A obra do escritor britânico C. S. Lewis, ele nunca escondeu, foi feita em parte como forma de difundir (e, em maior grau, de pregar) os fundamentos do cristianismo, religião à qual se converteu por influência do amigo (católico) e também escritor J. R. R. Tolkien, criador de O Senhor dos Anéis. Os dois amigos, professores da Universidade de Oxford, partilhavam também o gosto pela fantasia, e esse certamente foi o fator que os alçou ao reconhecimento.

Vendo o sucesso das adaptações cinematográficas de narrativas fantásticas como a de Tolkien e também a de J. K. Rowling, a Disney decidiu investir, também ela, em uma franquia baseada em As Crônicas de Nárnia, por sua vez o trabalho mais conhecido de Lewis. O primeiro filme, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de 2005, alcançou relativo êxito comercial e justificou uma continuação, Príncipe Caspian, de três anos depois. Este, no entanto, não acumulou valores satisfatórios em bilheteria, o que fez com que a Disney desistisse da série. Entrou, então, a Twentieth Century Fox, para complementar o financiamento junto a Walden Media.

Mudanças de estúdio não representam, necessariamente, melhora nas produções cinematográficas; essa introdução serve, na verdade, para mostrar que a Disney foi esperta em abandonar o navio (quase literalmente, nesse caso), já que, sem pesar os méritos artísticos, este terceiro filme, As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada, vem sendo um fiasco comercial, tendo, na presente data, mal conseguido pagar seus custos de produção.

Agora, considerando a qualidade da obra, bom, o filme é igualmente um fracasso. O diretor dos dois primeiros capítulos, Andrew Adamson, disse que queria "dar um tempo" quando se desprendeu do projeto. No seu lugar, entrou Michael Apted, e o resultado não poderia ser mais inexpressivo. Junto a um roteiro que não sabe o que quer contar, a direção do filme é desprovida de qualquer vigor ou inteligência, seja para a condução das sequências de ação, seja para dar um rumo coerente à narrativa.

Um ano no mundo real se passou desde os acontecimentos de Príncipe Caspian; em Nárnia, foram 3. (Aqui vale mencionar que não há uma relação temporal lógica entre a Terra e Nárnia, sendo que entre os dois primeiros filmes a relação foi de um para 1.300 anos) Os irmãos Pevensie estão separados durante a guerra: enquanto Pedro e Susana estão morando com o pai nos Estados Unidos, Edmundo e Lúcia estão com os tios na Inglaterra, onde tem de conviver com o insuportável primo Eustáquio. Certo dia, em meio a uma discussão, as três crianças acabam indo para Nárnia por meio de um quadro no aposento de Lúcia. Lá, eles se juntam a Caspian, agora rei, em seu navio Peregrino da Alvorada, e tem de resgatar os Sete Fidalgos (e suas espadas) a fim de combater o Mal que está se instalando naquele mundo.

Se em relação aos dois primeiros filmes se podia dizer que eram superiores aos contos, aqui o trabalho de Apted não permite tal inferência. A narrativa é totalmente fragilizada pela falta de estrutura, tanto que a história acaba soando episódica e desconexa. E se o filme acerta nos momentos em que utiliza a câmera na mão para dar mais realismo a uma obra mergulhada em efeitos visuais, erra ao não conseguir criar um momento sequer de humor genuíno — e os esforços do ator Will Poulter, que interpreta Eustáquio, são desperdiçados por um roteiro bobo e condescendente. Claro que o pior de tudo é ver frases tão expositivas quanto "Basta ter nessas coisas. Aslam vai nos ajudar." ou "No seu mundo, eu [Aslam] tenho outro nome.", que, se por um lado apenas representam a essência da obra de origem, por outro refletem a petulância dos produtores em querer fazer proselitismo.

Não apenas falhando em seus elementos narrativos, o filme tampouco se destaca nos aspectos técnicos. Se a fotografia consegue captar alguma beleza, a montagem destrói o ritmo; se a música de David Arnold é eficiente em retomar o tema criado por Harry Gregson-Williams, os efeitos visuais são irregulares e, em alguns momentos, constrangedores — só vale menção a animação empregada no ratinho Ripchip, que convence mais que qualquer outra coisa entre tudo o que se viu na série até agora.

Enfim, A Viagem do Peregrino da Alvorada acaba por representar não apenas uma mudança de estúdio (e de diretor), mas um retrocesso numa franquia que, embora não tão envolvente e interessante, até agora não havia entregado nenhum filme ruim. Até agora.


As Crônicas de Nárnia: A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Chronicles of Narnia: The Voyage of the Dawn Treader), 2010, Estados Unidos, 113 minutos.

Cotação: 3/10


4 comentários:

Robson Saldanha disse...

Espero um pouco mais ainda desse filme. Devo ver essa semana!

James Lee disse...

Assisti o primeiro e achei agradável, mas também pudera. Na época tinha onze anos, não tinha como não se entusiasmar com tudo aquilo. Na continuação seguinte, eu tenteiver em DVD mas por algum motivo não tive paciência para passar da primeira cena. Acho que o principal motivo foi o fato dos filmes terem demorado para chegar aos cinemas, com uma certa proximidade, eles pegariam o mesmo público que extasiou a plateia no primeiro filme. Quando foi lançado, as crianças já haviam crescido. E, cá entre nós, a saga não é propriamente feita tbm para adultos, está apoiada em um lado muito infantil ...

Excelente texto!
Abraços;

Rodrigo disse...

O primeiro já era fraco, e o segundo melhorou algumas coisas, mas nunca foi uma franquia que me chamou a atenção. Não sei ainda se vejo o terceiro, mesmo sabendo de todos seus defeitos. Abrass.

Mateus Selle Denardin disse...

"A Saga da Franquia que Queria Ser Épica"

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