Cinema: "O Vencedor"


Desde que iniciou na direção de longa-metragens, em meados da década de noventa, David O. Russell comandou apenas cinco filmes. Onze anos separam Três Reis, seu trabalho mais conhecido, deste seu O Vencedor, que concorre em seis categorias no próximo Oscar, incluindo melhor direção e melhor filme. Que apenas essas duas obras possam ser destacadas de sua filmografia já é algo a se lamentar. Pior ainda é perceber, no entanto, que nenhuma delas chega a ser um grande filme.

The Fighter, cujo título em português nada mais faz que antecipar o óbvio, acompanha o relacionamento do boxeador Micky Ward com o meio-irmão Dicky, sua mãe Alice e sua namorada Charlene enquanto tenta se lançar no esporte, sendo constante e rigorosamente afetado por essas pessoas. É, afinal, uma história de superação, nem que se subverta um pouco o significado mais comum que isso tenha em filmes do gênero: Micky, cujo comportamento pouco se alterna da passividade habitual frente a quem o cerca, terá de se mostrar capaz de tomar atitudes quanto ao andamento de sua vida, o que pressupõe encontrar a melhor meneira de lidar com tantos laços de afetividade e de interesse, não raro opostos e egoístas.

A história é baseada na vida real dessas pessoas, embora a abordagem de O. Russell faça do filme um verdadeiro dramalhão mexicano. Numa obra em que se pretende (e da qual se espera) a verossimilhança, chega a ser inexplicável ver cenas como as sete irmãs do protagonista repetindo o que uma fala ou completando as frases uma da outra (aliás, todas essas personagens recebem o mínimo de desenvolvimento possível pelo roteiro, aparecendo como meras retardadas, certamente pior do que talvez fossem na vida real), ou a mãe, histérica, jogando toda a louça da cozinha no marido, para não falar na sequência em que mãe e filhas decidem ir confrontar a namorada de Micky, numa das cenas mais ridículas da projeção.

Não só o projeto abraça a caricatura, como a expande para dois personagens de grande importância na trama: Dicky e Alice, interpretados por Christian Bale e Melissa Leo. É difícil precisar o quanto cabe ao roteiro ou aos atores os exageros de suas composições; o mais seguro é dizer que a direção é ineficiente ao permitir tais excessos. Em certos momentos, o que se percebe são dois intérpretes que, ademais das necessidades de seus personagens, parecem estar competindo por destaque com o resto do elenco, o que ao mesmo tempo lhes evidencia e expõe artificialidade. Mas, mais que isso, demonstra uma auto-indulgência e vaidade condenáveis. Não é sempre, mas em ocasiões comprometedoras.

Entre eles, e conseguindo algum destaque, há Amy Adams, que faz Charlene, namorada de Micky. Provando-se capaz de abandonar com facilidade o tipo doce e amável presente na maior parte de seus trabalhos, a jovem atriz oferece uma atuação natural e sem redundâncias, justificando, em qualquer análise, o título de "papel de apoio": não só na estrutura da história de O Vencedor sua personagem serve de suporte para o protagonista, como na própria trama é ela quem o acaba ajudando a enfrentar os abusos de seus familiares. E há, então, Mark Wahlberg, também produtor e quem persistiu por anos na realização do filme, como Micky Ward, numa interpretação circunspecta e sensível. E se ela soa como inerte, o último a receber culpa aqui deve ser o ator.

Não apenas falhando ao conduzir seu elenco (e o diretor tem histórico de intrigas com seus atores em filmes anteriores), O. Russell se mostra tecnicamente sem muita inspiração. As escolhas de fotografia e as câmeras dos anos noventa usadas na filmagem das lutas e do documentário são excelentes, assim como alguns enquadramentos, mas não há nada mais de que o diretor lance mão em vista da estética de sua obra. Pelo contrário, cria sequências de boxe totalmente falsas, em que efeitos sonoros destoam da velocidade dos golpes desferidos pelos oponentes. E a montagem, sempre um aspecto interessante em filmes que abordam o esporte, aqui só revela originalidade nos minutos finais. Aliás, esses instantes são os únicos em que se tem prova do talento do cineasta, construindo uma sequência com cortes precisos e uso corretíssimo da música, criando tensão e emoção mesmo numa cena previsível.

Que se precise esperar, portanto, cem minutos para se chegar a um clímax tão bem elaborado, tendo-se já aturado os personagem em situações tão constrangedoras, é algo que diminui o filme. E que ele tenha conseguido sete indicações da Academia, ocupando vagas que poderiam ir para trabalhos nitidamente superiores (nem é preciso citar nomes), é de se indignar.


O Vencedor (The Fighter), 2010, Estados Unidos, 115 minutos.

Cotação: 6/10


5 comentários:

Rodrigo disse...

Poxa, eu curti o filme. Achei a direção de Russel boa, e todas as interpretações fantásticas (com um óbvio destaque a Mark Wahlberg, subestimado). As irmãs podem soar caricatas e toscas, e as cenas de lutas podem não empolgar tanto, mas eu, pelo menos, me envolvi no drama da família. E o final é excelente, mesmo. Abraços.

Dr Johnny Strangelove disse...

Uma critica bastante negativa se parar pelo fato do filme ter conquistado várias indicações e visivelmente existir para muitos, candidatos melhores.

Verei em casa com mais tranquilidade, já que esse ano o Oscar não tem aquela furor de antes ...
abraços

Rodrigo disse...

ótima critica

Alan Raspante disse...

Sabe que eu curtia uma trama mexicana, viu... Assisti diversas vezes aquelas novelas da Thalia! hehehe Enfim, ainda não vi o filme. Mas é fato,que o longa não me chamou a atenção. Mesmo tendo um bom elenco e importantes indicações, deixei passar. Enfm, numa futura sessão em DVD, quem sabe...

[]s

bruno knott disse...

Acho que é por aí mesmo... eu daria um 7 talvez!

Tb achei que faltou inspiração pro diretor, portanto não entendi a indicação dele ao Oscar!

Abraços.

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