma trama que demonstrasse um verdadeiro autor, original e criativo, o resultado não passa do decepcionante. Após perder a mãe e ter a irmã assassinada pelo padrasto, a protagonista é levada por este a um manicômio e, tão logo chega, seu carrasco e o diretor do local já lhe arranjam uma lobotomia para dali cinco dias. Este será o tempo, então, que Baby Doll (Emily Browning) terá para encontrar uma maneira de fugir dali. Que ela o faça enquanto fantasie com um universo em que é uma dançarina de cabaré (o próprio hospício, com os mesmos personagens e mais estilizado), e de onde, mais uma vez, transporte-se a novos universos onde é uma guerreira e segue instruções que eventualmente lhe ajudarão a escapar do hospital, é o máximo de complexidade que a história aparentemente consegue.

Numa análise menos extravagante, essas evasões fantasiosas para o cabaré podem apenas ser uma extensão da interpretação que as pacientes devem fazer conforme sugere o tratamento da doutora Vera Gorsky (Carla Gugino, caricata e divertida). Ou, por outro lado, Snyder deixa pistas de que, enfim, pode não ser Baby Doll a criadora dessas ilusões (o que seria mais interessante). Mas isso pouco importa, afinal; agravante é ver que o cineasta não consegue imprimir significado e importância às cenas para além do que o que elas mostram. Fosse o filme visualmente envolvente e arrebatador — o que não é; é aborrecido e repetitivo —, poder-se-ia atenuar nesse sentido. Mas, já foi dito, a narrativa é um roteiro de videogame (e nada é visto com maior profundidade): as personagens precisam enfrentar batalhas e obter itens para conseguirem passar ao próximo nível — vestidas em trajes curtos, segurando potentes armas e ao som de uma trilha extenuante.

As cenas iniciais, anteriores à chegada da protagonista ao manicômio, são de uma praticidade e beleza necessárias: em câmera lenta e sem qualquer fala, Snyder conduz a ação com precisão e cuidado. Ao que decide pelo esgotamento desses e de seus outros recursos ao longo filme, acaba por cansar seu espectador. O surreal a que se refere o subtítulo brasileiro, então, só pode evidenciar uma coisa: como é sem graça uma mente rebelde.


Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch), 2011, Estados Unidos/Canadá, 110 minutos.

Cotação: 3/10

Cinema: "Bruna Surfistinha"



Há aqueles que esperavam muito do filme, e há aqueles que, como eu, dirigiram-se ao cinema sem expectativas, somando em um saldo final algumas surpresas. Com frases publicitárias no estilo "Seu namorado quer ver? Então mostre pra ele." e "Vá com seu namorado, suas amigas ou sozinha. Só não vá com preconceitos.", a distribuidora do filme já anunciava que a abordagem realizada sobre a vida da garota de programa Bruna Surfistinha seria, em sua essência, artificial. Quando saí do cinema fiquei feliz por não ter sido uma total decepção.

Com graves erros de roteiro, mas com ótimas sequências de gravação e tomadas de câmera, o diretor estreante Marcus Baldini consegue não deixar a narrativa cair na monotonia, seja pela bela atuação de Deborah Secco no papel da prostituta ou pelas inúmeras cenas de sexo espalhadas durante o longa. Ressalta-se que tais cenas sexuais foram trabalhadas de forma inteligente, não havendo que se falar em sexo gratuito com o objetivo único de agradar o público, mas sim de uma estratégia de roteiro em introduzir-nos no dia-a-dia de uma meretriz, automatizando o seu estilo de vida e, consequentemente, transmitindo-nos suas sensações.

Ainda que a rotina de Surfistinha tenha sido trabalhada de maneira satisfatória, é inegável que o diretor acaba tornando-a mais divertida do que talvez fosse na realidade, minimizando certos fatores sociais que de fato ocorrem na atmosfera noturna, deixando-a mais suave e engraçada em certos momentos. Destaque para a atuação de Fabiula Nascimento (Janine), colega de quarto de Bruna, a qual nos proporciona várias gargalhadas com sua histeria habitual. Além da abordagem minimalista a fim de dar alguns intervalos de diversão ao espectador, ainda há no filme o objetivo de mostrar que no fundo de sua sã consciência, Bruna idolatrava sua arte de ofício.

Deborah Secco é tão competente no papel da garota de programa, quanto é uma tragédia na personagem de Raquel. Em um misto de safada, tímida e nerd, Deborah não se encontra na pele da colegial e, oscilando entre santa e rebelde, não consegue demonstrar qual a origem da decepção com a própria vida e da infelicidade de suas relações familiares que, em tese, teriam-na direcionado para a prostituição. Claro que, corroborando com sua atuação indefinida, temos uma narração em off tão falha quanto o roteiro, este fraquíssimo no quesito argumento inicial, ou seja, a história não consegue ser profunda em nenhum momento, dando justificativas psicológicas ridículas como "queria causar algum tipo (?) de reação nos meus pais!".

Além do roteiro precário, observamos falhas principiantes de maquiagem, que, tentando demonstrar que Raquel é uma menina depressiva, esquece-se de deixá-la com uma aparência de uma jovem que cursa o ensino médio, ficando escrachada a incompatibilidade da idade da atriz com a idade da personagem que interpreta (sem falar na tatuagem artificialíssima do famoso escorpião). Assim, o início do filme deixa a desejar, sendo que a história começa a ganhar ares satisfatórios no momento em que Raquel decide assumir sua nova vida, passando a residir com outras prostitutas.

Um destaque que pode ser dado ao filme é a cena que retrata o primeiro programa de Bruna, filmada de forma amarga, suscitando uma certa revolta a quem assiste. Infelizmente, essa experiência é desconstruída, de certo modo, ao final do filme, quando descobrimos que seu primeiro programa foi, também, seu primeiro amor. Essa destruição e reconstrução recorrente da protagonista é uma fórmula muito utilizada pelos roteiristas do longa, tornando a história previsível e repleta de reflexões rasas.

Da metade para o final do filme, o ritmo das cenas aumenta exponencialmente, o que não chega a prejudicar a regularidade do longa, embora cause um pouco de descompasso em sua narrativa. Dessa maneira, o diretor utiliza-se de uma biografia relativamente conhecida, fazendo com que brinquemos de revelar os próximos passos da vida de Bruna com certa facilidade.

Mesmo com todos os devios é possível extrair do filme alguma mensagem sobre, por exemplo, a importância do sexo em uma relação amorosa, tudo de forma bem plastificada e sintética. Bruna Surfistinha é, inegavelmente, uma obra divertida sobre uma mulher que descobriu, em meio a altos e baixos em sua vida, que gosta do que faz, ainda mais se isso lhe retribui fama e dinheiro. É um filme que não será lembrado pelo seu conteúdo, mas pela temática sexual que traz e pelas belas curvas de Deborah Secco. É uma pena, pois poderia ser diferente.

Bruna Surfistinha, 2011, Brasil, 109 minutos.

Cotação: 6/10 

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