Cinema: "Rio"


Blu é uma arara azul, último macho de sua espécie, que vive em Minnesota com sua dona, Linda. Quando filhote, foi raptado das florestas do Rio de Janeiro e, enquanto era contrabandeado para os Estados Unidos, o caminhão que o transportava sofreu um pequeno acidente, deixando cair a caixa em que estava. A pequena Linda o encontrou e o tomou sob seus cuidados, formando forte conexão com o pássaro, o qual a acompanhou nos momentos mais importantes de sua vida. Tamanha dedicação lhe renderam certos melindres, e assim Blu nunca viu necessidade de, por exemplo, voar. Quando o ornitólogo brasileiro Túlio por acaso acaba o encontrando, convida dona e animal a passarem algum tempo no Rio, onde há uma arara fêmea, Jade, e, portanto, a possibilidade de perpetuação da espécie. Já no Brasil, a hesitação de Linda então encontra justificativa ao saber que ambas as aves foram sequestradas. E estas, acorrentadas uma à outra, terão de sobrelevar as diferenças (muitas; certamente as vivências completamente distintas criaram hábitos intangíveis) para tentarem se salvar, encontrando no caminho a ajuda de diversos animais e a oposição de alguns outros.

A direção é do cineasta carioca Carlos Saldanha, que vem trabalhando no ramo de animações desde a década de 90, tendo realizado junto a Blue Sky sucessos de público como a trilogia A Era do Gelo. Rio, projeto pessoal que Saldanha desenvolvia há anos, acaba se estabelecendo como uma homenagem à sua cidade natal — e no processo acaba relevando muitas coisas.

Primeiro, a força da história. Rio, embora uma obra original num ano dominado por continuações cinematográficas, tampouco faz por merecer muito crédito. Além dos vários lugares-comuns narrativos (e piadinhas físicas obsoletas), o roteiro pouco se empenha no desenvolvimento de seus personagens, rendendo-se principalmente a sequências de ação ou de deslumbramento da cidade. Nada mais trágico, no entanto, que suas tentativas musicais, que não mostram qualquer traço de inspiração ou encantamento, e normalmente surgem deslocadas, prejudicando o ritmo da narrativa.

Segundo, a relevância da história. Era esperado e em parte justificado que muitos dos problemas do Rio de Janeiro fossem suavizados ou ignorados na concepção do filme, mas o que acaba ficando é uma visão quase idealizada das coisas, privando de Rio certos traços de complexidade que talvez deixassem a história mais interessante. Ainda, a se considerar o poder, ativismo e denúncia que certas animações conseguem transmitir, o que se vê aqui é então mais uma oportunidade desperdiçada. E que não se fale que, por essas escolhas, Rio é despretensioso. Mais adequado seria dizer que é preguiçoso.

Terceiro, o visual da história. Com desenhos de traços grossos e sem muito rebuscamento, a obra perde em detalhes e não raro se entrega ao cartunesco, o que mostra que também não traz grandes avanços na parte técnica (ficando separado, neste sentido, por um abismo a outras animações do ano, especialmente Rango).

Ainda assim, o filme tem seus meios de compensar a sessão: os protagonistas ganham em carisma e conseguem momentos envolventes; há os coadjuvantes divertidos, tipicamente representando as melhores investidas de humor; têm-se belos arrebatamentos de pura contemplação visual, por vezes focando em pontos turísticos da cidade; e há uma boa porção de canções originais que pontuam bem diversas cenas, criadas para a trilha sob a supervisão do talentoso Sérgio Mendes. O que, entretanto, não é suficiente para fazer de Rio um trabalho criativo, importante ou memorável. Uma boa aventura, mas enfraquecida pela abordagem romantizada e simplista de seu diretor.


Rio, 2011, Estados Unidos, 96 minutos.

Cotação: 6/10


10 comentários:

Marcus Cramer disse...

Sendo morador do Rio, em alguns momentos o filme bateu de forma diferente. No entanto, é impossível negar o fiapo de história, a falta de profundidade. Parece que os anos fora de sua cidade natal deixaram Saldanha mais ingênuo. Ele quis tanto fazer uma homenagem e se esqueceu de realizar um grande filme.

ligadona disse...

Gostei muito de Rio..Cumpriu sua missão de entretenimento!
=1

Pedro Henrique Gomes disse...

Boa Mateus. Eu acho um filmeco, como diria Sganzerla.

Matheus Pannebecker disse...

Acho a homenagem válida, mas o problema de "Rio" é a total previsibilidade do roteiro. Tudo simples, sem ousadia. O que é uma pena, já que a história tem personagens extremamente divertidos e carismáticos!

Natalia Xavier disse...

Eu gostei da animação. Bem verdade que tem os cliches, mas abstraindo isso, dá pra ver uma boa animação com gráficos incriveis.

Bjs!

Andinhu S. de Souza disse...

Tbm gostei. Bem colorida, divertida, bobinho, previsível, mas dá pra sair satisfeito da sessao

Lailet disse...

nossa, acredita que ainda não assisti Rio? Vi algumas partes, talvez ele até o meio +/-. Pois estava assistindo uma parte com meu primo.
Eu acho que esse filme pode virar uma saga uahauh

Confira e comente no meu blog também! Vamos nos seguindo
http://lailet.wordpress.com/

Cine Mosaico disse...

Tiro o chapéu para o excelente visual do filme, mas a história
em si não me encantou. No máximo um bom entretenimento.

Matheus Fragata disse...

Ah, meu xará, gostei muito de "Rio", mas reconheço que a história do filme é pouco aproveitada.
Abraços!

José Francisco disse...

Sem dúvida, Rio perdeu uma excelente oportunidade para se tornar inesquecível.

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