"Howl" - O Cinema e a Geração Beat

 
Assim como o poema de Allen Ginsberg que inspira o filme, Howl é uma produção contracultural. Por consequência, segue uma linha artística/literária incomum. O filme retrata o julgamento do editor que publicou Howl, o qual estaria vendendo o material obsceno constante no poema. Tal processo judicial retratado no filme quer saber se o poema Howl é ou não um atento à sociedade. Com essa premissa, o longa passa a intercalar entre quatro linhas narrativas: uma de tribunal, outra de entrevistas com o escritor, e as demais de poesia na versão animada e de biografia do escritor (em preto e branco). A alternância destes quatro universos completamente diferentes é que consegue dar vida ao filme. Cada uma dessas narrativas é trabalhada com detalhes, no entanto, é a ilustração surreal do poema (feita pelo artista gráfico Erick Drooker) que tira o fôlego.

Os diretores/roteiristas Rob Epstein e Jeffrey Friedman são conhecidos na produção de premiados documentários com a temática gay (Common threads: stories from the quilt e Paragraph 175). Neste filme, tal experiência documentarística fica clara tanto nos ângulos de filmagem quanto na própria montagem que segue uma objetividade e técnica impecáveis. Embora a utilização de tais técnicas não permita que a transação de cenas seja muito natural, não há prejuízo ao escopo do filme, sendo mais uma questão de estilo do que de falha cinematográfica. Ademais, curiosamente ou não, Gus Van Sant é um dos produtores executivos do filme.

James Franco, inabalável em seu papel de protagonista, consegue nos transpor para a Geração Beat através das suas declamações do poema Howl, as quais são expressivas, fazendo-nos crer que é o próprio Allen Ginsberg que as recita. Há uma profundidade e, ao mesmo tempo, uma insanidade no personagem a ser desvendada ao longo do filme. Além disso, há todo um trabalho de roteiro com a negação da condição homossexual do protagonista. Com certeza, este é um dos melhores trabalhos que Franco já fez para o cinema.

Como estudante de direito, não poderia deixar de falar sobre esse julgamento incomum retratado no filme com maestria. Primeiro porque os argumentos do advogado de defesa são impecáveis, com uma precisão invejável em meio a um assunto tão delicado e subjetivo que é a interpretação de uma obra literária. A maneira que esse advogado confunde as testemunhas é genial. Por óbvio, depois do talento argumentativo, há sempre uma sentença detalhadamente proferida. E, em um final simples, mas triunfal, o roteiro faz com que essa sentença, de tão evidente, chegue a ser maravilhosamente patética.


Howl (Howl), 2010, Estados Unidos, 82 minutos.

Cotação: 7/10


Abaixo, algumas passagens do poema que aparecem no filme...
 

Uivo

para Carl Solomon

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro
de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial
com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, 
(…)
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais,
na grama de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar
mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,
(…) ”.



5 comentários:

Mateus Selle Denardin disse...

James Franco é sempre motivo para se assistir a um filme: um ator dedicado e sempre procurando papéis interessantes e, de certa forma, desafiadores. A geração Beat já havia ganhado um filme, BEAT (2000), sobre os escritores que iniciaram o movimento. Mas achei a obra bem razoavelzinha. Esse parece ser mais interessante. A conferir.

cleber eldridge disse...

Eu também acho o Franco um ator excepcional, eu adoro ele - como você disse, está sempre a procura de personagens marcantes ;D

Victor Nassar disse...

Eu até gosto do James Franco, mas sabe que não tinha ouvido falar desse filme? Parece interessante, anotarei aqui.

Rodrigo disse...

Obrigado pela visita!
Apareça sempre

beijo pra ti

pseudo-autor disse...

Devolvendo a visita ao Jukebox!

Eu baixei o Uivo a pouco tempo pra assistir e amei. E tem gente que ainda malha o James Franco! Filmaço. Eu sou suspeito pra falar do Ginsberg, pois sou grande fã de seu trabalho.

Gostei do seu blog. Ganhou mais um frequentador!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Postar um comentário

top