Cinema: "Sucker Punch: Mundo Surreal"


É notável a popularidade que, com não muitos trabalhos na carreira, o cineasta Zack Snyder conseguiu nos últimos anos — não raro, os mais entusiasmados o chamam de visionário, o que é um certo exagero. Suas obras aos poucos foram consolidando suas marcas: o virtuosismo na composição das cenas, as escolhas inspiradas de canções para a trilha, os arrebatamentos de cores supersaturadas, o apoio constante nos efeitos visuais e, a mais notória, o uso frequente da câmera lenta. (Comum é se observar, aliás, que todas elas normalmente são citadas tanto para elogiar quanto para criticar os projetos do diretor.) E todas elas aparecem neste seu quinto filme, Sucker Punch: Mundo Surreal, o primeiro em que Snyder trabalha com uma história original sua.

Pois sendo assim a chance de o diretor explorar com maior liberdade narrativa e visual uma trama que demonstrasse um verdadeiro autor, original e criativo, o resultado não passa do decepcionante. Após perder a mãe e ter a irmã assassinada pelo padrasto, a protagonista é levada por este a um manicômio e, tão logo chega, seu carrasco e o diretor do local já lhe arranjam uma lobotomia para dali cinco dias. Este será o tempo, então, que Baby Doll (Emily Browning) terá para encontrar uma maneira de fugir dali. Que ela o faça enquanto fantasie com um universo em que é uma dançarina de cabaré (o próprio hospício, com os mesmos personagens e mais estilizado), e de onde, mais uma vez, transporte-se a novos universos onde é uma guerreira e segue instruções que eventualmente lhe ajudarão a escapar do hospital, é o máximo de complexidade que a história aparentemente consegue.

Numa análise menos extravagante, essas evasões fantasiosas para o cabaré podem apenas ser uma extensão da interpretação que as pacientes devem fazer conforme sugere o tratamento da doutora Vera Gorsky (Carla Gugino, caricata e divertida). Ou, por outro lado, Snyder deixa pistas de que, enfim, pode não ser Baby Doll a criadora dessas ilusões (o que seria mais interessante). Mas isso pouco importa, afinal; agravante é ver que o cineasta não consegue imprimir significado e importância às cenas para além do que o que elas mostram. Fosse o filme visualmente envolvente e arrebatador — o que não é; é aborrecido e repetitivo —, poder-se-ia atenuar nesse sentido. Mas, já foi dito, a narrativa é um roteiro de videogame (e nada é visto com maior profundidade): as personagens precisam enfrentar batalhas e obter itens para conseguirem passar ao próximo nível — vestidas em trajes curtos, segurando potentes armas e ao som de uma trilha extenuante.

As cenas iniciais, anteriores à chegada da protagonista ao manicômio, são de uma praticidade e beleza necessárias: em câmera lenta e sem qualquer fala, Snyder conduz a ação com precisão e cuidado. Ao que decide pelo esgotamento desses e de seus outros recursos ao longo filme, acaba por cansar seu espectador. O surreal a que se refere o subtítulo brasileiro, então, só pode evidenciar uma coisa: como é sem graça uma mente rebelde.


Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch), 2011, Estados Unidos/Canadá, 110 minutos.

Cotação: 3/10


9 comentários:

Flávia Hardt Schreiner disse...

Com este filme, Zack Snyder caíu em um poço fundo. Espero por Man of Steel!

Dr Johnny Strangelove disse...

Snyder erra em seu estilo, mas também é um erro necessário já que pelo menos é agora perceber quais são os pontos que necessitam melhorar e no que precisa excluir. Uma notoriedade que vale a pena comentar nesse filme e não foi comentado na resenha própria do filme envolve a questão do valor das músicas tocadas nas sequencias de ação nos quais são peças chaves para a compreensão de toda a trama.

E sim, os covers funcionam fora do filme, isso que é legal.
Mas infelizmente é um The Fall extremamente bem piorado no qual tira o lirismo de uma história fantastica para colocar algo fantasticamente chato.

Abraços.

Gustavo disse...

"O surreal a que se refere o subtítulo brasileiro, então, só pode evidenciar uma coisa: como é sem graça uma mente rebelde."

Adorei essa sentença!

Dificilmente verei o filme. Parece o suprassumo do supérfluo.

Rodrigo disse...

Na época do lançamente faria tudo para assistir. Hoje, espero pelo DVD. Sempre achei Snyder supervalorizado. Talvez qui seja onde as pessoas realmente percebam isso. Porém pretendo ver e tirar minhas próprias conclusões. Abraços.

alan raspante disse...

Não vou negar que gostei bastante por conta do visual e alguns aspectos. Mas, é verdade que "Sucker Punch" derrapa feio em diversos aspectos, principalmente no roteiro pífio e aquela lição de moral desnecessário.

[]s

Renato Temponi Domingues disse...

Zack Snyder continua sendo um bom diretor, na minha opinião - principalmente em desenvolver cenas de ação. Porém, quando o assunto é roteiro, ele mostrou que não se sai muito bem mesmo. Afinal, um roteirista que não liga para o desenvolvimento e até mesmo exploração das personagens e insere elementos tão superficiais (e infantis!) à trama não serve para ser roteirista!

Linkei seu blog lá no meu ... se puder fazer o mesmo, agradeço :D

www.contaecinema.wordpress.com

Adecio Moreira Jr. disse...

Embora sua crítica seja negativa, Sucker Punch se tornou meio queridinha de alguns nerds. Com tantos comentários negativos, fico me perguntando: "Por que será?"

Mateus Selle Denardin disse...

Não cheguei a comentar sobre os outros filmes do diretor, mas, para mim (que gosto de 300 e adoro WATCHMEN), ele já havia desapontado bastante com aquela que talvez seja a animação mais insuportável a que já assisti, A LENDA DOS GUARDIÕES ("Confie na sua moela!"), do ano passado. O que mais me incomoda em SUCKER PUNCH é justamente o filme não ter nada por onde envolver, já que as sequências de ação (o que domina a obra) são bem desinteressantes -- eu não gosto até mesmo da luta inicial com os samurais gigantes, normalmente citada como uma bela cena (acho os efeitos visuais meio medíocres nessa sequência). E então você pega a mesma estrutura fraca e a repete mais algumas vezes e pronto: fica cansativo. Eu até nem me importo muito com as tais mensagens (idiotas) sobre anjo da guarda e etc. que o filme traz, mas para mim ele não se sustenta em nenhuma abordagem.

Sobre as canções, realmente dizem muito sobre o que está acontecendo na tela, mas, particularmente, achei-as intragáveis. À exceção de uma ou duas na voz de Browning, gosto apenas de "Love Is the Drug", apresentada nos créditos (meu momento favorito do filme).

Espero que Snyder receba bons conselhos no próximo SUPERMAN. Em boas mãos ele está.

Obrigado pelos comentários.

Rafael Carvalho disse...

Zack Snyder parece que tem um brinquedo caríssimo em mãos, mas não sabe como brincar. Gratuito é uma palavra boa para taxar o filme, embora fake possua um duplo sentido bem oportuno: é falso pelo tom fantasioso que se quer exprimir, mas falso também pela fragilidade e frieza com que relaciona o drama de seus personagens com o universo em que está inserido.

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