Cinema: "Bruna Surfistinha"



Há aqueles que esperavam muito do filme, e há aqueles que, como eu, dirigiram-se ao cinema sem expectativas, somando em um saldo final algumas surpresas. Com frases publicitárias no estilo "Seu namorado quer ver? Então mostre pra ele." e "Vá com seu namorado, suas amigas ou sozinha. Só não vá com preconceitos.", a distribuidora do filme já anunciava que a abordagem realizada sobre a vida da garota de programa Bruna Surfistinha seria, em sua essência, artificial. Quando saí do cinema fiquei feliz por não ter sido uma total decepção.

Com graves erros de roteiro, mas com ótimas sequências de gravação e tomadas de câmera, o diretor estreante Marcus Baldini consegue não deixar a narrativa cair na monotonia, seja pela bela atuação de Deborah Secco no papel da prostituta ou pelas inúmeras cenas de sexo espalhadas durante o longa. Ressalta-se que tais cenas sexuais foram trabalhadas de forma inteligente, não havendo que se falar em sexo gratuito com o objetivo único de agradar o público, mas sim de uma estratégia de roteiro em introduzir-nos no dia-a-dia de uma meretriz, automatizando o seu estilo de vida e, consequentemente, transmitindo-nos suas sensações.

Ainda que a rotina de Surfistinha tenha sido trabalhada de maneira satisfatória, é inegável que o diretor acaba tornando-a mais divertida do que talvez fosse na realidade, minimizando certos fatores sociais que de fato ocorrem na atmosfera noturna, deixando-a mais suave e engraçada em certos momentos. Destaque para a atuação de Fabiula Nascimento (Janine), colega de quarto de Bruna, a qual nos proporciona várias gargalhadas com sua histeria habitual. Além da abordagem minimalista a fim de dar alguns intervalos de diversão ao espectador, ainda há no filme o objetivo de mostrar que no fundo de sua sã consciência, Bruna idolatrava sua arte de ofício.

Deborah Secco é tão competente no papel da garota de programa, quanto é uma tragédia na personagem de Raquel. Em um misto de safada, tímida e nerd, Deborah não se encontra na pele da colegial e, oscilando entre santa e rebelde, não consegue demonstrar qual a origem da decepção com a própria vida e da infelicidade de suas relações familiares que, em tese, teriam-na direcionado para a prostituição. Claro que, corroborando com sua atuação indefinida, temos uma narração em off tão falha quanto o roteiro, este fraquíssimo no quesito argumento inicial, ou seja, a história não consegue ser profunda em nenhum momento, dando justificativas psicológicas ridículas como "queria causar algum tipo (?) de reação nos meus pais!".

Além do roteiro precário, observamos falhas principiantes de maquiagem, que, tentando demonstrar que Raquel é uma menina depressiva, esquece-se de deixá-la com uma aparência de uma jovem que cursa o ensino médio, ficando escrachada a incompatibilidade da idade da atriz com a idade da personagem que interpreta (sem falar na tatuagem artificialíssima do famoso escorpião). Assim, o início do filme deixa a desejar, sendo que a história começa a ganhar ares satisfatórios no momento em que Raquel decide assumir sua nova vida, passando a residir com outras prostitutas.

Um destaque que pode ser dado ao filme é a cena que retrata o primeiro programa de Bruna, filmada de forma amarga, suscitando uma certa revolta a quem assiste. Infelizmente, essa experiência é desconstruída, de certo modo, ao final do filme, quando descobrimos que seu primeiro programa foi, também, seu primeiro amor. Essa destruição e reconstrução recorrente da protagonista é uma fórmula muito utilizada pelos roteiristas do longa, tornando a história previsível e repleta de reflexões rasas.

Da metade para o final do filme, o ritmo das cenas aumenta exponencialmente, o que não chega a prejudicar a regularidade do longa, embora cause um pouco de descompasso em sua narrativa. Dessa maneira, o diretor utiliza-se de uma biografia relativamente conhecida, fazendo com que brinquemos de revelar os próximos passos da vida de Bruna com certa facilidade.

Mesmo com todos os devios é possível extrair do filme alguma mensagem sobre, por exemplo, a importância do sexo em uma relação amorosa, tudo de forma bem plastificada e sintética. Bruna Surfistinha é, inegavelmente, uma obra divertida sobre uma mulher que descobriu, em meio a altos e baixos em sua vida, que gosta do que faz, ainda mais se isso lhe retribui fama e dinheiro. É um filme que não será lembrado pelo seu conteúdo, mas pela temática sexual que traz e pelas belas curvas de Deborah Secco. É uma pena, pois poderia ser diferente.

Bruna Surfistinha, 2011, Brasil, 109 minutos.

Cotação: 6/10 


12 comentários:

Dr Johnny Strangelove disse...

Talvez de tanto duvidarem do projeto, em não ter são catastofico quanto imaginava soa como uma grande surpresa. Talvez veja quando volte para o Brasil já que ainda devo alguns filmes nacionais atuais como tropa de elite 2 e outros ai que me esqueci o nome. Mas tem o festival de cinema brasileiro no fim do ano ... vamos ver se rola ...

Abraços.

Alan Raspante disse...

Acho que pelo fato de ir ao cinema já esperando o pior, acabei vendo o filme com um saldo mais positivo. Claro, que o ponto fraco é o roteiro e a rídicula narração em off. Precisava daquela narração no primeiro programa dela? A imagem por si só, já dizia tudo... Mas, enfim, gostei mais do que previa :D

Rodrigo disse...

Me diverti. Não esperava que fosse ruim, mas também não esperava nada grandioso. A atuação de Deborah Secco vale o show. Beijos.

Jana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jana disse...

ente! Fui no cinema achando que o filme seria ruim e saí de lá achando pior ainda do que eu esperava. Não falo isso fazendo análise de fotografia, enfim... mas da história em si. Filme puramente comercial! Não li o livro, mas se realmente se baseou no mesmo, só tenho a lamentar...

Matheus Pannebecker disse...

Não tinha expectativa alguma com esse filme (até porque detesto Deborah Secco), mas "Bruna Surfistinha" me surpreendeu completamente! Além da Secco estar ótima, é um filme bem embasado em seus dramas. Aprovei =)

Pedro Tavares disse...

Tem a dosagem certa pra fugir do lado careta e moralista do cinema "novela" e ser abraçado pelo grande público (também moralista) sem grandes problemas.

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu acho que o segredo é assistir sem preconceitos mesmo. Fiz isso e não me arrependi.

Victor Nassar disse...

Ainda não conferi. Mas parece que o rendimento foi até satisfatório mesmo. Pobre foi a divulgação que fizeram, de muito mal gosto, quase como um filme pornô.

Wallace Andrioli Guedes disse...

Bom filme, agradável surpresa. O início e o final são fracos, mas o miolo é de alta qualidade. Secco está ótima.

Rafael Carvalho disse...

Só o fato de pordermos dizer que a atuação de Deborah Secco é boa (e parece uma quase hunanimidade que isso seja ftro) já é um grande atrativo para ver o filme, surpreendetemente mais interessante do que a pura construção dos programas dela. Tem realmente seus problemas de roteiro, mas podia ser muito pior.

Postar um comentário

top