Cinema: "Namorados para Sempre"


O cineasta Derek Cianfrance diz que trabalhou na história de Namorados para Sempre durante doze anos. Chegou a escrever quase setenta tratamentos do roteiro (que foi praticamente descartado), enquanto realizava curta-metragens e documentários para ajudar a financiar a produção. A ideia surgiu com a separação de seus pais, quando ele tinha vinte anos, o que o impulsionou a buscar compreender o processo de formação e dissolução dos relacionamentos. Fiel à sua percepção, procurou desenvolver um conto de amor que refletisse a realidade e que, portanto, fosse capaz de criar conexão com seu público sem se apoiar em falsos convencionalismos de nula verossimilhança. O resultado, produto de imensa dedicação de todos os envolvidos, não poderia ser mais arrebatador.

O filme acompanha um casal, Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams), em dois momentos de sua relação — o início e o colapso , alternando-os na forma de fragmentos que expõem (não raro implacavelmente) as qualidades que ao mesmo tempo aproximaram e afastaram os dois jovens. Cianfrance pretendia filmar esses momentos no intervalo real de seis anos, algo que, além de utópico, certamente encontraria obstáculo na figura dos produtores. Porém, num árduo envolvimento com seus protagonistas, encontrou por onde extrair a densidade de que precisava. Após filmadas as cenas do início do romance, o diretor colocou Gosling e Williams para fazer as vezes de casal por um mês numa casa alugada, e aí, numa intimidade solidificada, eles exercitariam como desmantelar esse relacionamento.

A lógica estética e narrativa de Cianfrance, aliás, é cheia significado. Quando Dean e Cindy se conhecem, a câmera dá mais espaço aos atores, permite-lhes a experiência com certo distanciamento; já casados, além das mudanças naturais da fotografia pelo uso de outro tipo de câmera, há uma necessidade de se esquadrinhar cada reação, cada nuança dos personagens. Letras de músicas, objetos que se interpõe na cenografia e diálogos carregados de sentimento, por outro lado, completam uma abordagem de detalhes e metáforas reveladores.

Dean, jovem que não completou os estudos mas que é esforçado e inteligente, e Cindy, aluna aplicada que pretende cursar medicina, acabam ficando juntos, a despeito do amor que aos poucos surge de um pelo outro, por um evento que, não do melhor modo, funciona como um catalisador na aproximação dos dois. Há um jogo de conquistas, uma dedicação dele para com ela que estabelece uma reciprocidade de confiança e amizade; há carinho, há atração. Já casados e com uma filha, sob o peso da frustração e do arrependimento de objetivos não realizados, experienciando que, embora não desejem, não há mais nada ali capaz de sustentá-los juntos, o desfecho é doloroso.

Gosling e Williams, viscerais, entregam-se livres de qualquer vaidade a essa trajetória e transformação. Da juventude de sonhos e perspectivas, de paixão pulsante e do encanto de uma canção que os dois compartilham numa calçada, à decadência física e emocional que se observa em cada olhar e em cada inflexão, os atores parecem absorver cada partícula de ressentimento e condescendência que se formou durante aqueles anos e transpor a seus personagens com um realismo e sensibilidade perturbadores.

Namorados para Sempre, o título nacional, mesmo que criado com fins equivocados, é perfeito ao permitir ainda mais contraste com a força da história que é contada. A felicidade que ficará com os personagens é aquela daqueles momentos de idealização e romance que eles experimentaram no início, quando eram namorados. A convivência, se desgastou as possibilidades de se seguir assim, ao menos não apaga o que já foi vivido.

Um filme que descobre esse tema com tamanho realismo e razão não é frequente no Cinema, e por isso mesmo merece ser notado. Quando, mais que relevante, consegue ser comovente e devastador, é possível que se tenha uma obra-prima.


Namorados para Sempre (Blue Valentine), 2010, Estados Unidos, 112 minutos.

Cotação: 10/10


15 comentários:

alan raspante disse...

ai, preciso ver esse filme pra ontem!!

Marcus disse...

Que texto bom, hein! Conseguiu passar toda a profundidade do filme(e beleza, por que não?) com uma bela escolha de palavras e muita emoção. Parabéns!

Tullio Dias disse...

belo apanhado do filme. não sabia nada sobre o processo de pré-produção. a ideia de colocar um casal e filmar o filme ao longo de um espaço de seis anos é meio maluca... não sei se renderia algo tão belo quanto esse filme. mais real com certeza, mas a gente já tem que se preocupar com a realidade de nossas vidas para assistir um quase documentário sobre uma relação... sei lá.

namorados p sempre é realmente especial.

Mateus Selle Denardin disse...

ALAN, o filme é de uma beleza e densidade que poucas vezes vi numa obra sobre relacionamentos.

MARCUS, muito obrigado! Muito faltou ser comentado, mas é bom deixar que o filme conquiste cada um a sua maneira. É uma obra emocionante e, certamente, belíssima.

TÚLIO, obrigado. Também acho que filmar os dois momentos da relação no intervalo 'real' de 6 anos seria arriscado, além de exigir muito mais de todas as partes. Vendo como está, nem consigo imaginar algo mais poderoso.

Victor disse...

Tinha assistido com a minha namorada, e deu uma certa deprê na gente depois do filme. Só por isso não gosto dele! haha

Mas, sem dúvida, é um trabalho muito intenso, altamente profundo ao tratar de relacionamentos, ainda que muita coisa seja sutil. Agora a divulgação do filme aqui no Brasil foi de dar dó, demais manipuladora. Somando o título "Namorados para sempre" com aquele trailer agradável, com ele cantando e ela dançando então, já poderia entregar o título de romance mais feliz do ano. Embora concorde com você sobre a mensagem da felicidade eterna enquanto eram apenas namorados e idealização a relação.

Kamila disse...

Sou louca para assistir a este filme, mas nada de ele estrear por aqui. Acho curiosa as opiniões que leio sobre ele. Especialmente o fato do filme parecer ser uma coisa quando, na realidade, é outra. :) Fora que eu adoro a dupla Ryan Gosling e Michelle Williams.

Tati disse...

Acho o filme incrível. Sincero, doloroso e, como lembrou um dos que comentou, parece um doc sobre relacionamentos feito, claro, da forma mais intimista possível. Gostei bastante do texto.

Mateus Selle Denardin disse...

VÍCTOR, ah, então você acabou se desagradando da situação em que viu o filme, na verdade, né? Realmente, a estratégia de divulgação foi bem manipulativa. Mas, se serviu para dar um choque de realidade em quem só buscaria clichês na data dos namorados, até que me parece interessante o resultado.

KAMILA, acho mais fácil, agora, você comprar ou locar o filme, a não ser que as redes da sua cidade consigam ainda uma cópia para exibir -- e, claro, vale muito vê-lo no cinema.

TATI, obrigado! Ótimo comentário. É preciso celebrar mesmo esses filmes que vão fundo numa questão analisando uma situação bem particular, mas cujos desdobramentos são capazes de valer a todos.

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu AMO esse filme simplesmente porque ele me impressionou de forma tocante.

Até hoje me pego ouvindo a música-tema. É inesquecível.

Elton Telles disse...

Ótimo texto, Mateus.
Tenho "Namorados para Sempre" como um dos melhores filmes lançados neste ano. Retrato fiel e doloroso de um relacionamento em ruínas. Os protagonistas não poderiam estar melhores, o roteiro é bem desenvolvido e um soco. Só não compartilho a mesma opinião que a sua quanto à tradução reducionista que recebeu no Brasil, mas sua interpretação pessoal teve fundamentos e isso é que é válido =)

abs!

Houldine Nascimento disse...

Eu gostei bastante de "Namorados para sempre". Acho que o diretor realmente faz um bom estudo de formação e ruína de um casal. E o texto é firme, concordo com praticamente tudo que você escreveu.

Abraço.

Matheus Pannebecker disse...

Não lembro, nos últimos tempos, de um filme ter feito eu sentir tanto a dor dos personagens... E o pior de tudo: "Namorados Para Sempre" é triste nos momentos dramáticos e mais ainda nos momentos felizes! Ou seja, nada justifica esse título brasileiro cretino.

Mateus Selle Denardin disse...

ADÉCIO, a trilha do filme é realmente encantadora. A música-tema de que você fala seria a que Ryan Gosling toca? "You Always Hurt the Ones You Love", além de linda, tem uma letra reveladora.

ELTON, obrigado! O título nacional realmente me fascina. Traz uma certa ironia que favorece ainda mais a dramaticidade da história.

HOULDINE, Cianfrance merecia muito um maior reconhecimento por esse trabalho, acho que todos concordam com isso. Um estudo doloroso e racional (e lindo) de um relacionamento.

MATHEUS, concordo com esse compartilhamento de sentimentos do público com os personagens. Por isso a obra conseque ser tão arrebatadora, qualidade de grandes filmes. É de se repreender as intenções por trás da escolha do titulo nacional, mas gosto do título em si.

Fleur disse...

Amo o Ryan em romances. Ele realmente tem um ar romântico inquestionável. Só não gosto da atuação de Michelle Williams. Em todos os filmes que vi dela, foi pior que em Dawnson's Creek. No entanto, ainda não assisti Namorados para Sempre, então não posso falar com convicção que não vou gostar do que vou ver. Realmente espero que ela tenha melhorado profissionalmente.

Rafael Carvalho disse...

Gosto imensamente do filme e do tratamento naturalista que consegue imprimir na tela. Existe dureza nesse relacionamento que começa com a mesma ingenuidade e imaturidade com que eles mantêm até o casamento, até o fim. O melhor é que o filme não julga os personagens por essa imaturidade, se apegando com tristeza a essa relação desde o início fadado ao fracasso, com os personagens se machucando constantemente. E o que são as atuações do Gosling e da Williams, fazem uma química perfeita. A cena da dancinha na rua é ao mesmo tempo bonita e bastante melancólica.

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