Cinema: "Premonição 5"



A franquia Premonição teve início em 2000 e apresentava uma ideia relativamente curiosa. Um sujeito prevê uma série de mortes interligadas a um evento comum (como uma viagem aérea, no primeiro filme) momentos antes de o acidente deflagrador acontecer. Então tenta convencer o grupo de pessoas que o acompanha sobre a visão que teve e evitar tal fado. Por essa premissa, pois, eles enganaram a Morte e causaram um desequilíbrio na estrutura da vida. Assim, ao que conseguem se safar da tragédia, irão um a um morrer até que o balanço seja novamente restabelecido.

Dessa forma, o ponto alto — mas também o ponto fraco — dos filmes residia nas invencionices por trás das tentativas da Morte de arrebatar os personagens, alternando entre obviedades, originalidade e muita coincidência. Uma tolice, é verdade, mas que não se furtava da diversão (mesmo que por vezes não intencional).

Certamente o sucesso acompanhou uma novidade como essa no ramo do terror, e os produtores não hesitaram em repetir a mesma estrutura em mais quatro filmes, chegando-se agora a Premonição 5, o segundo a utilizar o 3D como ferramenta narrativa (?).

Numa viagem para uma gincana do trabalho, o protagonista tem uma premonição que inclui a morte de vários colegas (e a sua própria) com o colapso de uma ponte em obras sobre a qual o ônibus em que estavam precisa parar. Assim que volta à consciência, consegue livrá-los a tempo do infortúnio (numa cena em que obviamente há um lapso cronológico). Perturbados com a situação, o grupo começa a se preocupar com questões filosóficas (e como é falsamente encenado esse filme!) ao mesmo tempo em que tentam retornar a suas rotinas. Mas eis que os coadjuvantes começam a morrer, e não vai muito até que se descobre que as mortes estão acontecendo na mesma ordem da do sonho premonitório. Eventualmente os que restam acabam encontrando um misterioso homem (uma figura clássica na série) que lhes diz que, para evitar que o mesmo lhes aconteça, precisam tirar a vida de outra pessoa e manter assim o tal equilíbrio, uma vez que não deveriam sobreviver àquele acidente.

Na direção está Steven Quale, diretor de segunda unidade de Avatar, e aqui ele joga tudo quanto é objeto contra a tela (literalmente) já nos créditos iniciais, para depois, infelizmente, mostrar-se bem mais comedido. O roteiro cabe a Eric Heisserer, que escreveu os novos A Hora do Pesadelo, de 2010, e O Enigma de Outro Mundo, este ainda inédito — já se pode temer pelo que virá. Fato é que, à despeito de um roteiro bobo e de uma condução narrativa e visual sem destaques, Premonição 5 vai aos poucos arrumando o campo para a importante e entusiasmada revelação final. E, mesmo que no momento o filme insista em alguns detalhes (a data na passagem aérea, por exemplo) para que se perceba qual é, afinal, essa surpresa, é bem provável que durante toda a projeção o espectador sequer tenha atentado a detalhes no mínimo intrigantes (o principal deles: o ano em que a história transcorre). "Isso já aconteceu antes", diz o tal homem misterioso. Pode ser verdade (e seria lógico), mas é uma bela pegadinha.

Ainda assim, é uma produção sofrível em diálogos e atuações (sem contar o enredo principal, totalmente lugar-comum), com incontáveis erros de continuidade, poucas sequências de impacto e tensão rarefeita. Tão ordinária que nem o uso da terceira dimensão consegue animar.


Premonição 5 (Final Destination 5), 2011, Estados Unidos, 92 minutos.

Cotação: 4/10

Cinema: "Transformers: O Lado Oculto da Lua"


Seria inútil comparar Transformers: O Lado Oculto da Lua com seus predecessores não fosse isso fonte de comentários — positivos e negativos — a se fazer sobre o filme. Terceiro na franquia criada a partir dos brinquedos da Hasbro (que ainda antes viraram série animada para a tevê na década de 80), O Lado Oculto da Lua se distancia do extremo constrangedor que fora A Vingança dos Derrotados, de 2009, mas também falta com a sensação de novidade (e um até certo comedimento) que o primeiro Transformers trouxe em 2007.

Admitindo publicamente o fracasso artístico que a série tomou com o segundo capítulo, o diretor Michael Bay disse que se esforçaria para não cometer os mesmos equívocos no trabalho seguinte. As melhoras se observam na estrutura geral da trama, aqui um pouco mais coerente, e em algumas cenas de ação mais elaboradas. Mas ainda há o punhado de atores relegados a papéis coadjuvantes vergonhosos, as tentativas de humor inadequadas, as soluções toscas do roteiro e os vícios de filmagem do próprio Bay, por si só um incômodo à parte.

É curioso observar, no decorrer da franquia, como sempre foram os robôs que sustentaram a dramaticidade da história. Totalmente concebidos em computação gráfica, os "transformers" trazem expressões e movimentos muito mais verossímeis que os de qualquer ator em cena. Envolver-se com esses personagens é importante, claro, mas é visível que falta a identificação com os personagens humanos, que, à exceção vez por outra de Shia LaBeouf, não têm um mínimo desenvolvimento.

E Bay tampouco está preocupado com isso. Quando há suspensão dessas necessidades em favor de grandes sequências de ação, resta ver os méritos que ali se aplicam. Junto a um uso excelente do 3D e de ótimos efeitos visuais, O Lado Oculto da Lua se esquiva dos deméritos com não poucas cenas vibrantes, montadas com a cautela de se preservar o formato e carregadas com efeitos sonoros detalhados.

Transformers nunca escondeu suas intenções comerciais — de veículo de propaganda para diversas marcas à venda de produtos relacionados aos personagens. É de se lamentar que agora seja apenas isso a movimentar a franquia (que surgiu a partir do interesse pessoal de Steven Spielberg nos brinquedos). Um fracasso nas bilheterias poderia ser sinal para alertar os produtores a repensar os rumos dos filmes. Mas, com seu mais de bilhão em arrecadações mundiais, é difícil que alguém queira interferir.


Transformers: O Lado Oculto da Lua (Transformers: Dark of the Moon), 2011, Estados Unidos, 154 minutos.

Cotação: 6/10

Cinema: "Namorados para Sempre"


O cineasta Derek Cianfrance diz que trabalhou na história de Namorados para Sempre durante doze anos. Chegou a escrever quase setenta tratamentos do roteiro (que foi praticamente descartado), enquanto realizava curta-metragens e documentários para ajudar a financiar a produção. A ideia surgiu com a separação de seus pais, quando ele tinha vinte anos, o que o impulsionou a buscar compreender o processo de formação e dissolução dos relacionamentos. Fiel à sua percepção, procurou desenvolver um conto de amor que refletisse a realidade e que, portanto, fosse capaz de criar conexão com seu público sem se apoiar em falsos convencionalismos de nula verossimilhança. O resultado, produto de imensa dedicação de todos os envolvidos, não poderia ser mais arrebatador.

O filme acompanha um casal, Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams), em dois momentos de sua relação — o início e o colapso , alternando-os na forma de fragmentos que expõem (não raro implacavelmente) as qualidades que ao mesmo tempo aproximaram e afastaram os dois jovens. Cianfrance pretendia filmar esses momentos no intervalo real de seis anos, algo que, além de utópico, certamente encontraria obstáculo na figura dos produtores. Porém, num árduo envolvimento com seus protagonistas, encontrou por onde extrair a densidade de que precisava. Após filmadas as cenas do início do romance, o diretor colocou Gosling e Williams para fazer as vezes de casal por um mês numa casa alugada, e aí, numa intimidade solidificada, eles exercitariam como desmantelar esse relacionamento.

A lógica estética e narrativa de Cianfrance, aliás, é cheia significado. Quando Dean e Cindy se conhecem, a câmera dá mais espaço aos atores, permite-lhes a experiência com certo distanciamento; já casados, além das mudanças naturais da fotografia pelo uso de outro tipo de câmera, há uma necessidade de se esquadrinhar cada reação, cada nuança dos personagens. Letras de músicas, objetos que se interpõe na cenografia e diálogos carregados de sentimento, por outro lado, completam uma abordagem de detalhes e metáforas reveladores.

Dean, jovem que não completou os estudos mas que é esforçado e inteligente, e Cindy, aluna aplicada que pretende cursar medicina, acabam ficando juntos, a despeito do amor que aos poucos surge de um pelo outro, por um evento que, não do melhor modo, funciona como um catalisador na aproximação dos dois. Há um jogo de conquistas, uma dedicação dele para com ela que estabelece uma reciprocidade de confiança e amizade; há carinho, há atração. Já casados e com uma filha, sob o peso da frustração e do arrependimento de objetivos não realizados, experienciando que, embora não desejem, não há mais nada ali capaz de sustentá-los juntos, o desfecho é doloroso.

Gosling e Williams, viscerais, entregam-se livres de qualquer vaidade a essa trajetória e transformação. Da juventude de sonhos e perspectivas, de paixão pulsante e do encanto de uma canção que os dois compartilham numa calçada, à decadência física e emocional que se observa em cada olhar e em cada inflexão, os atores parecem absorver cada partícula de ressentimento e condescendência que se formou durante aqueles anos e transpor a seus personagens com um realismo e sensibilidade perturbadores.

Namorados para Sempre, o título nacional, mesmo que criado com fins equivocados, é perfeito ao permitir ainda mais contraste com a força da história que é contada. A felicidade que ficará com os personagens é aquela daqueles momentos de idealização e romance que eles experimentaram no início, quando eram namorados. A convivência, se desgastou as possibilidades de se seguir assim, ao menos não apaga o que já foi vivido.

Um filme que descobre esse tema com tamanho realismo e razão não é frequente no Cinema, e por isso mesmo merece ser notado. Quando, mais que relevante, consegue ser comovente e devastador, é possível que se tenha uma obra-prima.


Namorados para Sempre (Blue Valentine), 2010, Estados Unidos, 112 minutos.

Cotação: 10/10

Cinema: "Carros 2"


Desde que foi criado, o estúdio de animação Pixar conseguiu enorme prestígio e respeito junto ao público por sempre dar enorme importância ao desenvolvimento das histórias que seriam mostradas em seus filmes. É um cuidado que transpassa a mera trama ajeitada e os personagens carismáticos — são criações cheias de originalidade, dosadas com humor inteligente e equilibrado e, não raras as vezes, densas em suas abordagens mais dramáticas. É um desvelo irrestrito que se estende a todo processo e que, firmado num trabalho técnico que permite cada vez melhores resultados, origina obras visualmente impactantes e emocionalmente inspiradoras.

Carros 2, o filme do estúdio para esse ano, retoma os personagens do original de 2006, mas apenas isso. Se a princípio se formou algum desânimo acerca de a Pixar querer dar continuidade a um de seus produtos menos nobres, é bom ver que o que se tem aqui é uma aventura vigorosa, muito divertida e encantadora em referências e estilo, mesmo que não traga comentários e discussões tão pertinentes quanto outros trabalhos da casa. A recepção morna que a obra teve por crítica e público, portanto, parece mais resultado de se manter os votos de descrédito já alimentados há tempo com o projeto, do que de se deixar envolver por ele.

Agora é Mate, o principal personagem cômico de Carros, quem assume os eventos centrais da história. Ele acompanha Relâmpago McQueen quando este é chamado a uma série de corridas internacionais destinadas a confirmar a eficiência de um novo biocombustível, mas, ao ser tomado como um agente americano, acaba se envolvendo numa trama de espionagem que procura relações entre uma formação de carros antigos e os acidentes que vem acontecendo no torneio de corridas.

Porém, se no primeiro filme McQueen ia de carro egoísta e arrogante a um personagem que encontrou na amizade e no amor melhores valores, aqui Mate vai do atrapalhado inconveniente ao atrapalhado-que-salva-o-mundo, algo de pouco efeito dramático. Mais evidente é que tampouco se vê no guincho-mecânico uma evolução de qualidades, já que aparentemente são os outros carros que se mostram injustos e inflexíveis — uma condescendência nada sutil com o protagonista.

Esse raso desenvolvimento, entretanto, é contrabalançado por uma estrutura firme de ação e suspense, com ritmo ágil, investidas cômicas precisas e animação elaborada — as características dos carros são aproveitadas ao máximo para se desenharem expressões; há carros lutadores de sumô, carros-gueixas, o carro-Papa, carros da realeza inglesa; e tudo se apresenta num show de formas, brilhos e reflexos deslumbrantes. É, enfim, uma exposição de criatividade, que torna a narrativa atraente e envolvente.

Carros 2 foi pensado como continuação antes mesmo do lançamento do primeiro filme, e é um bom exemplo de projeto de ambições pessoais dentro de uma empresa tão diversa quanto a Pixar (o diretor John Lasseter, sabe-se, é fascinado por automóveis). Mas, como poucas franquias, foi sensata em não se repetir, alternando ambientes e tramas — com Michael Giacchino substituindo à perfeição Randy Newman, aliás — e apresentando novos personagens — Finn McMíssil, o melhor deles, com vastas referências ao universo de 007. Nessa tendência do estúdio de criar sequências (em 2013 ainda chega Monstros S.A. 2), e oferecendo uma produção tão agradável, ainda não foi o caso de se ter uma decepção.


Carros 2 (Cars 2), 2011, Estados Unidos, 106 minutos.

Cotação: 7/10

Cinema: "Kung Fu Panda 2"


Em Kung Fu Panda 2, continuação do excelente Kung Fu Panda de 2008, o panda Po, agora já estabelecido como o Dragão Guerreiro, resguarda o Vale da Paz com os Cinco Furiosos e a supervisão do Mestre Shifu. Mas surge uma ameaça, na figura de um príncipe pavão que quer dar fim às artes do kung fu e dominar a China. Mais uma vez, então, Po terá de passar por uma trajetória de autoconhecimento e aprendizagem — dessa vez mais árdua e na qual terá de confrontar-se com revelações de seu passado e suas origens — para finalmente ser capaz de deter o temível Lorde Shen, o vilão que quer subjugar seus povos conterrâneos.

Embora não traga o ar de novo que o original apresentou à época do seu lançamento, Kung Fu Panda 2 esforça-se em ao menos manter muito do que funcionou muito bem naquele filme: o ritmo ágil, um deslumbre de cores e formas, coadjuvantes complexos e uma animação de elementos que alcança níveis quase inacreditáveis. Nesse sentido, é obrigatório mencionar a concepção de Lorde Shen, que, segundo a diretora Jennifer Yuh, foi tão difícil quanto se criarem seis personagens ao mesmo tempo. E o resultado é formidável: em que pese a profundidade da história do vilão, há todo um cuidado notável na realização de cada movimento seu, desde as sublimes coreografias de luta até as hesitações na fala e as expressões mais finas. Por outro lado, podem-se ver repreensíveis escolhas comerciais por trás do desenho de outros bichos (como Tigresa e Po), já que prejudicam o filme com mais artificialidade ao fazê-los parecerem de pelúcia.

A obra também perde força com muitas tentativas frustradas de humor, dispensando sutilezas em favor de piadas rasas e condescendentes — e numa frequência quase que comprometedora. Felizmente, há uma boa quantidade de momentos dramáticos muito bem realizados que equilibram a narrativa. Dentre esses, uma cena belíssima em que, emulando O Rei Leão, o reflexo do protagonista na água serve-lhe de catarse e indica seu destino.

Novamente trazendo a inestimável contribuição de Hans Zimmer e John Powell na composição da música original e com um trabalho técnico que assegura à DreamWorks posto entre os mais competentes estúdios de animação em atividade, Kung Fu Panda 2 tem vigor suficiente para se sustentar enquanto sequência, já que insere novos temas e busca novas tramas no rico universo que o primeiro filme introduziu três anos atrás. Continuações já estão praticamente asseguradas, tanto no gancho que deixa a seu final como no marco de maior bilheteria de um filme dirigido por uma mulher — atualmente tendo ultrapassado os 660 milhões de dólares.


Kung Fu Panda 2, 2011, Estados Unidos, 91 minutos.

Cotação: 7/10

O Cinema dos anos 1950: "O Mensageiro do Diabo"

(Observação: este texto expõe detalhes da trama do filme.)

Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.

Fracasso de crítica e público à época de seu lançamento, não raro é ver atualmente O Mensageiro do Diabo sempre entre as primeiras posições em listas de melhores filmes de estreia de diretores ou mesmo de melhores filmes de atores na função de diretor — é, enfim, um clássico aclamado, que recebeu seu reconhecimento com o tempo. O notável ator inglês Charles Laughton assumiu o projeto após uma série de empreendimentos na direção de teatro, levando o best seller homônimo de Davis Grubb às telas em 1955.

Na história, Harry Powell é um pregador que usa suas artimanhas religiosas para enganar e assassinar mulheres viúvas e roubar-lhes o dinheiro. Após um desses eventos, o reverendo é capturado por andar num carro furtado e levado à prisão por um mês. Lá fica na mesma cela de Ben Harper, fazendeiro sentenciado à morte na forca por ter matado dois homens e roubado a considerável quantia de dez mil dólares. A época é a da Grande Depressão, e o latrocínio de Harper foi para garantir à sua família melhores condições nesses tempos difíceis. Logo antes de ser levado preso, ele consegue entregar a soma aos filhos, exigindo-lhes a promessa de nunca contar a ninguém sobre onde ela está escondida, inclusive à mãe; caberá ao mais velho administrar o dinheiro no futuro. Na cadeia, Powell acaba tomando conhecimento da situação, imediatamente definindo sua nova vítima. E assim iniciará sua brutal e irrefreável perseguição.

No papel do reverendo está Robert Mitchum, um quase símbolo sexual e de rebeldia na época. Sua personificação do mal é um marco, no que sua face permitiu tamanha identificação, e sua voz, tamanha ambiguidade. Nos dedos de suas mãos, 'amor' e 'ódio' estão tatuados, e sua explicação sobre como um sentimento subleva o outro é antológica — e no filme, é apenas mais uma forma de ele conquistar a confiança das pessoas à sua volta. Dentre elas, Willa (Shelley Winters), viúva de Harper, com quem, não demora muito, acaba se casando. A filha mais nova, Pearl, logo cria simpatia pelo sujeito, mas seu irmão, John, aos poucos vai percebendo suas verdadeiras intenções e o vê com receio.

Ao perceber que a mulher pode se tornar um obstáculo, e que são os filhos quem ele deve pressionar para encontrar o dinheiro, ele a executa — em outra grande cena, na qual são nítidas, na iluminação e na direção de arte, referências ao expressionismo alemão. Mas não só: Mitchum, articulando-se como se realizasse um ritual, exala terror e medo.

As crianças, então, fogem com o dinheiro. Num barco, percorrem o curso de um rio até encontrar uma senhora religiosa (Lillian Gish) que os acolhe — num segmento fantástico em que, filmado exclusivamente em cenário, a fotografia incorpora a visão das crianças de bem e mal em contrastes sublimes de luz e sombra, criando sequências quase oníricas. Powell, sempre no encalço, logo as encontra. Um embate se forma (mais um momento espetacular), e os destinos dos personagens se definem.

Laughton buscou no Cinema de D. W. Griffith influência para sua obra — nas técnicas de montagem e cinematografia e no clima dos filmes mudos. No processo, a contribuição do diretor de fotografia Stanley Cortez foi inestimável, uma vez que o diretor tinha pouco domínio de estratégias de filmagem. Mas sua dedicação era absoluta: chegava a exigir a presença constante do montador e do diretor de arte enquanto rodava o filme, acreditando que isso ajudava no processo criativo. Também o compositor Walter Schumann foi trazido aos sets, após um notório episódio em que, ao conceber a cena do assassinato, Cortez disse que a sentia como uma valsa — Laughton imediatamente mandou chamar o músico, que passou a compor durante as filmagens, numa tradução musical do que era expresso visualmente.

No entanto, a condução de alguns atores pareceu ser por vezes penosa. Winters, cuja atuação parece confundir-se com as fragilidades de sua personagem, tinha dificuldades em entregar o que o diretor queria. Também os atores mirins (fala-se inclusive que Laughton não gostava de crianças), Billy Chapin e Sally Jane Bruce, que, entretanto, estão competentes em seus papéis, especialmente o menino, que mostra particular sensibilidade em diversos momentos. Por outro lado, foi um prazer para o diretor ter Gish (célebre atriz dos filmes de Griffith) no elenco, e esta irradia bondade e determinação, num de seus trabalhos mais elogiados.

Porém, foi em Mitchum, invariavelmente, que o diretor depositou a credibilidade da produção. Sua interpretação, absoluta em cinismo e perversidade, é a força que move e justifica toda a história. E é por ele que alguns dos temas mais relevantes da obra são levantados: da frustração e repressão sexual, uma vez que o pregador acredita estar fazendo um trabalho divino com seus crimes, matando mulheres vaidosas ou libidinosas (há duas cenas que explicitam isso, uma das quais, ainda no início do filme, bastante sugestiva), o que dialoga, claro, com a crítica à hipocrisia religiosa — e Laughton permite que em muitos momentos Mitchum pese na desfaçatez de seu personagem, evidenciando ainda mais essa intenção.

Filme a que a definição de gênero não cabe, e que em boa parte se desprende de um compromisso de realidade que possivelmente daria a tramas como essa maior verossimilhança, O Mensageiro do Diabo sofreu justamente por sua peculiaridade: a divulgação foi parca e difícil, já que os executivos não sabiam como promovê-lo. Arrecadou pouco em bilheteria e não foi nenhum sucesso entre a crítica especializada, o que afetou profundamente Charles Laughton — que duvidava até mesmo de seus trabalhos mais celebrados, e que não mais voltou a dirigir. Pode-se repreender o filme, talvez, por apresentar um tanto depressa muitas de suas resoluções, e, vez por outra, pelos excessos de atuação, mas há todo um fascínio por trás dessa visão tão deslumbrante e original de Laughton, que se podem relevar esses detalhes. Não se pode relevar, contudo, que Cinema provavelmente tenha sido privado de mais obras tão distintas.


O Mensageiro do Diabo (The Night of the Hunter), 1955, Estados Unidos, 93 minutos.

Cotação: 8/10

Cinema 2011: ranking março-abril


Nesse segundo bimestre, o maior número de estreias originais de 2011 possibilitou a formação de um ranking mais interessante e acirrado que o anterior. Assim, certos filmes acabaram ficando com o mesmo valor de média final — e então empatados na mesma posição.

Relembrando que para o ranking são considerados filmes com estreia original em 2011 em seus países de origem. Em Ainda estrearam, as produções do período que não conseguiram entrar na lista. Em Filmes remanescentes, as estreias de anos anteriores que só agora estão chegando comercialmente ao país e que foram avaliadas pelos editores.



#1 | Thor [7]

Embora consiga apresentar com certa eficiência seus temas e tramas, não se pode isentar o filme pela falta de desenvolvimento apropriado que algumas situações requeriam. Além disso, a desconsiderar os vínculos e obrigações que toda adaptação tem com seu material de origem, é visível que a estrutura aqui fica amarrada a uma espécie de preparação para algo maior, uma ligação burocrática que certamente priva da história certos rumos e liberdades. Mesmo assim, Thor é agradável, visualmente encantador e divertido. Branagh, afinal, mostrou ser o diretor adequado. (resenha completa) (Mateus)



#2 | Rio [6]

O filme tem seus meios de compensar a sessão: os protagonistas ganham em carisma e conseguem momentos envolventes; há os coadjuvantes divertidos, tipicamente representando as melhores investidas de humor; têm-se belos arrebatamentos de pura contemplação visual, por vezes focando em pontos turísticos da cidade; e há uma boa porção de canções originais que pontuam bem diversas cenas, criadas para a trilha sob a supervisão do talentoso Sérgio Mendes. O que, entretanto, não é suficiente para fazer de Rio um trabalho criativo, importante ou memorável. Uma boa aventura, mas enfraquecida pela abordagem romantizada e simplista de seu diretor. (resenha completa) (Mateus)



__ | Sem Limites (Limitless) [6]

Visualmente fascinante e com uma ideia atraente, Sem Limites é uma ótima surpresa em tempos de refilmagens, continuações e readaptações. A direção mostra inteligência e criatividade, especialmente na comunicação com os outros elementos da narrativa, notadamente a fotografia e a montagem — o que não só assegura o interesse no produto original que o cineasta tem em mãos, mas também o justifica. No elenco, Bradley Cooper conduz com segurança o papel principal, apoiado também por ótimos coadjuvantes. (Mateus)



#3 | Rango [5,8]

O diretor declarou que Rango foi feito tendo-se em vista uma concepção live action, e é fácil percebê-lo desta forma. É, a resultado das escolhas dos cineastas, uma obra inovadora — tanto em visual quanto em narrativa. Seu centro, a ser olhado com sensibilidade e entendimento, pode identificar-se mais facilmente com uma plateia mais madura, mas há ali também a emoção e a diversão para seduzir os mais jovens. De qualquer forma, a profundidade e o deslumbre de um faroeste intimista com traços místicos, que refere e celebra o Cinema e criado à luz da inteligência e da tecnologia, não deve ficar à dúvida: é imperdível. (resenha completa) (Mateus)



#4 | Água para Elefantes (Water for Elephants) [5]

Romance de época que, se tem efeito, é talvez apenas nessa reprodução histórica, Água para Elefantes é um filme arrumadinho, bonitinho, mas ordinário. Como protagonista, Robert Pattinson exibe completa falta de expressão e carisma, sendo a ponta mais fraca de um elenco que traz pouca correspondência. Previsível e piegas, é amenizado pela presença magnética de Hal Holbrook — que, mesmo em poucas cenas, até faz esquecer que se trata da versão mais velha do personagem de Pattinson. (Mateus)



__ | Pânico 4 (Scream 4) [5]

Conseguindo manter uma tênue linha com os filmes anteriores, Pânico 4, obviamente, falha ao tentar assustar com os truques típicos do gênero, mas satisfaz com sua graça, a qual se reflete principalmente em uma auto-paródia. Wes Craven assume os clichês como arma principal e, explorando a metalinguagem, torna seu filme um clássico e razoável produto de entretenimento. Porém, o longa não deixa de ser primitivo em seu roteiro, não desenvolve a história de seus personagens adequadamente e possui uma obviedade importuna. (Flávia)



__ | Passe Livre (Hall Pass) [5]

Bobby e Peter Farrelly, já não bastasse um histórico de ótimas direções dentro do gênero, conseguem, aqui, realizar um trabalho nem tão surpreendente, mas satisfatório, considerando o quão difícil que hoje se tornou realizar uma boa comédia, ainda mais com pontas de romance. Com um argumento simples, mas que rende algumas cenas engraçadas, Passe Livre é um prato cheio de situações inusitadas e apelação sexual, deixando de lado boa parte da originalidade típica dos irmãos Farrelly. (Flávia)



#5 | Sucker Punch: Mundo Surreal (Sucker Punch) [3]

As cenas iniciais, anteriores à chegada da protagonista ao manicômio, são de uma praticidade e beleza necessárias: em câmera lenta e sem qualquer fala, Snyder conduz a ação com precisão e cuidado. Ao que decide pelo esgotamento desses e de seus outros recursos ao longo filme, acaba por cansar seu espectador. O surreal a que se refere o subtítulo brasileiro, então, só pode evidenciar uma coisa: como é sem graça uma mente rebelde. (resenha completa) (Mateus)


Ainda estrearam: Eu Sou o Número Quatro [2,4], Fúria sobre Rodas [2], A Garota da Capa Vermelha [2], Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles [1,6], Esposa de Mentirinha [1], Hop: Rebeldes sem Páscoa [1], Sexo sem Compromisso [1], As Mães de Chico Xavier [0], A Antropóloga [não avaliado], Assassino a Preço Fixo [NA], Corpos Celestes [NA], Gnomeu e Julieta [NA] e Vovó... Zona 3 [NA].

Filmes remanescentes: Cópia Fiel [8], Homens e Deuses [7], Sobrenatural [6] e Uma Manhã Gloriosa [4].

Cinema: "Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas"


Franquia bilionária, Piratas do Caribe alcançou grande sucesso na última década ao trazer para o Cinema uma combinação um tanto peculiar, envolvendo piratas, humor e bastante ação. Johnny Depp integrou mais um personagem atípico à seu histórico de interpretações, e seu Jack Sparrow tornou-se um ícone. No entanto, muito do êxito da série deveu-se à consistente direção de Gore Verbinski, que coordenou uma trilogia de proporções épicas sem maiores problemas, imprimindo-lhe ousadia, criatividade e um verdadeiro senso de aventura. Decepcionante é ver, então, que o principal equívoco deste novo Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas resida justamente em seu diretor, Rob Marshall.

Com modificações que pretendem transformar este episódio num novo início para a franquia, Navegando em Águas Misteriosas falta com o ritmo, com o humor e com os seus personagens, revelando uma combinação sintomática de maus roteiro, montagem e direção. A trama, tão compatível com a ideia de aventura, não atrai; as piadas, criadas e interpretadas sem qualquer inspiração, soam inconvenientes à narrativa; e a história, que revela e descarta elementos à sua vontade, segue linhas previsíveis. Ao elenco se juntam Penélope Cruz e Ian McShane, mas que só fazem constranger, num lamentável desperdício de talentos que abrange também o próprio Depp e o tão divertido Geoffrey Rush, que aqui destoa com tanto exagero.

Na função de conduzir a ação e ordenar os elementos narrativos, Marshall entrega um trabalho sem brilho, sem perícia, redundante e cansativo. O que a trilogia de Verbinski tinha de interessante, aqui se perde: as batalhas e confrontos entre os personagens não envolvem, normalmente se fazendo notar o trabalho dos dublês, o que sempre tira credibilidade do que é mostrado, e especialmente desaparecem toda a violência e tensão que, mesmo amenizadas nos filmes anteriores, eram tão necessárias ao tom de perigo e seriedade das cenas. O único momento em que Marshall se atreve a tanto é quando, já lá no final, o vilão aparece se deteriorando e aponta sua mão esquelética à tela, numa ótima composição de efeitos visuais que evoca todo esse clima de temor — o qual, afinal, adicionaria tanto à Navegando em Águas Misteriosas, além de fazer jus a seu título.

Continuando o trabalho formidável nas composições musicais da série desde que assumiu o posto no lugar de Klaus Badelt (de A Maldição do Pérola Negra), dessa vez Hans Zimmer se associa com a dupla de violonistas mexicanos Rodrigo y Gabriela e apresenta uma trilha vibrante e original, à qual o filme nunca corresponde. E tampouco corresponde à arrecadação estrondosa (impulsionada pelo valor dos ingressos das sessões em 3D), que o coloca na oitava posição entre as maiores bilheterias de todos os tempos. Todo esse dinheiro certamente assegurará a produção de mais continuações, mas, a não ser que ocorra alguma reinvenção na franquia, Piratas do Caribe seguirá o curso daquelas que poluem os cinemas todos anos e que pouco lembram o ânimo de suas origens.


Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides), 2011, Estados Unidos, 136 minutos.

Cotação: 4/10

Cinema: "A Onda"



A Onda, obra baseada em fatos reais, explica o sucesso (ou não) de um experimento realizado na Cubberley High School (Palo Alto, EUA), no ano de 1967, quando o professor Ron Jones decidiu mostrar aos seus alunos até que ponto alguns alemães foram capazes de alegar ignorância sobre o massacre dos judeus durante o Holocausto. Jones criou um movimento denominado A Terceira Onda, o qual inspirou, além desse filme, um livro e, até mesmo, um musical.

O longa conta a história do professor de ensino médio, Rainer Wenger (Jürgen Vogel), que, contra a sua vontade, acaba por ministrar uma matéria sobre autocracia. Notando o desinteresse na aula por parte dos estudantes, o professor propõe um breve experimento envolvendo a formação de um grupo regido por um líder autocrático. Aos poucos o mestre vai demonstrando como a base de uma ditadura se forma e como ela se solidifica, ilustrando quais seriam as estruturas psíquicas que teriam a capacidade de preparar uma população para receber um governo despótico e unificado.

Dirigido pelo jovem Dennis Gansel, e com um elenco de adolescentes estreantes, A Onda se destaca pelo seu Cast and Crew impecáveis. Seguindo uma linha de trabalho que se assemelha ao longa A Fita Branca, a obra de Gansel procura retratar o complexo psicológico que circunda a manifestação do nazismo, tentando ser um elo de esclarecimento para as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. O filme também retrata de forma geral, mas reflexiva, o comportamento da juventude alemã, tema tão recorrente na produção cinematográfica deste país, como, em Adeus, Lênin! e em Edukators. Destaque para a ótima trilha sonora de Heiko Maile, a qual consegue expressar a rebeldia do grupo através de canções que vão desde Ramones ao tradicional indie rock alemão.

A história se desenvolve a partir de conceitos básicos capazes de abrir espaço para uma tirania, como, o descontentamento de um povo, a força pela disciplina, a criação de um uniforme, o invento de uma saudação comum, a formação de uma comunidade gerida por uma unidade de poder e a elaboração de um símbolo unificador. Assim, o movimento A Onda vai sendo estruturado e aceito pela maioria dos estudantes, depositando, em cada um deles, um sentimento de pertencer a comunidade, de fazer parte de uma massa unificadora, acarretando, portanto, em uma força enérgica que ganha destaque e respeito dentro da escola. Ao mesmo tempo, a nova formação, de tão unificada, passa a ser facilmente manipulada, ganhando uma consciência coletiva que transpassa a consciência particular, diminuindo o espaço da reflexão individual, o que torna o grupo perigoso e coletivamente irracional.

Dessa forma, poder-se-ia dizer que a unidade social começa a fugir totalmente do controle de seu líder, o professor Rainer. Porém, em seu íntimo, o próprio líder é conquistado pela formação que suscitou e pelo reconhecimento que lhe foi atribuído, sendo condizente, ou, no mínimo, omisso em relação ao caminho que se grupo passa a traçar. Eis aí uma das complexidades da política tirana. Ao perceber a amplitude ilegítima que o bando atingiu, o professor decide denunciar aos estudantes o enfraquecimento do sujeito crítico que se instalou em cada um deles, devido ao poder carismático da liderança e devido ao fanatismo diante da adoção de objetivos específicos de grupo.

No filme, os sentimentos da nação alemã referentes à culpa e ao ódio da sua própria história são retratados de forma rasa. Os jovens estudantes, preocupados com a reputação pessoal no colégio, parecem ignorar os efeitos da unidade social sobre os mesmos, descartando a possibilidade de um governo autoritário surgir na esfera escolar.

Muitas das consequências que a experiência irá causar na vida dos adolescentes poderão, de certo modo, parecer exageradas aos olhos do expectador, porém, se levarmos em consideração os jovens envolvidos e os seus problemas pessoais, observamos que sempre há seres humanos mais suscetíveis, os quais serão atingidos de forma mais forte, como o personagem Tim (Frederick Lau), por exemplo. Neste microcosmo nazista, podemos perceber também algumas identidades esparsas (Karol, por exemplo), que resistem e militam contra a nova formação.

Em uma análise social, percebe-se que a ideia atualmente dominante de que as ações destinadas ao fomento e ao aperfeiçoamento dos direitos humanos são suficientes, é errônea. Esses valores universais humanitários devem ser incessantemente reforçados e trabalhados, a fim de evitar que o fenômeno do holocausto se estabeleça em qualquer grau de poder e espaço social. Assim como preconiza Zygmunt Bauman, não se deve "germanizar" o sentimento nazista, pois o germe da possibilidade de alguém se tornar um simpatizante de tendências nazistas está na essência do ser humano e se encontra enraizado na estrutura da sociedade moderna, sendo que hoje, pequenos movimentos fascistas ocorrem em menor grau, mesmo no alto estágio de civilização que nos encontramos. É nesse sentido que o filme A Onda vem nos alertar.


A Onda (Die Welle), 2008, Alemanha, 107 minutos.

Cotação: 7/10

Cinema: "Thor"


Assim como muitos outros projetos para o Cinema, a ideia de um filme baseado nos quadrinhos de Thor passara por diversos possíveis diretores, roteiristas e elencos durante as duas últimas décadas. Acabou, por fim, entrando na série de lançamentos de super-heróis da Marvel a preceder a produção que os unirá — Os Vingadores, em 2012.

Thor é príncipe de Asgard (um dos nove mundos que, na mitologia nórdica, formam o universo), e está prestes a assumir o comando do reino das mãos de seu pai, Odin, quando a cerimônia é interrompida ao se perceber a invasão dos Gigantes do Gelo no castelo. Vendo aí quebrada a trégua que mantinha esses dois povos em paz há anos, Thor, exaltado e irrefletido (e desobedecendo a seu pai), reúne um grupo e vai até o outro planeta tirar satisfação com os invasores. A situação sai de controle, e Odin, sensato e respeitoso, intervém. A desordem é punida severamente: Thor é privado de seu martelo (sua fonte de poder) e expulso à Terra. Tão logo chega, num deserto, é atropelado por um grupo de cientistas que pesquisava fenômenos astronômicos no local — e estes logo se tornarão aqueles com quem aqui formará laços e que acompanharão sua gradual mudança de comportamento. O romance que logo se forma com Jane Foster (Natalie Portman), uma das cientistas, será, claro, catalisador deste processo. Enquanto verifica meios de voltar à sua terra, em Asgard seu irmão, Loki, conduz planos para se tornar o novo rei.

Pelo seu histórico de trabalhos, a escolha do irlandês Kenneth Branagh para a direção pareceu, a princípio, inusitada. No centro de Thor, intrigas familiares, lutas pelo poder, peripécias em terras estrangeiras: temas que o diretor conhece bem, em seu longo currículo de adaptações de obras de Shakespeare para o Teatro e o Cinema. Comandar um blockbuster, no entanto, era exatamente o desafio que Branagh procurava. Após ser ligado ao projeto, persistiu na ideia de localizar a história no mundo contemporâneo, a fim de poder estabelecer um choque cultural do protagonista com a sociedade atual, e daí, além do drama, tirar algum humor.

Que está presente (conduzido em boa parte pela personagem de Kat Dennings) e, embora inicialmente possa parecer deslocado ou mesmo desnecessário, é abordado de forma bastante prática pelo cineasta. O mesmo se aplica a certos virtuosismos visuais, como o uso recorrente de ângulos inclinados: Branagh não desperdiça tempo da narrativa deslumbrando-se com a própria habilidade (ou, no caso anterior, permanecendo na tirada cômica), e logo corta para a cena seguinte. De certa forma, talvez, essa economia pode até ser usada para justificar o quase abrupto arco dramático por que Thor passa — afinal, toda história parece transcorrer num período de poucos dias. Não que tudo se resolva por aí: no clímax, há um momento em que, após recuperar seus poderes, o herói vira-se para um agente da SHIELD e diz que irá colaborar com a organização caso seja devolvido a Jane o material que lhe fora tirado, e então corre para tentar retornar a Asgard — numa tentativa forçada dos roteiristas de amarrar pontas soltas da narrativa.

Alguns podem também acusar o filme de convencional, lugar-comum, cafona, especialmente no desenvolvimento do seu romance e na resolução dos conflitos familiares. Mais uma vez, entretanto, a direção de Branagh parece imaculada. Tudo é conduzido, encenado e interpretado de forma que o resultado surge sincero, verossímil e tocante — às vezes até ingênuo. Vale então mencionar, aqui, que no campo das atuações ao menos duas são excelentes: a do próprio Chris Hemsworth, que faz o personagem-título (e que anteriormente teve apenas um papel numa produção maior, como o pai do capitão James Kirk no Star Trek de J. J. Abrams), e a de Tom Hiddleston, que faz seu irmão. Enquanto o primeiro dá toda a densidade e credibilidade de que Thor precisa, o segundo vai aos poucos desvelando as intenções e camadas de personalidade de Loki — e ambos conseguem justificar as transformações experimentadas por seus personagens, mesmo que no roteiro elas não recebam o melhor tratamento.

Porém, embora consiga apresentar com certa eficiência seus temas e tramas, não se pode isentar o filme pela falta de desenvolvimento apropriado que algumas situações requeriam. Além disso, a desconsiderar os vínculos e obrigações que toda adaptação tem com seu material de origem, é visível que a estrutura aqui fica amarrada a uma espécie de preparação para algo maior, uma ligação burocrática que certamente priva da história certos rumos e liberdades. Mesmo assim, Thor é agradável, visualmente encantador e divertido. Branagh, afinal, mostrou ser o diretor adequado.


Thor, 2011, Estados Unidos, 115 minutos.

Cotação: 7/10

Cinema: "Rio"


Blu é uma arara azul, último macho de sua espécie, que vive em Minnesota com sua dona, Linda. Quando filhote, foi raptado das florestas do Rio de Janeiro e, enquanto era contrabandeado para os Estados Unidos, o caminhão que o transportava sofreu um pequeno acidente, deixando cair a caixa em que estava. A pequena Linda o encontrou e o tomou sob seus cuidados, formando forte conexão com o pássaro, o qual a acompanhou nos momentos mais importantes de sua vida. Tamanha dedicação lhe renderam certos melindres, e assim Blu nunca viu necessidade de, por exemplo, voar. Quando o ornitólogo brasileiro Túlio por acaso acaba o encontrando, convida dona e animal a passarem algum tempo no Rio, onde há uma arara fêmea, Jade, e, portanto, a possibilidade de perpetuação da espécie. Já no Brasil, a hesitação de Linda então encontra justificativa ao saber que ambas as aves foram sequestradas. E estas, acorrentadas uma à outra, terão de sobrelevar as diferenças (muitas; certamente as vivências completamente distintas criaram hábitos intangíveis) para tentarem se salvar, encontrando no caminho a ajuda de diversos animais e a oposição de alguns outros.

A direção é do cineasta carioca Carlos Saldanha, que vem trabalhando no ramo de animações desde a década de 90, tendo realizado junto a Blue Sky sucessos de público como a trilogia A Era do Gelo. Rio, projeto pessoal que Saldanha desenvolvia há anos, acaba se estabelecendo como uma homenagem à sua cidade natal — e no processo acaba relevando muitas coisas.

Primeiro, a força da história. Rio, embora uma obra original num ano dominado por continuações cinematográficas, tampouco faz por merecer muito crédito. Além dos vários lugares-comuns narrativos (e piadinhas físicas obsoletas), o roteiro pouco se empenha no desenvolvimento de seus personagens, rendendo-se principalmente a sequências de ação ou de deslumbramento da cidade. Nada mais trágico, no entanto, que suas tentativas musicais, que não mostram qualquer traço de inspiração ou encantamento, e normalmente surgem deslocadas, prejudicando o ritmo da narrativa.

Segundo, a relevância da história. Era esperado e em parte justificado que muitos dos problemas do Rio de Janeiro fossem suavizados ou ignorados na concepção do filme, mas o que acaba ficando é uma visão quase idealizada das coisas, privando de Rio certos traços de complexidade que talvez deixassem a história mais interessante. Ainda, a se considerar o poder, ativismo e denúncia que certas animações conseguem transmitir, o que se vê aqui é então mais uma oportunidade desperdiçada. E que não se fale que, por essas escolhas, Rio é despretensioso. Mais adequado seria dizer que é preguiçoso.

Terceiro, o visual da história. Com desenhos de traços grossos e sem muito rebuscamento, a obra perde em detalhes e não raro se entrega ao cartunesco, o que mostra que também não traz grandes avanços na parte técnica (ficando separado, neste sentido, por um abismo a outras animações do ano, especialmente Rango).

Ainda assim, o filme tem seus meios de compensar a sessão: os protagonistas ganham em carisma e conseguem momentos envolventes; há os coadjuvantes divertidos, tipicamente representando as melhores investidas de humor; têm-se belos arrebatamentos de pura contemplação visual, por vezes focando em pontos turísticos da cidade; e há uma boa porção de canções originais que pontuam bem diversas cenas, criadas para a trilha sob a supervisão do talentoso Sérgio Mendes. O que, entretanto, não é suficiente para fazer de Rio um trabalho criativo, importante ou memorável. Uma boa aventura, mas enfraquecida pela abordagem romantizada e simplista de seu diretor.


Rio, 2011, Estados Unidos, 96 minutos.

Cotação: 6/10

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