Cinema: "72 Horas"


Dois casais dividem uma mesa num restaurante. Um deles, John (Russell Crowe) e Lara Brennan (Elizabeth Banks). Uma discussão entre as duas mulheres se inicia, e é impulsionada pelos problemas que Lara está tendo com sua chefe. A conversa vai ficando cada vez mais agressiva, avança para uma quase agressão, e então todos acabam indo embora. Na manhã seguinte, em casa, o casal Brennan se prepara para sair para o trabalho: o filho e o pai tomam o café da manhã; Lara, diabética, injeta sua dose de insulina; a família tira uma foto com todos juntos ("só até ele fazer 18 anos", diz a mãe, referindo-se ao filho). Então Lara pega seu casaco e encontra-o com uma mancha de sangue; preocupada, vai ao banheiro lavá-lo e, como só no Cinema acontece, no mesmo instante a polícia invade a residência e a leva presa, sob acusação de ter matado a sua chefe.

"Os próximos três anos", o filme informa, indicando um salto de tempo na narrativa. Vemos então as visitas de John a Lara na prisão nesse ínterim, sempre informando que as ações judiciais para tirá-la de lá não dão resultado. Nessa situação, e vendo que seu filho adquiriu um justificável distanciamento da mãe e vem se saindo mal na escola, o personagem de Crowe parte para uma medida drástica.

Paul Haggis é um grande cineasta. Sua carreira iniciou na tevê, abrangendo as décadas de 80 e 90 como roteirista e diretor de trabalhos para esse meio. No Cinema, começou a ganhar destaque com o excepcional Crash: No Limite, ao que se seguiram ótimos textos que incluem os de Menina de Ouro e 007: Cassino Royale, para citar filmes que ele não dirigiu. 72 Horas é sua quarta incursão como diretor e foi adaptado por Haggis como uma refilmagem do francês Tudo por Ela, de 2008.

Aqui, ele consegue criar tensão e drama com uma história que tem pé no inverossímil, tão bem arranjados são o roteiro e a direção. Há quem acuse o filme de problemas de ritmo, já que ele é dividido em duas partes bem distintas, e de duração semelhante: até a metade da metragem, Haggis se concentra em contar a história daquela família, com toda a calma que lhe é devida, e apresentar os personagens, acompanhando os esforços de John para com a esposa e com o filho; no segundo momento ("os próximos 3 dias", ou as "72 horas" do título nacional), o diretor parte para a ação, em sequências tensas e muito bem conduzidas. Essa estrutura se mostra essencial, já que é difícil imaginar outra montagem que tenha melhor êxito para a narrativa em questão.

A trama certamente foge à realidade ao tentar convencer os espectadores de que John Brennan é capaz de tudo aquilo que o filme mostra, mas então se tem a excelente atuação de Russell Crowe, que compõe um personagem que cria grande identificação com o público e minimiza os exageros do texto. Mas Haggis não lança seu olhar apenas para o protagonista, e, sempre evitando as certezas, acompanha com considerável atenção outros personagens e seus pontos de vista, o que dá maior credibilidade à história.

Enfim, à despeito de soar forçado em alguns momentos, o resultado final é um filme envolvente e interessante (e sua última cena, linda), sem maiores pretensões, mas muito bem construído na convergência de roteiro e direção eficientes, belas atuações e montagem e trilha sonora ótimas. Mais um acerto de Paul Haggis.


72 Horas (The Next Three Days), 2010, Estados Unidos/França, 122 minutos.

Cotação: 7/10


4 comentários:

Alan Raspante disse...

Talvez eu até veja nos cinemas, mas não estou muito confiante para assistir, sabe?
Pra ser sincero, não gosto de Russel e bem, acarreta bastante em minha decisão final! rs

[]s

Kamila disse...

Opa, que bom ler alguém que também gostou deste filme. Como você bem sabe, eu ADOREI!

Flávia Hardt Schreiner disse...

Gostei do filme também. Há cenas muito boas, como aquela em que o casal faz uma pausa no meio de uma fuga, sai do carro e senta no acostamento. Há uma comunicação muito grande naquele silêncio. O filme trabalhou muito bem com os momentos chaves de decidir ou não cometer uma conduta delituosa. Porém, há algumas incongruências no roteiro e algumas ações sem explicação do protagonista que atrapalham a condução do longa.

Otavio Almeida disse...

Pois é. Russell Crowe salva o dia. Ele SIM faz a gente torcer. Mas se fosse o Steven Seagal no mesmo roteiro, você não ia gostar, meu caro. Mas, será que não dava pra exigir um pouco mais de atenção de Paul Haggis na construção da história e dos personagens? Vi o filme até o fim por causa de Russell Crowe, que considero um ator extraordinário. Mas que "72 Horas" poderia ser melhor, ah, podia sim. E era possível.

Abs!

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