Cinema: "Ponyo - Uma amizade que veio do mar"


Após ter seu lançamento no Brasil adiado por várias vezes, finalmente o filme de Hayao Miyazaki, com o título original Gake no ye no Ponyo, chega aos cinemas nacionais dois anos depois de sua estréia no Japão. A história gira em torno de Sōsuke, um garotinho de 5 anos que mora em um penhasco, com vista para o mar. Certo dia, ao brincar na praia, Sōsuke conhece Ponyo, uma princesa peixinho-dourado que mudará a rotina do garoto e desejará se tornar humana para ficar ao lado do seu mais novo melhor amigo.

Mais uma vez, após o sucesso dos filmes Meu Vizinho Totoro, Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro e O Castelo Animado, Miyazaki e o seu Estúdio Ghibli nos trazem uma obra que reflete um universo inocente através de um olhar delicado e otimista, marca do diretor em questão. E é este olhar diferenciado que retrata os laços afetivos e as ações destemidas de seus personagens em busca de realizações sentimentais típicas do íntimo infantil. Miyazaki sempre explora essa temática, por vezes de uma forma mais complexa (agregando conceitos ambientais, sociais etc), como também com um viés mais puro e simples.

Assim como em outras das suas obras, Miyazaki prefere trabalhar da maneira tradicional, onde predomina o trabalho manual (extremamente detalhista) dentro de suas animações, exteriorizando a simplicidade que deseja em seus filmes. É impossível não deixar escapar sorrisos inocentes e não sentir uma satisfação interior ao observar as aventuras dos protagonistas dentro de situações inéditas e levemente excêntricas.

Os dubladores originais são geniais (japoneses, claro!); a trilha sonora composta por Joe Hisaishi é sensacional, acompanhando as emoções dos personagens e, consequentemente, do público.

Ponyo - Uma amizade que veio do mar, indiscutivelmente, é um filme obrigatório para os fãs de anime, como também para os adoradores de animações. Mais que isso, é um filme obrigatório para os adultos, principalmente para aqueles que já esqueceram da prazerosa experiência que é viver e sonhar como as crianças. Por vezes, isso deve ser praticado, e, com certeza, são elas e pessoas como Hayao Miyazaki que nos instigam a fazê-lo.

 
Ponyo - Uma amizade que veio do mar (Gake no ye no Ponyo), 2008, Japão, 101 minutos.

Cotação: 7/10

Cinema: "Resident Evil 4: Recomeço"


Ao ser lançado em 1996, o jogo Biohazard (posteriormente Resident Evil) foi um grande sucesso de público e acabou popularizando o subgênero survival horror e as histórias de zumbis. Bastante inspirado nos filmes do gênero de George A. Romero, o jogo iniciou uma franquia que continua ainda hoje, estendendo-se a publicações e a uma série de filmes, entre outros produtos. O próprio Romero estava trabalhando para levar a história às telas, mas acabou se desligando do projeto devido a diferenças criativas. O posto foi assumido, então, pelo péssimo Paul W. S. Anderson, que levou a produção adiante, na função de diretor, roteirista e produtor. Resident Evil: O Hóspede Maldito teve mais três sequências (todas escritas e produzidas por Anderson), na última das quais o diretor também voltou ao comando atrás das câmeras. O que rendeu este Resident Evil 4: Recomeço.

Esse quarto filme segue a insossa história dos anteriores (ou seria melhor dizer: "repete a história dos anteriores", já que não insere nada de realmente importante no que foi visto até então), a qual não merece ser lembrada. Basta dizer que Anderson dá continuidade a uma série que, a cada capítulo, fica mais ridícula e insuportável (desnecessária ela é desde o segundo filme). São frases constrangedoramente expositivas, quando não simplesmente idiotas; e situações estúpidas que fazem jus ao nível dos diálogos e que servem apenas para gastar tempo e justificar mais um longa metragem.

Na direção, Anderson, sempre de forma infeliz, abusa das câmeras lentas e opta por uma edição sonora que parece usar como base um som metálico estridente que fere os ouvidos dos espectadores. Se já não fosse o bastante, a trilha sonora segue a mesma cartilha e completa a sessão de tortura. Confirmando ser consistente em sua incompetência, o diretor não consegue conceber sequer uma sequência de ação minimamente interessante — e aquela que se passa num banheiro e envolve uma das mocinhas e um zumbi grandalhão é a prova de que o diretor deveria ser proibido de continuar no ramo cinematográfico. Tudo bem, deve-se admitir que há um momento que até funciona razoavelmente, quando a protagonista Alice, após saltar de um prédio por um cabo, cai em meio a vários zumbis e — sempre acompanhada em câmera lenta, claro — começa a abrir caminho entre eles, demonstrando todo seu vasto repertório de habilidades letais.

Das atuações, vale mencionar Milla Jovovich (mulher do diretor, aliás), que acerta na sua composição que contrapõe a voz baixa e rouca com suas competências de heroína de ação (enfim, só isso); e na ótima presença de Wentworth Miller, que curiosamente interpreta um papel que divide grandes semelhanças com seu personagem na série
Prison Break. As demais performances ou são irregulares e limitadas pelo péssimo roteiro — a de Ali Larter, por exemplo —, ou são realmente fruto de atores medíocres, como Shawn Roberts, que interpreta o risível (para dizer o mínimo) vilão.

Tentando prolongar o improlongável (e já aproveitando para deixar um gancho para uma continuação), o diretor ainda insere uma cena boba durante os créditos, e uma fala mais boba ainda ao fim do filme (a qual, aliás, está presente no trailer). Que essa produção é um atestado de que
Resident Evil é uma série cada vez mais decadente e repetitiva, não há dúvida. Basta apenas que o produtor Paul W. S. Anderson perceba isso.


Resident Evil 4: Recomeço (Resident Evil: Afterlife), 2010, Estados Unidos, 97 minutos.

Cotação: zero/10

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