Cinema: "Thor"


Assim como muitos outros projetos para o Cinema, a ideia de um filme baseado nos quadrinhos de Thor passara por diversos possíveis diretores, roteiristas e elencos durante as duas últimas décadas. Acabou, por fim, entrando na série de lançamentos de super-heróis da Marvel a preceder a produção que os unirá — Os Vingadores, em 2012.

Thor é príncipe de Asgard (um dos nove mundos que, na mitologia nórdica, formam o universo), e está prestes a assumir o comando do reino das mãos de seu pai, Odin, quando a cerimônia é interrompida ao se perceber a invasão dos Gigantes do Gelo no castelo. Vendo aí quebrada a trégua que mantinha esses dois povos em paz há anos, Thor, exaltado e irrefletido (e desobedecendo a seu pai), reúne um grupo e vai até o outro planeta tirar satisfação com os invasores. A situação sai de controle, e Odin, sensato e respeitoso, intervém. A desordem é punida severamente: Thor é privado de seu martelo (sua fonte de poder) e expulso à Terra. Tão logo chega, num deserto, é atropelado por um grupo de cientistas que pesquisava fenômenos astronômicos no local — e estes logo se tornarão aqueles com quem aqui formará laços e que acompanharão sua gradual mudança de comportamento. O romance que logo se forma com Jane Foster (Natalie Portman), uma das cientistas, será, claro, catalisador deste processo. Enquanto verifica meios de voltar à sua terra, em Asgard seu irmão, Loki, conduz planos para se tornar o novo rei.

Pelo seu histórico de trabalhos, a escolha do irlandês Kenneth Branagh para a direção pareceu, a princípio, inusitada. No centro de Thor, intrigas familiares, lutas pelo poder, peripécias em terras estrangeiras: temas que o diretor conhece bem, em seu longo currículo de adaptações de obras de Shakespeare para o Teatro e o Cinema. Comandar um blockbuster, no entanto, era exatamente o desafio que Branagh procurava. Após ser ligado ao projeto, persistiu na ideia de localizar a história no mundo contemporâneo, a fim de poder estabelecer um choque cultural do protagonista com a sociedade atual, e daí, além do drama, tirar algum humor.

Que está presente (conduzido em boa parte pela personagem de Kat Dennings) e, embora inicialmente possa parecer deslocado ou mesmo desnecessário, é abordado de forma bastante prática pelo cineasta. O mesmo se aplica a certos virtuosismos visuais, como o uso recorrente de ângulos inclinados: Branagh não desperdiça tempo da narrativa deslumbrando-se com a própria habilidade (ou, no caso anterior, permanecendo na tirada cômica), e logo corta para a cena seguinte. De certa forma, talvez, essa economia pode até ser usada para justificar o quase abrupto arco dramático por que Thor passa — afinal, toda história parece transcorrer num período de poucos dias. Não que tudo se resolva por aí: no clímax, há um momento em que, após recuperar seus poderes, o herói vira-se para um agente da SHIELD e diz que irá colaborar com a organização caso seja devolvido a Jane o material que lhe fora tirado, e então corre para tentar retornar a Asgard — numa tentativa forçada dos roteiristas de amarrar pontas soltas da narrativa.

Alguns podem também acusar o filme de convencional, lugar-comum, cafona, especialmente no desenvolvimento do seu romance e na resolução dos conflitos familiares. Mais uma vez, entretanto, a direção de Branagh parece imaculada. Tudo é conduzido, encenado e interpretado de forma que o resultado surge sincero, verossímil e tocante — às vezes até ingênuo. Vale então mencionar, aqui, que no campo das atuações ao menos duas são excelentes: a do próprio Chris Hemsworth, que faz o personagem-título (e que anteriormente teve apenas um papel numa produção maior, como o pai do capitão James Kirk no Star Trek de J. J. Abrams), e a de Tom Hiddleston, que faz seu irmão. Enquanto o primeiro dá toda a densidade e credibilidade de que Thor precisa, o segundo vai aos poucos desvelando as intenções e camadas de personalidade de Loki — e ambos conseguem justificar as transformações experimentadas por seus personagens, mesmo que no roteiro elas não recebam o melhor tratamento.

Porém, embora consiga apresentar com certa eficiência seus temas e tramas, não se pode isentar o filme pela falta de desenvolvimento apropriado que algumas situações requeriam. Além disso, a desconsiderar os vínculos e obrigações que toda adaptação tem com seu material de origem, é visível que a estrutura aqui fica amarrada a uma espécie de preparação para algo maior, uma ligação burocrática que certamente priva da história certos rumos e liberdades. Mesmo assim, Thor é agradável, visualmente encantador e divertido. Branagh, afinal, mostrou ser o diretor adequado.


Thor, 2011, Estados Unidos, 115 minutos.

Cotação: 7/10


6 comentários:

Marcus Cramer disse...

Daria exatamente a mesma nota. Cumpre bem sua função de blockbuster mas não vai além disso.

natalia disse...

Gostei mto da atuação tb de Tom Hiddleston. É exatamente o que vc disse, conforme seu personagem vai mostrar seu carater, ele muda sua expressao junto, de forma convincente.

Agora, de resto, eu achei Thor fraquissimo demais, e mto disso é por conta da mão do diretor... As piadas prontas no que diz respeito a Thor e seus amigos no mundo "contemporâneo" soa patético quase em todas as cenas... Por incrivel que pareça, gostei mais de Capitão América que nem traz um roteiro tão bacana quanto o que Thor seria capaz de trazer... Pena.

Abs!

Mateus Selle Denardin disse...

Quando escrevo no texto que o humor "inicialmente possa parecer deslocado ou mesmo desnecessário", é porque foi o que mais me aborreceu no filme quando o vi pela primeira vez (embora já o tenha adorado). Na revisão, percebi que isso pouco influenciava no ritmo, e até me deixei envolver por algumas piadas. Ainda acho que há demais, mas ao mesmo tempo faço questão de destacar a maneira como elas são expostas. Ao contrário de muitos filmes, que deixam a piada esvair-se no constrangimento, aqui nem há tempo para isso. Nem para uma auto-admiração de movimentos de câmera, efeitos visuais, ângulos. O filme é ágil, e quando espera, é para cenas realmente mais importantes.

Thiago Priess Valiati disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
- cleber eldridge disse...

Sem qualquer expectativa aguardo essa nas locadoras.

Rodrigo disse...

O filme é legal e tal, mas qual é a dos ângulos tortos? Como Thor muda tão rápido de caráter? Vale pelo elenco mesmo. Mas todo segundo percebemos que tudo parece uma preparação para os Vingadores. E isso é ruim. Diverte, afinal, porém é mediano em seu conjunto. Abraços.

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