Cinema: "Biutiful"


Biutiful retrata a vida de Uxbal, uma pessoa aparentemente simples em uma estrutura social complexa. Um filme desconfortante e de difícil apreciação, pois nos apresenta uma realidade na qual não estamos diretamente inseridos, não desejamos estar, e não queremos aceitar que existe. Biutiful inicia-se com uma história enigmática, mostra o universo chocante no qual a trama irá se desenrolar e trabalha com variadas questões relativas à sociedade, como a disparidade social, a prática de negócios ilícitos, a questão da crendice popular, entre outras.

Uxbal (Javier Bardem) é retratado sob vários ângulos. De um lado coordena atividades ilícitas que lhe proporcionam seu principal sustento. De outro lado possui o dom de falar com os mortos, o que lhe rende alguns trocados. Não bastasse isso, Uxbal ainda é pai de dois filhos e, além de se responsabilizar por eles, acaba tendo que cuidar de sua ex-companheira Maramba (Maricel Álvarez), uma mulher viciada e instável psicologicamente. É impressionante observar como o diretor Alejandro González Iñárritu consegue nos imergir em cada um desses ângulos, afogando-nos na vida do protagonista.

Indiscutivelmente que a direção de Iñárritu se torna presente em seu modo característico de retratar seus personagens como vítimas da sociedade e em dividir com o telespectador sua visão pessimista (ou talvez, realista?) de mundo. Ao centrar-se na vida de um único personagem, Alejandro González Iñárritu rejuvenesce seu estilo no retrato de histórias paralelas, pois aqui, ao invés de oscilar entre vários personagens, o diretor despedaça a vida de um homem só. Além da direção, Iñárritu também assina pelo roteiro, abandonando a parceria com seu antigo roteirista Guillermo Arriaga, o qual escreveu a Trilogia da Morte (Amores Brutos, 21 Gramas e Babel).

Nos pormenores do filme, o roteiro por vezes é confuso. De fato, é difícil pôr em tela tantos fatos paralelos, tantas mazelas sociais e tantas reflexões sobre o material e o imaterial. As ditas crenças trabalhadas no filme são, por vezes, inseridas de forma aleatória sem, de concreto, contribuir para a progressão da história. Vê-se aí talvez uma dificuldade que Iñárritu encontrou ao abandonar a parceria com Arriaga, pois, mesmo que aquele tenha sido responsável por ambos roteiro e direção, não se observa perfeita homogeneidade entre eles.

Deixando de lado os tropeços do longa, sua beleza se dá justamente na crueza e no amargor da fotografia, a qual é escura, sombreada, carregada de uma luz extremamente compatível com o real. A edição de som do filme também se preocupa em transpor com realismo os sentimentos do protagonista para a telona, como em uma cena em que ele abraça sua filha e o compasso da batida cardíaca do personagem é claramente audível. A complexidade da trama se reflete nas responsabilidades que Uxbal tem, principalmente na insistente tarefa em resolver questões pendentes de sua vida, as quais vão se tornando bolas de neve. Desde o início do filme, viver é uma tarefa árdua, um karma como diriam os budistas, um sonho difícil de ser concretizado.

Em relação às atuações, Javier Bardem apoia seu personagem em uma interpretação lírica, demonstrando a vivência infortunada de um sobrevivente da atroz sociedade, de um cidadão rodeado por violência e ciente de que suas opções de sucesso são baixíssimas. As atuações dos filhos de Uxbal são convincentes e meticulosas, principalmente a atuação de Guillermo Estrella (Mateo). Maricel Álvarez surpreende em um papel desafiador, pois é segura e robusta em sua interpretação.

Erram aqueles que pensam ser Biutiful um filme sobre a morte. O filme é sobre a vida, sobre uma trajetória reproduzida em seus cruéis detalhes, sendo que quando a morte é retratada no filme, esta sempre oscila entre duas interpretações: a da libertação ou a da maldição. Há também um cunho social muito forte dentro do filme, pois este deixa claro que o fato de o personagem apenas sobreviver provém de uma hierarquia social estratificada, de uma clara falta de oportunidades para uma vida digna.

Biutiful, portanto, é intenso para aqueles que conseguem mergulhar em sua aflitiva história. Mesmo com os seus tropeços, o filme segue uma lógica interessante e original, sendo uma contraproposta às fórmulas hollywoodianas. É um filme que vale as horas gastas, mesmo que for apenas para descobrir que beautiful não é a vida do protagonista e, vai ver, por esse motivo é que se escreve errado.


Biutiful, 2010, México/Espanha, 148 minutos

Cotação: 7/10


11 comentários:

Rodrigo disse...

Gostei muito do filme. Talvez um pouco forçado demais, porém é realista e muito bem atuado, principalmente pelo Bardem e por Estrella, incrivelmente marcante. Bom texto. Beijos.

Daniel Isaia disse...

Gostei da análise, muito parecida com a minha opinião sobre o filme.
Beijão!

Matheus Pannebecker disse...

Acho que se não fosse por Javier Bardem eu teria morrido de tédio nesse filme. O ator está fenomenal e cheio de momentos marcantes!

Janaína disse...

Báh! Sou muito suspeita pra comentar aqui, mas tudo bem. Adorei a crítica, na realidade, foi mais ou menos o que eu imaginei que escreverias. Primeiro, adoro filmes que seguem essa linha, de certa forma, realista, que mostram o que ninguém quer ver, mas que é a triste realidade da maioria. Muitos preferem filmes cheios de efeitos e finais felizes, muitas vezes pobres no roteiro e completamente fora da realidade, que não exigem grandes reflexões e nos afastam do mundo real em que nem tudo (na verdade a maior parte dele) é cor de rosa. Também, como já disse outra vez, o filme tem lá seus deslizes, mas Javier Bardem atua brilhantemente. Acho que vou me restringir até aqui. Beijão e continue escrevendo.

Alan Raspante disse...

Estou pra conferir. Optei por não ver no cinema e deixei pra conferir em DVD...

[]s

Flávia Hardt Schreiner disse...

Javier Bardem é unanimidade até agora. Por que só Janaína é suspeita? Todos são suspeitos aqui! haha

Houldine Nascimento disse...

Gostei do resultado de Biutiful, apesar de algumas ressalvas. Aqui, o objetivo que Iñárritu traçou/tinha em mente é alcançado: ele consegue mostrar o lado duro, cruel da vida e que fazemos questão de ignorar. O filme chega a atingir até um caráter espiritualista. De fato, não é só um filme sobre o morte, o que há além dela. A história conseguiu me tocar, especialmente pela escolha de Javier Bardem para interpretar o personagem central. Ele é incrível, de uma versatilidade impressionante.

bruno knott disse...

Cara, excelente texto!

"pois nos apresenta uma realidade na qual não estamos diretamente inseridos, não desejamos estar, e não queremos aceitar que existe" É quase que um milagre a gente gostar de um filme que não mostra NADA de bom na sua história.

Concordo que o roteiro não é perfeito, e que talvez isso se deva a ausência do Arriaga, mas mesmo assim a dor e o sofrimento presentes em todo o filme me hipnotizaram de um jeito que esqueci das falhas.

Abraços!

Elaine Crespo disse...

Olá! Bom dia

Bem, adorei teu blog é muito legal!

Amo cinema e herdei este amor dos meus pais. Eu só posto filmes que gosto e a relação deles com minha vida. Pois, cada filme deixa uma marca , planta uma semente.

Por isto não faço analise técnica deles só o que o filme passa e o que me impressiona.

Amei o post e mas não vi o filme!!!:(

Mais pelo sua postagem da pra saber o quanto denso, sofrido, duro e triste é o filme.

Obrigada por passar e comentar. Estou te seguindo voltarei aqui com certeza. :D

Beijos,
Elaine

Kamila disse...

Ainda não assisti "Biutiful", mas muito me chama a atenção o fato de que a obra tem recebido uma recepção um tanto mista. Me parece ser aquele tipo de filme que é do jeito "veja e tire as suas próprias conclusões".

Mayara Bastos disse...

Ainda não assisti, mas a atuação do Javier é o que mais me motiva a procurar pelo filme. ;)

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