Cinema: "Incontrolável"


É possível que não se consiga destacar uma grande obra entre a dezena e meia de filmes dirigidos por Tony Scott nas últimas três décadas. Irmão mais novo de Ridley Scott, Tony tem um estilo de direção inconfundível — e é fácil reconhecer as semelhanças em seus trabalhos: câmera sempre em movimento, zoom indiscreto, tomadas de vários ângulos, montagem entrecortada, lentes que dão algum efeito, flashes de luz sobre os personagens. O problema é que essa sua marca visual, além de não ser tão original assim, é nada interessante, e constantemente chama a atenção para si mesma, em detrimento das histórias que estão sendo contadas — histórias essas, quase sempre, igualmente enfadonhas.

O que não é exceção em Incontrolável, seu mais recente filme, em que o diretor encontra-se tão inconsequente como de costume. A trama é rasa, mas serve muito bem ao Cinema de Scott: devido a erros de um maquinista, o trem que estava sob sua supervisão (o 777) acaba sendo lançado de volta aos trilhos ligado (acelerando!) e sem condutor, indo na direção de regiões populosas cruzadas pela ferrovia. A supervisora de tráfego (Rosario Dawson) quer experimentar ações para descarrilar a composição na zona rural, antes de chegar às cidades, mas é claro que encontra oposição por parte da companhia de trem, que não quer perder todo o dinheiro contido ali.

É quando surgem o experiente Frank (Denzel Washington, quem mais?) e o novato Will (Chris Pine), que estão conduzindo um trem mais velho e menos potente, na direção contrária à do 777. Eles, então, precisam levar sua composição para um trilho lateral, para evitar a colisão. Depois de o fazerem (conseguem por pouco, claro, a fim de se criar mais tensão), a perícia de Frank o leva a crer que, engatando-se de ré à máquina desgovernada, eles são capazes de estabilizá-la.

A partir daí, o filme se concentra em explorar, com bastante exagero e pouca plausibilidade, os esforços dos dois em conter o trem, acompanhando também as medidas paralelas tomadas pela companhia e as discussões no centro de controle, além das pessoas que assistem às peripécias dos envolvidos pela tevê. Diz-se que o filme é baseado em fatos reais, o que aqui (como na maioria dos projetos que seguem a mesma linha) pode ser entendido como sendo a história levemente inspirada por situações verídicas. Porque, além da série de coincidências drásticas, ver o personagem de Washington pulando por sobre os vagões que estão a velocidade de três dígitos e ainda se chegar ao final com a resolução mais óbvia possível é de desafiar a realidade.

Mas incontrolável mesmo é o diretor; seus vícios estão todos ali, sempre atrapalhando a experiência: cenas que mostram os trens a partir dos trilhos; panorâmicas que exibem a frente do 777 com cores excessivamente saturadas; personagens estáticos sendo rodeados pela câmera, com zooms e cortes desnecessários; a luz contra a tela; Denzel Washington e por aí vai.

Aliás, já em sua quinta parceria com Tony Scott, Washington é mais uma vez entregue a um tipo de personagem que o Cinema já cansou de ver em sua face. O ator parece ter entrado numa zona de conforto nos últimos anos, sempre interpretando o mesmo arquétipo, algo semelhante ao que se vê com Morgan Freeman. Seus papéis se resumem ao sujeito vivido, honesto, pai de família, com sentimentos que rodeiam apenas esse espaço — composições clichês e unidimensionais, a que o ator se entrega com certa preguiça e não raro tendendo ao overacting.

Somando-se aí a trilha mais uma vez sem personalidade de Harry Gregson-Williams e a edição de som que em nada inova nem impressiona (e cuja indicação ao Oscar é tão inexpressiva quanto a de Salt em mixagem de som), Incontrolável é apenas mais um exemplar genérico na igualmente medíocre carreira de seu realizador. Um filme que, mesmo longe de ser um desastre, é para ser visto uma vez e imediatamente esquecido.


Incontrolável (Unstoppable), 2010, Estados Unidos, 98 minutos.

Cotação: 5/10


7 comentários:

Rodrigo disse...

Gostei do filme, mas concordo com várias coisas que você apontou. Acho que tem uma mensagem e acaba na hora certa, sem firulas. Parabéns pelo blog e pela crítica. Abrass

Mayara Bastos disse...

O filme parece ser feito para passar o tempo mesmo. À conferir! ;)

Robson Saldanha disse...

Eu meio que fujo de filmes que tenha como protagonista Denzel Washignton, ainda mais quando ele é o fodão da história! Ele já deu o que tinha que dar, há MUITO tempo!

Elton Telles disse...

Haha, pegou um pouco pesado. Mas não lhe tiro a razão. Reconheço suas observações certeiras embora eu tenha gostado do filme. Narrativa realmente rasa e a câmera frenética - típica de Scott -, mas achei "Incontrolável" um entretenimento bem bacana. Passatempo que vale a pena, melhor do que muitos blockbusters barulhentos aí que só ficam na promessa. Como filme de ação, acho que "Incontrolável" faz seu dever de casa.

E, sim, não aguentamos mais ver Denzel Washington salvando o trem, o avião, o navio... sei lá, pra quem tem 2 (duvidosos)Oscars na estante, acho muito pouco.


abraço, Mateus!

Weiner disse...

Mas, Mateus, em se tratando de Tony Scott e Denzel Washington, não havia como fugir do lugar comum. =) E concordamos muito aqui, minha crítica terá muitos pontos parecidos com os teus! Ah, e sobre A Morte e a Vida de Charlie, já vi sim, mas aquelas informações que passei estão em algumas sinopses, eu acho, pelo menos, rsrs.
Deixei um selo pro Observatório lá no meu blog, ok? Abração.

Tiago Britto disse...

Gostei deste filme, achei divertido e eficiente na suas funções. Não é o melhor trabalho da vida de Denzel Whashington, mas vale ser conferiro!

Pedro Fiuza disse...

Mateus, pela primeira vez escrevo aqui. Vi que você publicou hoje a crítica de Burlesque, mas como eu não assisti procurei por um que já tinha assistido.

Como conversamos brevemente no Twitter, imaginava que ia concordar bastante com o seu texto e foi isso que aconteceu. Mas gostaria de parabenizá-lo especialmente pela análise metódica e detalhada dos efeitos de câmera. Isso enriqueceu demais a sua crítica, já pertinente.
PARABÉNS!

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