Cinema: "Carros 2"


Desde que foi criado, o estúdio de animação Pixar conseguiu enorme prestígio e respeito junto ao público por sempre dar enorme importância ao desenvolvimento das histórias que seriam mostradas em seus filmes. É um cuidado que transpassa a mera trama ajeitada e os personagens carismáticos — são criações cheias de originalidade, dosadas com humor inteligente e equilibrado e, não raras as vezes, densas em suas abordagens mais dramáticas. É um desvelo irrestrito que se estende a todo processo e que, firmado num trabalho técnico que permite cada vez melhores resultados, origina obras visualmente impactantes e emocionalmente inspiradoras.

Carros 2, o filme do estúdio para esse ano, retoma os personagens do original de 2006, mas apenas isso. Se a princípio se formou algum desânimo acerca de a Pixar querer dar continuidade a um de seus produtos menos nobres, é bom ver que o que se tem aqui é uma aventura vigorosa, muito divertida e encantadora em referências e estilo, mesmo que não traga comentários e discussões tão pertinentes quanto outros trabalhos da casa. A recepção morna que a obra teve por crítica e público, portanto, parece mais resultado de se manter os votos de descrédito já alimentados há tempo com o projeto, do que de se deixar envolver por ele.

Agora é Mate, o principal personagem cômico de Carros, quem assume os eventos centrais da história. Ele acompanha Relâmpago McQueen quando este é chamado a uma série de corridas internacionais destinadas a confirmar a eficiência de um novo biocombustível, mas, ao ser tomado como um agente americano, acaba se envolvendo numa trama de espionagem que procura relações entre uma formação de carros antigos e os acidentes que vem acontecendo no torneio de corridas.

Porém, se no primeiro filme McQueen ia de carro egoísta e arrogante a um personagem que encontrou na amizade e no amor melhores valores, aqui Mate vai do atrapalhado inconveniente ao atrapalhado-que-salva-o-mundo, algo de pouco efeito dramático. Mais evidente é que tampouco se vê no guincho-mecânico uma evolução de qualidades, já que aparentemente são os outros carros que se mostram injustos e inflexíveis — uma condescendência nada sutil com o protagonista.

Esse raso desenvolvimento, entretanto, é contrabalançado por uma estrutura firme de ação e suspense, com ritmo ágil, investidas cômicas precisas e animação elaborada — as características dos carros são aproveitadas ao máximo para se desenharem expressões; há carros lutadores de sumô, carros-gueixas, o carro-Papa, carros da realeza inglesa; e tudo se apresenta num show de formas, brilhos e reflexos deslumbrantes. É, enfim, uma exposição de criatividade, que torna a narrativa atraente e envolvente.

Carros 2 foi pensado como continuação antes mesmo do lançamento do primeiro filme, e é um bom exemplo de projeto de ambições pessoais dentro de uma empresa tão diversa quanto a Pixar (o diretor John Lasseter, sabe-se, é fascinado por automóveis). Mas, como poucas franquias, foi sensata em não se repetir, alternando ambientes e tramas — com Michael Giacchino substituindo à perfeição Randy Newman, aliás — e apresentando novos personagens — Finn McMíssil, o melhor deles, com vastas referências ao universo de 007. Nessa tendência do estúdio de criar sequências (em 2013 ainda chega Monstros S.A. 2), e oferecendo uma produção tão agradável, ainda não foi o caso de se ter uma decepção.


Carros 2 (Cars 2), 2011, Estados Unidos, 106 minutos.

Cotação: 7/10


6 comentários:

alan raspante disse...

Não gostei do primeiro, então eu corri desta sequência que para mim parece ser completamente desnecessária...

Abs.

Rodrigo disse...

O primeiro é bom. Esse é mediano. Mate não é personagem suficiente pra ser o protagonista. Suas piadinhas no original funcionavam porque aconteciam às vezes. Aqui elas são usadas demais, cansando o espectador. Mas ei, é a Pixar. O design é incrível e as cenas de ação fantásticas. E claro, algumas piadas dão certo. Mas é inferior sim. Comparado a todas obras do Pixar, provavelmente o pior. Abraços.

Dr Johnny Strangelove disse...

O melhor fato a se falar é bem simples ... Esse filme expôs o perigo dos fanaticos da Pixar ... daqueles que se esqueceram que a Pixar é acima de tudo uma fabrica de sonhos ... e não somente uma produtora que quer criar obras adultas. Deslize para alguns, um filme correto para outros. Eu gostei desse filme ...

Abraços.

Kamila disse...

Não gosto do primeiro filme, que achava ser o mais fraco da Pixar. E essa continuação foi totalmente desnecessária. Uma pena... A Pixar podia passar sem essa.

renatocinema disse...

Ainda não consegui assistir a segunda parte.

Mesmo não sendo fã de continuações, espero algo agradável, mas, um pouco abaixo da trama inicial.

Andinhu S. de Souza disse...

7.0 é uma nota bem alta até rs.
O primeiro é ótimo. Quem sempre gostou de carrinhos quando criança, praticamente ganhou um presente da Pixar. E acho que foi um caso de decepção sim. este segundo, é tão passageiro, tão genérico, tão comercial, tão sem graça, que foi uma grande decepção. É só cores, Pirotecnia, tiros, perseguições, piadinhas inúteis, narrativa terrível, ah claro e um desfecho que trouxe uma tremenda desonra ao currículo da Pixar. É, não curti amigo. rs

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