Cinema: "Rango"


Numa sequência belíssima de Rango, o camaleão que dá título ao filme caminha sem destino após ter suas mentiras expostas, totalmente inerte ao exterior, parte devastado, parte compenetrado na busca de uma explicação para a linha de eventos que o levou até ali. Isso acontece, no desenvolvimento do arco narrativo, no terceiro ato de projeção, e até aí o que se viu foi Rango buscando uma identidade, uma definição, um sentido à sua existência. A lição final: tornar-se o protagonista de sua própria história.

O camaleão doméstico viajava na carroceria do veículo de seus donos, dentro de uma espécie de aquário, quando, num acidente, é jogado para fora e se vê perdido em meio ao deserto. Em busca de água, acaba chegando a um pequeno vilarejo que, justamente, vem padecendo sob a escassez desse recurso. Alguns acontecimentos e muita sorte acabam-no levando a se estabelecer como um animal intrépido e astuto — algo de que a população dali necessita. Rango sabe que não é tudo isso, mas encara o papel (seu nome, aliás, é parte da interpretação). E é promovido à xerife. No momento em que decide, então, tomar parte do problema, as ameaças começam a ganhar forma, e o réptil se vê em meio a uma trama de conspiração, ganância e exploração. Ele não só precisará se evidenciar como herói; primeiro — e mais difícil e doloroso, terá de se reconhecer como tal.

O diretor Gore Verbinski encontrou na animação uma forma de homenagear — e, com a diversidade e a estranheza de elementos e referências, de sublevar — um gênero tão caro ao Cinema americano, o faroeste. Para tanto, encontrou na poderosa empresa de efeitos visuais Industrial Light and Magic o arsenal técnico para concebê-la (vindo o filme a ser o primeiro longa metragem animado totalmente desenvolvido pela companhia de George Lucas). Após um ano e meio trabalhando no roteiro, o passo seguinte foi realizar a dublagem dos personagens. Assim, e buscando exercer mais próximo dos atores a função de direção, Verbinski quis seus intérpretes atuando e interagindo entre si conforme pedia a história, o que foi filmado e usado como referência durante a criação da animação junto à ILM (num processo abreviadamente chamado de emotion capture).

E o resultado é assombroso: texturas, cores e movimentos são o ápice que o formato já conseguiu alcançar. Novamente atuando como consultor visual após as notáveis contribuições em Wall-E e Como Treinar o Seu Dragão, Roger Deakins aqui auxilia na criação daquela que talvez seja a fotografia em CGI mais fiel e arrebatadora já concebida. Mas destacar a técnica de Rango é cair no lugar-comum: ela é impecável, e está para ser superada.

É talvez mais espontâneo, no entanto, encantar-se com os personagens e as inúmeras referências. No primeiro caso, seja com o grupo de corujas mariachis que cantam a desgraça alheia, seja com os inúmeros animais que são desenhados às características do velho oeste (e é tudo tão rico e único que é impossível passar indiferente). No campo de homenagens, a própria trilha sonora representa uma surpresa: a música de Hans Zimmer rememora algumas inesquecíveis composições do grande Ennio Morricone, tão representativas dos faroestes spaghetti de Sergio Leone. Mas não só: além de uma enorme galeria de obras e ícones do gênero dos quais o filme toma emprestado alguns elementos, há ainda menções a trabalhos mais populares, como Star Wars e O Senhor dos Anéis, e, numa mesma sequência, aos tão distintos Apocalypse Now e 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Ao público cabe o envolvimento (ou não) com algo tão ímpar, diferente, estranho. O diretor declarou que Rango foi feito tendo-se em vista uma concepção live action, e é fácil percebê-lo desta forma. É, a resultado das escolhas dos cineastas, uma obra inovadora — tanto em visual quanto em narrativa. Seu centro, a ser olhado com sensibilidade e entendimento, pode identificar-se mais facilmente com uma plateia mais madura, mas há ali também a emoção e a diversão para seduzir os mais jovens. De qualquer forma, a profundidade e o deslumbre de um faroeste intimista com traços místicos, que refere e celebra o Cinema e criado à luz da inteligência e da tecnologia, não deve ficar à dúvida: é imperdível.


Rango, 2011, Estados Unidos, 107 minutos

Cotação: 7/10


14 comentários:

João Carlos disse...

Eu gostei do filme, mas a crítica não conta tudo, o filme tem uma trilha sonora típica do México, a fotografia da animação é perfeita, muito inovadora para uma animação, muito boa, gostei muito

Marcus Cramer disse...

Senti falta de ter capturado mais referências no filme, principalmente sobre o western, gênero com o qual não estou muito familiarizado. Mesmo assim, gostei muito.

Rodrigo Mendes disse...

O filme passeia mesmo pelo vale árido americano do western.Sua citação ao Apocalypse Now é fabulosa tbm.

Grande momento de criação da IL&M e Gore Verbinski, uma fita divertida e fabulosa.
Como RIO do Saldanha, a melhor animação do ano...no páreo!

Abs.
RODRIGO

Rodrigo disse...

Ai, preciso ver urgente. Tipo, agora. Abraços.

Ana Luiza disse...

Vc disse pro Junior o q escrever, hein? Não vale!
Tá, mas voltando ao assunto.
Eu DEVERIA ter ido ao cinema assistir a esse filme. Deveria, se não estivesse nas minhas "crises deprês" de ultimamente. Sem contar que de uns tempos pra cá, não vejo mais tanta graça assim em ir no cinema assistir filmes. Talvez é porque nesse CÚ-biculo de cidade não passa tanta variedade assim e coisas que me chamem a atenção. Mas não parece ser o caso desse filme. Vou "reservar" um canto para olhá-lo, talvez depois de eu ver A Noiva Cadáver ou algum outro filme de massinha ou do gênero.
Não sei se acharei mais legal que Rio. Rio me fez voltar aos velhos tempos... quando eu olhava filmes divertidos em casa, deitada no quarto dos meus pais com a minha irmã e algumas vezes com o meu pai cesteando junto(ele acabava dormindo antes da metade dos filmes).... Sem contar que Rio é original.... tomara q concorra ao Oscar(não sei se já passou a época dele concorrer).

Tá , me estendi demais. FUI!

Kamila disse...

"Rango", para mim, foi uma animação mais dirigida ao público adulto que ao público. A trama tem nuances que só serão melhor compreendidas pelo público mais crescido. Muita gente gosta das referências ao spaghetti western, mas eu acho que o grande trunfo da animação é ter personagens carismáticos e uma trama que não chega a ser cansativa, apesar do ritmo acelerado. Parabéns pelo texto!

Robson Saldanha disse...

Eu gostei bastante da animação. Achei deveras bem representado no mundo do faroeste e o personagem principal tem um carisma que encanta logo de cara... Só preciso rever, visto ue a ualidade do áudio no cinema que fui era deploravelmente alto.

mulhollandcinelog disse...

RANGO, conforme aí descrito, parece diferente daquelas animações fofinhas-bonitinhas-tontinhas-para-criancinhas-bem-pequenininhas que infestam o mercado. Parece ter uma identidade própria. O qu é um atrativo para quem não curte muito o gênero.

Andinhu S. de Souza disse...

To doido pra assistir =/

...e agora José? disse...

Preciso ver esse... esta na minha lista e, depois do seu post, fiquei com ainda mais vontade assistir...

Alan Raspante disse...

Eu assisti no cinema. Não era um bom dia para ver uma animação e etc, não estava muito animado, sabe? Sem contar que a criançada estava tão desinteressada neste filme, que foi uma bagunça só. Enfim, foram duas horas de "inferninho", naquela sala... Não via a hora que acabava logo o filme hehehe Apesar da situação, consegui ver o filme e tals, mas ele não me agradou tanto... É bacana, só.

Victor Nassar disse...

Achei EXTREMAMENTE bem feita! Uma nova vertente de animações, mais adulta, com "fotografia" única e trilha contagiante. A parte técnica é realmente impecável, como você disse. Mas só achei o protagonista carismático, não consegui nem mesmo gostar dos outros personagens. O sotaque me irrita, a aparência deles me incomoda. Entendo que a história tenha lá a sua mensagem, mas ainda acho muito pobre. O velho conto do forasteiro mentiroso, que é desmascarado e precisa fazer algo maior pra provar a todos o seu valor. Bleh. Cansei.

Rafael Carvalho disse...

Visualmente o filme é memso um deslumbre, Mateus. Mas o roteiro também é muito bem cuidado, com um senso de aventura incrível, ao mesmo tempo que dialoga muito bem com vários dos recursos estéticos e narrativos do western. Uma surpresa esse filme vindo do Verbinski.

Jacques disse...

Pelo que você diz, o filme realmente vale a pena.
Dizem que o humor desta animação é caótico e inteligente.
Valeu pela sugestão.
Até mais.

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