Cinema: "A Onda"



A Onda, obra baseada em fatos reais, explica o sucesso (ou não) de um experimento realizado na Cubberley High School (Palo Alto, EUA), no ano de 1967, quando o professor Ron Jones decidiu mostrar aos seus alunos até que ponto alguns alemães foram capazes de alegar ignorância sobre o massacre dos judeus durante o Holocausto. Jones criou um movimento denominado A Terceira Onda, o qual inspirou, além desse filme, um livro e, até mesmo, um musical.

O longa conta a história do professor de ensino médio, Rainer Wenger (Jürgen Vogel), que, contra a sua vontade, acaba por ministrar uma matéria sobre autocracia. Notando o desinteresse na aula por parte dos estudantes, o professor propõe um breve experimento envolvendo a formação de um grupo regido por um líder autocrático. Aos poucos o mestre vai demonstrando como a base de uma ditadura se forma e como ela se solidifica, ilustrando quais seriam as estruturas psíquicas que teriam a capacidade de preparar uma população para receber um governo despótico e unificado.

Dirigido pelo jovem Dennis Gansel, e com um elenco de adolescentes estreantes, A Onda se destaca pelo seu Cast and Crew impecáveis. Seguindo uma linha de trabalho que se assemelha ao longa A Fita Branca, a obra de Gansel procura retratar o complexo psicológico que circunda a manifestação do nazismo, tentando ser um elo de esclarecimento para as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. O filme também retrata de forma geral, mas reflexiva, o comportamento da juventude alemã, tema tão recorrente na produção cinematográfica deste país, como, em Adeus, Lênin! e em Edukators. Destaque para a ótima trilha sonora de Heiko Maile, a qual consegue expressar a rebeldia do grupo através de canções que vão desde Ramones ao tradicional indie rock alemão.

A história se desenvolve a partir de conceitos básicos capazes de abrir espaço para uma tirania, como, o descontentamento de um povo, a força pela disciplina, a criação de um uniforme, o invento de uma saudação comum, a formação de uma comunidade gerida por uma unidade de poder e a elaboração de um símbolo unificador. Assim, o movimento A Onda vai sendo estruturado e aceito pela maioria dos estudantes, depositando, em cada um deles, um sentimento de pertencer a comunidade, de fazer parte de uma massa unificadora, acarretando, portanto, em uma força enérgica que ganha destaque e respeito dentro da escola. Ao mesmo tempo, a nova formação, de tão unificada, passa a ser facilmente manipulada, ganhando uma consciência coletiva que transpassa a consciência particular, diminuindo o espaço da reflexão individual, o que torna o grupo perigoso e coletivamente irracional.

Dessa forma, poder-se-ia dizer que a unidade social começa a fugir totalmente do controle de seu líder, o professor Rainer. Porém, em seu íntimo, o próprio líder é conquistado pela formação que suscitou e pelo reconhecimento que lhe foi atribuído, sendo condizente, ou, no mínimo, omisso em relação ao caminho que se grupo passa a traçar. Eis aí uma das complexidades da política tirana. Ao perceber a amplitude ilegítima que o bando atingiu, o professor decide denunciar aos estudantes o enfraquecimento do sujeito crítico que se instalou em cada um deles, devido ao poder carismático da liderança e devido ao fanatismo diante da adoção de objetivos específicos de grupo.

No filme, os sentimentos da nação alemã referentes à culpa e ao ódio da sua própria história são retratados de forma rasa. Os jovens estudantes, preocupados com a reputação pessoal no colégio, parecem ignorar os efeitos da unidade social sobre os mesmos, descartando a possibilidade de um governo autoritário surgir na esfera escolar.

Muitas das consequências que a experiência irá causar na vida dos adolescentes poderão, de certo modo, parecer exageradas aos olhos do expectador, porém, se levarmos em consideração os jovens envolvidos e os seus problemas pessoais, observamos que sempre há seres humanos mais suscetíveis, os quais serão atingidos de forma mais forte, como o personagem Tim (Frederick Lau), por exemplo. Neste microcosmo nazista, podemos perceber também algumas identidades esparsas (Karol, por exemplo), que resistem e militam contra a nova formação.

Em uma análise social, percebe-se que a ideia atualmente dominante de que as ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento dos direitos humanos são suficientes, é errônea. Esses valores universais humanitários devem ser incessantemente reforçados e trabalhados, a fim de evitar que o fenômeno do holocausto se estabeleça em qualquer grau de poder e espaço social. Assim como preconiza Zygmunt Bauman, não se deve "germanizar" o sentimento nazista, pois o germe da possibilidade de alguém se tornar um simpatizante de tendências nazistas está na essência do ser humano e se encontra enraizado na estrutura da sociedade moderna, sendo que hoje, pequenos movimentos fascistas ocorrem em menor grau, mesmo no alto estágio de civilização que nos encontramos. É nesse sentido que o filme A Onda vem nos alertar.


A Onda (Die Welle), 2008, Alemanha, 107 minutos.

Cotação: 7/10


8 comentários:

Mateus Selle Denardin disse...

Com certeza é um filme eficiente na exposição da sua tese, embora em alguns momentos ele realmente pareça exacerbar algumas consequências para evidenciar ainda mais o perigo que envolve esse tipo de, digamos, associação — e exatamente por isso perde um pouco pela falta de sutileza. Mas é uma obra tão interessante que certamente merece destaque dentre as produções recentes do Cinema alemão e, especialmente, dentre aquelas que se propõem a esse tipo de investigação. Também dou 7/10.

Thiago Priess Valiati disse...

Cara,
Antes de qualquer coisa, gostaria de me apresentar: meu nome é Thiago Valiati, cinéfilo como você, de Curitiba, 21 anos.
Estava navegando pela internet e caí aqui no seu blog. Adorei! Você escreve muito bem e domina o assunto. Parabéns!
E eu adoré este filme. Você conseguiu sintetizar de ótima forma tudo o que eu penso a respeito de A Onda.
E ah, também tenho um blog de Cinema (em fase inicial), se puder dar uma olhada e, eventualmente gostar, adicionar à sua lista de blogs também (adicionei já!), iria me sentir honrado.

Blog: http://this-is-cult-fiction.blogspot.com/

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Bacana o seu blog.
Cumprimentos cinéfilos!

O Falcão Maltês

bruno knott disse...

Após ter lido vários elogios a respeito do filme, fui atrás e gostei bastante do que vi. Ele realmente possibilita várias reflexões e acho que a principal você transmitiu muito bem: a perda do individualismo em prol de uma coletividade irracional (ou ignorante).

Belo texto.

Pedro Henrique Gomes disse...

Acredito que ele perde a força na segunda metade, aí vira dramalhão. Mas vale a experiência.

Victor Nassar disse...

É um grande filme. Leva a fundo a teoria do caos. Como bem analisado, serve de alerta para dizer que atitudes nazistas estão integradas ao ser humano, queiram ou não. Em menores proporções, acabamos por vezes a adotar comportamentos tão opressores quanto o que se viu na época.

Ótima crítica e filme!

Mayara Bastos disse...

Eis um filme de muitas reflexões, pelo modo como a manipulação no conhecimento pode levar a drásticas consequências, tanto em hábitos como na construção do caráter humano. ;)

Rodrigo disse...

Adorei esse filme. O elenco é ótimo e o roteiro muito bem construído. Merece mais que 7, pessoalmente rs. Abraços.

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