O Cinema dos anos 1950: "O Mensageiro do Diabo"

(Observação: este texto expõe detalhes da trama do filme.)

Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.

Fracasso de crítica e público à época de seu lançamento, não raro é ver atualmente O Mensageiro do Diabo sempre entre as primeiras posições em listas de melhores filmes de estreia de diretores ou mesmo de melhores filmes de atores na função de diretor — é, enfim, um clássico aclamado, que recebeu seu reconhecimento com o tempo. O notável ator inglês Charles Laughton assumiu o projeto após uma série de empreendimentos na direção de teatro, levando o best seller homônimo de Davis Grubb às telas em 1955.

Na história, Harry Powell é um pregador que usa suas artimanhas religiosas para enganar e assassinar mulheres viúvas e roubar-lhes o dinheiro. Após um desses eventos, o reverendo é capturado por andar num carro furtado e levado à prisão por um mês. Lá fica na mesma cela de Ben Harper, fazendeiro sentenciado à morte na forca por ter matado dois homens e roubado a considerável quantia de dez mil dólares. A época é a da Grande Depressão, e o latrocínio de Harper foi para garantir à sua família melhores condições nesses tempos difíceis. Logo antes de ser levado preso, ele consegue entregar a soma aos filhos, exigindo-lhes a promessa de nunca contar a ninguém sobre onde ela está escondida, inclusive à mãe; caberá ao mais velho administrar o dinheiro no futuro. Na cadeia, Powell acaba tomando conhecimento da situação, imediatamente definindo sua nova vítima. E assim iniciará sua brutal e irrefreável perseguição.

No papel do reverendo está Robert Mitchum, um quase símbolo sexual e de rebeldia na época. Sua personificação do mal é um marco, no que sua face permitiu tamanha identificação, e sua voz, tamanha ambiguidade. Nos dedos de suas mãos, 'amor' e 'ódio' estão tatuados, e sua explicação sobre como um sentimento subleva o outro é antológica — e no filme, é apenas mais uma forma de ele conquistar a confiança das pessoas à sua volta. Dentre elas, Willa (Shelley Winters), viúva de Harper, com quem, não demora muito, acaba se casando. A filha mais nova, Pearl, logo cria simpatia pelo sujeito, mas seu irmão, John, aos poucos vai percebendo suas verdadeiras intenções e o vê com receio.

Ao perceber que a mulher pode se tornar um obstáculo, e que são os filhos quem ele deve pressionar para encontrar o dinheiro, ele a executa — em outra grande cena, na qual são nítidas, na iluminação e na direção de arte, referências ao expressionismo alemão. Mas não só: Mitchum, articulando-se como se realizasse um ritual, exala terror e medo.

As crianças, então, fogem com o dinheiro. Num barco, percorrem o curso de um rio até encontrar uma senhora religiosa (Lillian Gish) que os acolhe — num segmento fantástico em que, filmado exclusivamente em cenário, a fotografia incorpora a visão das crianças de bem e mal em contrastes sublimes de luz e sombra, criando sequências quase oníricas. Powell, sempre no encalço, logo as encontra. Um embate se forma (mais um momento espetacular), e os destinos dos personagens se definem.

Laughton buscou no Cinema de D. W. Griffith influência para sua obra — nas técnicas de montagem e cinematografia e no clima dos filmes mudos. No processo, a contribuição do diretor de fotografia Stanley Cortez foi inestimável, uma vez que o diretor tinha pouco domínio de estratégias de filmagem. Mas sua dedicação era absoluta: chegava a exigir a presença constante do montador e do diretor de arte enquanto rodava o filme, acreditando que isso ajudava no processo criativo. Também o compositor Walter Schumann foi trazido aos sets, após um notório episódio em que, ao conceber a cena do assassinato, Cortez disse que a sentia como uma valsa — Laughton imediatamente mandou chamar o músico, que passou a compor durante as filmagens, numa tradução musical do que era expresso visualmente.

No entanto, a condução de alguns atores pareceu ser por vezes penosa. Winters, cuja atuação parece confundir-se com as fragilidades de sua personagem, tinha dificuldades em entregar o que o diretor queria. Também os atores mirins (fala-se inclusive que Laughton não gostava de crianças), Billy Chapin e Sally Jane Bruce, que, entretanto, estão competentes em seus papéis, especialmente o menino, que mostra particular sensibilidade em diversos momentos. Por outro lado, foi um prazer para o diretor ter Gish (célebre atriz dos filmes de Griffith) no elenco, e esta irradia bondade e determinação, num de seus trabalhos mais elogiados.

Porém, foi em Mitchum, invariavelmente, que o diretor depositou a credibilidade da produção. Sua interpretação, absoluta em cinismo e perversidade, é a força que move e justifica toda a história. E é por ele que alguns dos temas mais relevantes da obra são levantados: da frustração e repressão sexual, uma vez que o pregador acredita estar fazendo um trabalho divino com seus crimes, matando mulheres vaidosas ou libidinosas (há duas cenas que explicitam isso, uma das quais, ainda no início do filme, bastante sugestiva), o que dialoga, claro, com a crítica à hipocrisia religiosa — e Laughton permite que em muitos momentos Mitchum pese na desfaçatez de seu personagem, evidenciando ainda mais essa intenção.

Filme a que a definição de gênero não cabe, e que em boa parte se desprende de um compromisso de realidade que possivelmente daria a tramas como essa maior verossimilhança, O Mensageiro do Diabo sofreu justamente por sua peculiaridade: a divulgação foi parca e difícil, já que os executivos não sabiam como promovê-lo. Arrecadou pouco em bilheteria e não foi nenhum sucesso entre a crítica especializada, o que afetou profundamente Charles Laughton — que duvidava até mesmo de seus trabalhos mais celebrados, e que não mais voltou a dirigir. Pode-se repreender o filme, talvez, por apresentar um tanto depressa muitas de suas resoluções, e, vez por outra, pelos excessos de atuação, mas há todo um fascínio por trás dessa visão tão deslumbrante e original de Laughton, que se podem relevar esses detalhes. Não se pode relevar, contudo, que Cinema provavelmente tenha sido privado de mais obras tão distintas.


O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter), 1955, Estados Unidos, 93 minutos.

Cotação: 8/10


9 comentários:

José Francisco disse...

Cara, não lembro mesmo desse filme. Mas agora estou curiosíssimo para vê-lo. Procurando já.
Abs.

Wally disse...

Pulei o texto pelos spoilers, mas sei que preciso muito ver esse filme.

alan raspante disse...

Não li por conta do Spoiler, mas conhecia o filme... Ah, preciso ver o quanto antes!

Gustavo disse...

Laughton pode até ter detestado dirigir as crianças, mas ao menos ele conseguiu extrair uma boa performance do moleque - não digo o mesmo da menininha. Achei Winters forte no papel, mas os melhores são Gish e Mitchum. O filme não me envolveu muito, mas dá para entender por que tantos o admiram, em especial a fotografia.

Kamila disse...

Nunca assisti a este filme, apesar de já ter ouvido falar muito nele. Parabéns pelo texto!!!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Esse filme é fantástico. Uma obra-prima com excelentes atuações de Mitchum e Lillian Gish.

O Falcão Maltês

Victor Nassar disse...

Caramba, não conhecia o filme. Ato falho. Mas diante dos comentários, procurarei por ele na locadora mais cult do bairro. Aliás, tem download?

Adecio Moreira Jr. disse...

Há um tempão estou pra ver esse filme, mas me falta tempo e estímulo. Ou melhor, faltava...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Grande filme, assustador... Uma das maiores atuações de Mitchum...

O Falcão Maltês

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