"Cisne Negro": o retrato de uma arte furiosa



Cisne Negro – Análise Objetiva (Para os que já assistiram ou não)

Lembro-me de quando, por volta dos onze anos, minha paixão pela dança aflorou. Talvez tenha começado tão tarde pois foi única e exclusivamente iniciativa própria querer aprender a dançar. Porém, há aqueles que iniciam nessa arte por vontade de seus genitores, sendo vários os seus motivos. Como uma ex-bailarina frustrada, Erica (Barbara Hershey) deve ter iniciado sua filha Nina (Natalie Portman) no balé a fim de que esta tivesse a perfeição e o sucesso que sua mãe não teve. A dança aqui seria uma tentativa de tornar mais feliz a vida dessa pequena família. Mal sabiam essas duas mulheres o que a dança poderia lhes proporcionar.

Nina é uma bailarina obcecada pela técnica e tem como principal meta ser a atração principal de sua companhia. Ela mora com a mãe, Erica, a qual, ao mesmo tempo em que incentiva a ambição da filha, preocupa-se com sua saúde debilitada. O coreógrafo e diretor da companhia, Thomas Leroy (Vincent Cassel), finalmente escolhe Nina para estrelar a obra O Lago dos Cisnes, deixando de lado a antiga estrela e inspiração da protagonista, Beth (Winona Ryder). A partir dessa conquista, vendo seu sonho se realizar, Nina o transforma em um pesadelo.

Cisne Negro é um filme a ser apreciado em seus detalhes. Desde o início do longa somos apresentados à rotina de Nina, mergulhamos no filme através de seus olhos e observamos a atmosfera sombria que é a psique dessa jovem bailarina. Sua obsessão insalubre pela dança reflete-se em várias cenas as quais nos remetem a seu possível estado bulímico, cleptomaníaco e esquizofrênico. Além disso, não bastassem os seus problemas, sua mãe também apresenta algumas obsessões, como a busca pela perfeição em suas pinturas.

Erica reprime a sexualidade de sua filha tratando-a como uma criança, abarrotando seu quarto de ursos de pelúcia e proibindo qualquer privacidade que sua filha possa ter. Nina parece desconhecer o fato de que a dança, por si só, poderia leva-lá a um orgasmo. Seu pensamento quase religioso crê que o único caminho  para se chegar à perfeição é através da subjugação dos prazeres carnais. Essa figura artificial, brochante e vitimizada de Nina está presente também em seus movimentos, os quais são mascarados pela sua perfeita técnica. Logo Thomas Leroy percebe a grande carência que a bailarina possui e tenta ajudá-la a despertar sua sexualidade.

Contrariando o aspecto frágil e sem sal da protagonista, a nova integrante da companhia de dança, Lily (Mila Kunis), surge como uma garota sensual, espontânea e sociável, chamando a atenção do coreógrafo Thomas e, claro, de Nina. A presença de Lily é fundamental para nos aprofundar ainda mais na paranoia da protagonista, pois Lily passa a ser o modelo perfeito de comportamento que ela precisa para interpretar seu cisne negro (Odile).

Darren Aronofsky (Pi, Fonte da Vida, O Lutador) fez de Cisne Negro um thriller psicológico complexo, porém, colocou essa complexidade psicológica em uma narrativa muito simples. Na verdade, o que Darren Aronofsky fez foi uma inteligentíssima releitura da obra O Lago dos Cisnes, sendo que o próprio diretor da uma pista disso quando se coloca na pele do coreógrafo Thomas e afirma que O Lago dos Cisnes já foi interpretado várias vezes, mas agora seria reproduzido “sem preconceitos e em uma abordagem profunda.”

Aronofsky aproveita-se da dança para usar e abusar de espelhos. A câmera que filma a cena por vezes parece não existir diante dos espelhos que a rodeiam, mostrando a perspicácia e originalidade do diretor. O espelho também aparece no filme como uma obsessão particular de Nina, porém, ao mesmo tempo em que ela precisa dele, também o teme, pois é através do reflexo que, em certas cenas, a protagonista enxerga sua insanidade. 

A edição de som é fundamental para a atmosfera de suspense do filme, pois os sons nos proporcionam a sensação de uma mente psicopata. Todo o ambiente visual foi trabalhado em seus detalhes, desde a textura perfeita das rígidas penas negras e das delicadas plumas brancas de ambos os cisnes, até a escolha dos figurinos menina/mulher quase caricatos, utilizados por Nina e Lily.

O diretor explora o seu ótimo senso artístico e coloca em prática suas experiências anteriores quando, nos remetendo a Pi, retrata a inclinação autodestrutiva de Nina ou, nos remetendo a Fonte da Vida, confunde nosso senso de realidade. Na direção, Aronofsky faz a câmera dançar, acompanhando os movimentos de Nina, conseguindo transpor a loucura dessa bailarina em uma direção carregada que se faz presente em cada segundo do longa, mostrando que é um diretor tão perfeccionista quanto sua protagonista. 

As atuações são pesadas e homogêneas, todas contribuindo para o desenvolvimento obscuro da trama. Vincent Cassel, Winona Ryder, Mila Kunis, Barbara Hershey, todos se destacam, sendo injusto pincelar um ou outro trabalho, devido à perfeição e meticulosidade de suas interpretações. Porém, de maneira nenhuma seria injusto destacar a atuação de Natalie Portman, seja pela destreza e dramaticidade diferencial exigida dela em cena, ou  seja por toda a preparação física a que esta se submeteu para interpretar uma bailarina de fina técnica.

Resultado de um trabalho metódico e furioso de Darren Aronofsky, Cisne Negro pode ser considerado a obra-prima do diretor até agora. O apuro visual e a plasticidade artística do filme, contrapondo com sua profundidade psicológica, faz dele uma obra de narrativa simples, mas com uma atmosfera complexa, sendo impossível classificar o seu gênero ou o seu tipo de público.


Cisne Negro – Análise Subjetiva (Somente para os que já assistiram)

Como já falei anteriormente, expondo meus motivos, a narrativa de Cisne Negro é simples. A uniformidade do filme se mostra em um roteiro redondo e preciso. Então, o que dá ao filme esse ar de complexidade? É justamente o fato de o diretor nos infiltrar na mente de Nina, confundindo-nos entre a loucura e a realidade de fato apresentada na história. A partir daí, todos os personagens nos parecem estranhos, irreais, exagerados ou psicopatas. Thomas Leroy, um tarado sem escrúpulos; Beth, uma maníaca... Na verdade, há somente uma pessoa anormal no filme. O único obstáculo de Nina à perfeição como bailarina é ela mesma.

O roteiro de Aronofsky deixa em aberto a possibilidade de  se passear entre o real e o imaginário a respeito de vários personagens, como, por exemplo, em relação a Lily. Seria ela uma imaginação/projeção do que Nina sempre desejou ser? Seria Lily realmente uma promíscua disposta a fazer de tudo para roubar o papel principal? Ou seria Lily uma bailarina normal, uma jovem cheia de vida que desejasse o lugar de Nina tanto quanto as outras bailarinas? E a mãe de Nina, seria a culpada de tudo (como diria a psicanálise)? Na verdade, por vezes sua mãe mostra-se razoável quando, por exemplo, não permite que Nina vá à sua apresentação ao constatar seu deplorável estado psíquico.

Embora "a culpa" não seja exclusivamente materna, Cisne Negro utiliza-se de várias premissas psicanalíticas as quais cercam de mistério a personagem principal, sendo as antigas teorias de Freud as mais recorrentes. A clássica interpretação do sonho como realização dos desejos inconscientes (Id) está  claramente explicitada no filme, principalmente nas cenas em que o prazer sexual de Nina é retratado, não deixando margem para interpretações simbólicas.

Sem dificuldades somos capazes de perceber que quase todas as teorias sexuais de Freud podem se encaixar em Nina: a mais presente talvez seja seu Ego infantil e neurótico que resiste trazer os desejos à consciência, defendendo-se deles através de repressões e outros mecanismos de defesa. Levando-se em consideração tais explicações, busca-se a razão da loucura de Nina em todas as lacunas do longa, tornando-o ainda mais complexo.

A narrativa do filme é tão sensível à arte que retrata (a dança), que  se utiliza de várias analogias. Uma delas representa o momento mais tenso que uma bailarina pode vivenciar - o erro, a queda em cena - como uma necessidade de renascimento dessa mesma bailarina, pois o espetáculo ainda não chegou ao fim. É no momento da queda que o cisne negro definitivamente desperta em Nina.

Juntamente com a sensibilidade de Aronofsky, a direção de arte e os efeitos visuais tornam a loucura da protagonista ainda mais real. Os efeitos que dão a ela a aparência de ave (o aspecto escamado da sua pele, o momento em que ela imagina-se sofrendo uma mutação) são impressionantes. A direção artística e, claro, o extenso trabalho que os professores de balé tiveram com Natalie Portman são exibidos durante o longa sem hesitação em cenas que fazem questão de mostrar que Portman pouco se utilizou de sua dublê. A cena em que Nina interpreta Odile no terceiro ato constitui o ápice de sua dramatização assustadora, mostrando um dos maiores trabalhos que Natalie já fez para o Cinema. 

Cheio de metáforas, ambiguidades, dicotomias e extremos, Cisne Negro é um filme tecnicamente perfeito (como sua versão branca) e visceralmente apaixonante (como sua versão negra). É uma mensagem de vários sentidos transmitida aos artistas e profissionas que buscam a perfeição em seu ofício. É um caminho que parte da doçura e delicadeza de uma bailarina até seu momento mais selvagem e destruidor. É uma releitura psicodélica da obra O Lago dos Cisnes feita para o Cinema, sendo um verdadeiro manual de criação artística

Cisne Negro (Black Swan), 2010, Estados Unidos, 108 minutos

Cotação: 10/10

Cinema: "Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles"


Não deixa de ser irônico que, tendo sido realizado (e distribuído nas salas que suportam o formato) com a técnica de maior resolução de exibição disponível no momento, Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles seja um filme que talvez não permita ao público apreciar tal qualidade. Afinal, aparentemente inspirando-se no péssimo Armageddon, aqui é difícil encontrar planos estáticos ou que durem mais de alguns décimos de segundo, funcionando tanto no sentido de nausear os espectadores quanto de esconder os frágeis e desinteressantes efeitos visuais (eufemismo).

A narrativa abre com um panorama de Los Angeles em meio ao caos da destruição, e para onde se dirigem inúmeros helicópteros e outros equipamentos de guerra. Ao fundo ouve-se uma frase sobre "não abandonar a cidade", e logo então entra um flashback — que, mostrando os acontecimentos das 24 horas anteriores, ocupará quase toda a metragem restante da produção.

Então a tragédia começa (e aqui dá para interpretar da forma que quiser). Os soldados que irão fazer parte do grupo que a história acompanha são apresentados. E, novidade, é o típico batalhão heterogêneo lugar-comum dos filmes do gênero. Há os latinos, os asiáticos e os afro-americanos religiosos e com sotaque carregadíssimo (e daí se moram nos Estados Unidos?); o que vai para a batalha às vésperas do casamento; e o comandante que, logo após dispensado, é readmitido para sua última tarefa — e, claro, mais tarde aparecerá também a mulher durona entre eles, que pode ser considerada um clichê duplo visto a atriz que a interpreta.

O grupo se estabelece e é largado em meio a explosões e objetos flamejantes que caem do céu, e que eles (e o público que não leu nem viu nada sobre o filme) a princípio não fazem ideia do que sejam. A narrativa se limita a acompanhá-los de lado a outro enquanto lançam vez por outra não mais que frases imperativas (porque desenvolvimento de qualquer coisa não há aqui). Mas isso é uma tarefa árdua, acompanhar trama tão rasa: a câmera balança tanto e a montagem é tão desesperada a ponto de nada fazer sentido na tela.

E, além disso, em meio à propaganda militar escancarada, às vezes surgem dramas risíveis, tão deslocados e implausíveis que é difícil se envolver. Aliás, esperar trabalhos técnicos decentes de projetos que dispõem de tanta tecnologia a seu favor a fim de se criarem as condições mais verossímeis possíveis também parece ser demais: ou como explicar a edição sonora desatenciosa em que mal se ouve o som das hélices dos helicópteros? Há inclusive uma cena em que aparecem dois personagens gritando dentro da aeronave sem motivo para tanto, já que não há som de fundo alto o suficiente para justificar a atitude durante uma conversa.

Absolutamente desnecessário em qualquer escopo a que se propõe, técnica e narrativamente pobre, cansativo e esquecível, Batalha de Los Angeles é daqueles filmes para se colocar entre os piores nas listas de fim de ano. Batalha mesmo, isso sim, é aturá-lo até o final.


Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles (Battle: Los Angeles), 2011, Estados Unidos, 116 minutos

Cotação: 1/10

Cinema: "Biutiful"


Biutiful retrata a vida de Uxbal, uma pessoa aparentemente simples em uma estrutura social complexa. Um filme desconfortante e de difícil apreciação, pois nos apresenta uma realidade na qual não estamos diretamente inseridos, não desejamos estar, e não queremos aceitar que existe. Biutiful inicia-se com uma história enigmática, mostra o universo chocante no qual a trama irá se desenrolar e trabalha com variadas questões relativas à sociedade, como a disparidade social, a prática de negócios ilícitos, a questão da crendice popular, entre outras.

Uxbal (Javier Bardem) é retratado sob vários ângulos. De um lado coordena atividades ilícitas que lhe proporcionam seu principal sustento. De outro lado possui o dom de falar com os mortos, o que lhe rende alguns trocados. Não bastasse isso, Uxbal ainda é pai de dois filhos e, além de se responsabilizar por eles, acaba tendo que cuidar de sua ex-companheira Maramba (Maricel Álvarez), uma mulher viciada e instável psicologicamente. É impressionante observar como o diretor Alejandro González Iñárritu consegue nos imergir em cada um desses ângulos, afogando-nos na vida do protagonista.

Indiscutivelmente que a direção de Iñárritu se torna presente em seu modo característico de retratar seus personagens como vítimas da sociedade e em dividir com o telespectador sua visão pessimista (ou talvez, realista?) de mundo. Ao centrar-se na vida de um único personagem, Alejandro González Iñárritu rejuvenesce seu estilo no retrato de histórias paralelas, pois aqui, ao invés de oscilar entre vários personagens, o diretor despedaça a vida de um homem só. Além da direção, Iñárritu também assina pelo roteiro, abandonando a parceria com seu antigo roteirista Guillermo Arriaga, o qual escreveu a Trilogia da Morte (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel).

Nos pormenores do filme, o roteiro por vezes é confuso. De fato, é difícil pôr em tela tantos fatos paralelos, tantas mazelas sociais e tantas reflexões sobre o material e o imaterial. As ditas crenças trabalhadas no filme são, por vezes, inseridas de forma aleatória sem, de concreto, contribuir para a progressão da história. Vê-se aí talvez uma dificuldade que Iñárritu encontrou ao abandonar a parceria com Arriaga, pois, mesmo que aquele tenha sido responsável por ambos roteiro e direção, não se observa perfeita homogeneidade entre eles.

Deixando de lado os tropeços do longa, sua beleza se dá justamente na crueza e no amargor da fotografia, a qual é escura, sombreada, carregada de uma luz extremamente compatível com o real. A edição de som do filme também se preocupa em transpor com realismo os sentimentos do protagonista para a telona, como em uma cena em que ele abraça sua filha e o compasso da batida cardíaca do personagem é claramente audível. A complexidade da trama se reflete nas responsabilidades que Uxbal tem, principalmente na insistente tarefa em resolver questões pendentes de sua vida, as quais vão se tornando bolas de neve. Desde o início do filme, viver é uma tarefa árdua, um karma como diriam os budistas, um sonho difícil de ser concretizado.

Em relação às atuações, Javier Bardem apoia seu personagem em uma interpretação lírica, demonstrando a vivência infortunada de um sobrevivente da atroz sociedade, de um cidadão rodeado por violência e ciente de que suas opções de sucesso são baixíssimas. As atuações dos filhos de Uxbal são convincentes e meticulosas, principalmente a atuação de Guillermo Estrella (Mateo). Maricel Álvarez surpreende em um papel desafiador, pois é segura e robusta em sua interpretação.

Erram aqueles que pensam ser Biutiful um filme sobre a morte. O filme é sobre a vida, sobre uma trajetória reproduzida em seus cruéis detalhes, sendo que quando a morte é retratada no filme, esta sempre oscila entre duas interpretações: a da libertação ou a da maldição. Há também um cunho social muito forte dentro do filme, pois este deixa claro que o fato de o personagem apenas sobreviver provém de uma hierarquia social estratificada, de uma clara falta de oportunidades para uma vida digna.

Biutiful, portanto, é intenso para aqueles que conseguem mergulhar em sua aflitiva história. Mesmo com os seus tropeços, o filme segue uma lógica interessante e original, sendo uma contraproposta às fórmulas hollywoodianas. É um filme que vale as horas gastas, mesmo que for apenas para descobrir que beautiful não é a vida do protagonista e, vai ver, por esse motivo é que se escreve errado.


Biutiful, 2010, México/Espanha, 148 minutos

Cotação: 7/10

Aniversário do Blog



Semana passada (dia 05/03/2011) o presente blog completou um ano de existência. Gostaria de agradecer em meu nome e em nome do Mateus a todos aqueles que ajudam a fazer desse espaço uma porta de entrada à sétima arte. Obrigada aos leitores que contribuem para o crescimento desse blog, desde os participantes mais ativos que fazem questão de comentar sobre as postagens, como até mesmo aos leitores que são mais tímidos e não comentam, mas ao final do post se identificam (ou não!) com as nossas opiniões.

E para comemorar o primeiro ano de vida desse espaço, nada melhor do que uma festa ao estilo “1 ano”, com um bolo enorme e colorido. Melhor ainda se esse bolo tiver como tema o próprio cinema. Virtualmente, o blog os oferece cinco opções diferentes de bolos cinematográficos. Escolha sua fatia e vamos comemorar!



Alien
 

Toy Story


Star Wars


Harry Potter


A Noiva Cadáver

Cinema: "Burlesque"


Burlesque se une ao grupo de musicais que escala cantores de verdade para o seu elenco, seja como forma tanto de evitar a preparação de atores para os seus números de canto (e escapar de constrangimentos como Pierce Brosnan em Mamma Mia!) quanto, claro, de atrair mais atenção do público ao trazer estrelas da Música para a sala de cinema. No filme que marca a estreia na direção do ator Steve Antin (também responsável pelo roteiro), o que reinam são os lugares comuns — todos os possíveis —, que, somados a canções pouco interessantes e vazias (uma ou outra se destaca), resultam em uma obra que nunca consegue aqueles verdadeiros momentos de catarse emocional ou deslumbre visual que os grandes títulos do gênero ofereceram.

A narrativa começa com uma brevíssima contextualização da protagonista: Ali (Christina Aguilera, em seu primeiro papel no Cinema) é uma jovem que trabalha num bar numa cidade do interior dos Estados Unidos e que decide, certa de suas habilidades musicais natas, abandonar seu emprego e sua vida sem perspectivas e partir para Los Angeles. É uma introdução tão direta que chega a parecer uma abordagem rasteira, mas há de se elogiar a direção nesse sentido: não há qualquer confronto de Ali com o patrão ou uma situação de extremo infortúnio que praticamente a obrigue a ir para a cidade grande; ela já aparece em cena decidida, e a fotografia tem grande papel em escancarar a tristeza e abandono do local. Mas se o filme exibe tamanha economia narrativa nessa sequência, é porque quase duas horas de clichês intermináveis estão por se seguir.

Ironicamente, em Los Angeles, ela eventualmente acaba indo trabalhar como garçonete na casa de apresentações burlescas que dá título ao filme. A responsável pela boate, Tess (Cher), está cheia de dívidas, mas recusa-se a vender o espaço — de que o ex-marido (Peter Gallagher) é metade dono — ao magnata Marcus (Eric Dane), que, ela só saberá mais tarde, pretende construir um enorme residencial no local. Já Ali quer é mesmo poder participar das apresentações do lugar, mas é constantemente desprezada por Tess em suas tentativas. Certo dia, porém, num ensaio para novas dançarinas, ela consegue uma chance, impressiona e acaba entrando no grupo. Obviamente, ela afinal vai ajudar a salvar o espaço, não sem antes passar por intrigas com outras garotas, supostos conflitos de interesses e um romance insosso com o bartender (também compositor) interpretado por Cam Gigandet.

Antin acompanha muitos momentos com a câmera balançando em excesso e sem motivo; as escolhas de fotografia tendem fortemente à artificialidade, mas plasticamente oferencendo alguns belos planos; os figurinos são criativos e se encaixam bem nas canções e nas coreografias; certas sequências musicais guardam algum ânimo, mas no geral não são muito envolventes (trazendo inclusive referências a Chicago e Cabaret). Mas é realmente a trama frágil e apoiada em atuações — em sua maioria — igualmente fracas que relega o filme ao esquecimento. No entanto, Burlesque, mesmo em sua futilidade, é uma obra inofensiva. Que se vê e, não raro, sente-se indiferença.


Burlesque, 2010, Estados Unidos, 119 minutos

Cotação: 4/10

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