"Megamente": como se criam os heróis e os vilões


No Cinema, os vilões quase sempre representam personagens mais interessantes que os heróis. Sua complexidade é demonstrada, especialmente, pela personalidade, pela inteligência e pelo histórico de acontecimentos que os levaram a ser o que são. O Cinema de desenho animado que é voltado ao público infantil e que deve prezar, portanto, pelo politicamente correto, só em 2010 decidiu investir duas vezes em vilões como protagonistas — algo que, independentemente do desenvolvimento do personagem ou do resultado alcançado, pode ser visto como uma decisão ousada. O primeiro foi o fraquíssimo Meu Malvado Favorito; o segundo, este ótimo Megamente.

Dirigido por Tom McGrath, que comandou (ao lado de Eric Darnell) os igualmente interessantes — porém mais divertidos — Madagascar e Madagascar 2, o filme inicia com uma cena mostrando o protagonista Megamente caindo para a possível morte, do que se segue sua narração dos eventos que o levaram até esse episódio: o planeta no qual vive o pequeno protagonista está prestes a ser engolido por um buraco negro; seus pais, então, colocam o filho numa pequena nave para o enviar a outro planeta e, assim, salvá-lo do desastre (numa sequência que, obviamente, remete a Superman, não sendo essa a única referência ao filme de 1978). Não antes de proferirem uma despedida e deixarem-lhe um conselho — que, apropriadamente, ele não consegue ouvir. Na rota em direção à Terra (onde mais?), ele já se vê ameaçado pelo futuro inimigo, que virá a ser o herói Metro Man e que, assim como ele, foi enviado numa cápsula a outro planeta. Enquanto este último cai em uma residência luxuosa, o pequeno Megamente cai em um presídio.

Toda essa introdução, adequadamente repleta de lugares-comuns, serve para apresentar, então, quais foram os fatores que orientaram as duas crianças a seguirem destinos diferentes (e também para que nos identifiquemos e simpatizemos com o vilão). Ou seja, Megamente, apesar de ser bastante inteligente e criativo, acabou sendo uma pessoa excluída onde quer que fosse, o que o levou a seguir o caminho do mal — e mesmo que diga, em certo momento, que ele estava destinado a ser um supervilão, é óbvio que as circunstâncias pelas quais passou tiveram papel nesse sentido. Isso também serve para confirmar uma frase do filme, e que, por sinal, está no título desse texto: que heróis (mas também vilões) não nascem assim prontos; eles são criados — uma pena é que a mensagem por trás dessa afirmação não é apresentada a fim de fazer um paralelo, mesmo que óbvio, com a história; ela é logo usada para outro fim do roteiro.

Uma história de heróis e vilões, Megamente também acaba por mostrar que um só existe graças ao outro, que essas são duas entidades que dependem uma da outra e se completam — conceito esse que foi magnificamente explorado na obra-prima de 2008, Batman: O Cavaleiro das Trevas. Aliás, ao derrotar Metro Man, o protagonista se encontra sem saber o que fazer, e algumas sequências são fabulosas a mostrar isso. "Eu não tenho objetivo!", diz Megamente em certo momento. Da mesma forma, o filme também trabalha lindamente a questão de as pessoas poderem escolher o caminho que querem seguir em suas vidas, desvencilhando-se de predeterminações impostas pela sociedade ou pelo próprio indivíduo a ele mesmo — e a cena em que Metro Man toca uma música à guitarra é igualmente divertida e reflexiva. E se alguns podem apontar que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades" — e que, então, aqueles que possuem certas qualidades especiais devem servir ao bem maior —, há de se lembrar que aqui se trata de uma animação (o público-alvo é o infantil), e assim certamente os desejos pessoas tendem a prevalecer como orientação das decisões futuras. Tudo isso, claro, converge para a jornada de Megamente, cujo arco dramático é construído com grande eficiência pelo roteiro.

Embora se saia bem, portanto, no estudo desses temas e de seus personagens, o filme falha (às vezes feio) em alguns outros aspectos. Por exemplo, mesmo tão inteligente, Megamente é incapaz de causar susto na repórter Rosane Rocha, que fora recém-sequestrada — e para tanto usa calabouços com crocodilos, serras e outras parafernálias que refletem apenas um vilão medíocre e sem criatividade. Há também a sequência completamente descartável em que o cameraman convida a repórter para um encontro — e que, pela duração, parece servir apenas a aumentar a metragem do filme. E o erro mais grosseiro: um objeto que pode resolver o principal conflito da trama é lembrado, inexplicavelmente, apenas no fim da história. (Isso para não falar da ridícula piada feita na adaptação nacional do texto, que envolve a palavra "exit").

Já na técnica de animação, uma ou outra irregularidade pode ser observada: enquanto o detalhamento do primeiro plano ou do plano de conjunto é bem construído, é comum observar um descuido no desenho dos planos gerais. Por outro lado, há muito que se elogiar (e aqui vale lembrar que Guillermo del Toro foi consultor criativo da produção): a começar por Megamente, que além de apresentar movimentos e expressões impecáveis, foi concebido perfeitamente com um corpo longilíneo em contraposição a uma cabeça exageradamente grande (e que justifica seu nome). O desenho das roupas merece igualmente destaque, assim como os objetos metálicos (perfeitos visualmente) e o corpo robótico em que fica Criado, o ajudante/mordomo/bicho-de-estimação do anti-herói. Também há de se lembrar da barba crescida no queixo do cameraman e do cabelo grisalho de Metro Man, detalhes que só enriquecem a produção.

Meio óbvio (mas não por isso desagradável) na escolha das canções — que incluem "Bad to the Bone", "Highway To Hell" e "Bad" —, o filme traz a partitura musical assinada por Hans Zimmer e Lorne Balfe, mas que acaba por não apresentar grande impressão durante a narrativa. A montagem traz algumas boas transições e outras sem inventividade alguma, mas no geral o resultado é positivo. Embora alguns clichês possam insistir em alguns momentos ("Eu tinha uma razão para vencer: você."), eles não chegam a representar maior incômodo.

Certamente inferior à obra-prima da DreamWorks, Como Treinar o Seu Dragão, também de 2010, Megamente, no entanto, consegue desenvolver com propriedade sua história e certamente é um trabalho a ser celebrado — mesmo que não possa ser considerado exatamente memorável.


Megamente (Megamind), 2010, Estados Unidos, 95 minutos.

Cotação: 7/10


14 comentários:

Marcos disse...

Olá Mateus e Flávia,

Sou leitor do Observatório do Cinema e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema - o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que vocês também passassem a publicar seus textos no Cinema Total - assim vocês também atinge o público que acessa o Cinema Total e não conhece o Observatório do Cinema.

Se vocês gostarem do site, também peço que coloquem um link para ele no Observatório do Cinema.

Se vocês quiserem, me mandem um email quando criarem sua conta que eu verifico se está tudo ok.

Um abraço,

Marcos
www.cinematotal.com
marcos@cinematotal.com

Mateus Selle Denardin disse...

Há uma breve cena após a primeira parte dos créditos finais. ;)

Kamila disse...

Eu gostei muito de "Megamente". O filme lembra um pouco "Meu Malvado Favorito", mas tem uma história mais carismática e que faz rir e chorar. Eu adorei!

Cristiano Contreiras disse...

Eu achei "Meu Malvado Favorito" fraco demais, lamentável, pois tinha boas expectativas! Ainda não vi "Megamente", mas seu texto me parece justo com o que a obra representa. Não sabia da contribuição de Hans Zimmer na trilha...

Abraço!

Nilson Jr. disse...

Ainda não vi Meu Malvado Favorito (e não sei se verei), nem Como Treinar o Seu Dragão (esse sim não vejo a hora de assistir), mas não gostei muito de Megamente. Não sei se pelo adiantar da hora, ou por ser um pouco arrastado, mas me deu sono.

De qualquer forma, gostei muito do texto. abraço!

Robson Saldanha disse...

Vem sendo bem recebido, quero muito conferir!

Luis Galvão disse...

Eu também adorei o filme! Uma pena que não tem muitas chances de chegar no Oscar com Toy Story e Como Treinar Seu Dragão com vagas garantidas. E a Dreamwork sempre se aperfeiçoando.

bruno knott disse...

E aí Mateus!

Achei bacana a ideia de ter o vilão como o personagem principal em uma animação.

Ainda não conferi, mas fiquei com mais vontade dps de ver o teu texto, apesar de certas irregularidades que citou!

Abraços.

pedro tavares disse...

Teus comentários sobre o filme me animaram um pouco pra ver, pois acho que a animação (de grandes estúdios, pra deixar claro) está saturada.

Otavio disse...

É, achei bem divertido. Na verdade, a diversão típica da DreamWorks sobre personagens malandros. Mas, desta vez, com um certo equilíbro. E você colocou aí a foto da melhor cena do filme hehe...

Abs!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Pulsa o cinema
por estar vivo!
Pulsa!
Cheio de emoção!
Gostei do blog. Vou segui-lo.
Abração

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Wally disse...

Divertido demais esse filme. Tem vários defeitos, mas também ótimas sacadas. Eu dei 7,5.

James Lee disse...

Não estou tão motivado á conferir, pra falar a verdade, estou bastante desanimado com o cinema de mina cidade,além de ser longe não tem uma estreia digna, rs, apenas "Megamente". Enfim, acaba ficando apenas no DVD msm. Abs,
sebosaukerlblogspot.com

renatocinema disse...

ADOREI O VISUAL DO SEU SITE. OBRIGADO PELA VISITA NO MEU BLOG.

PROMETO QUE QUANDO ESSA LOUCURA DO TRABALHO ACABAR ENTRO COM CALMA NOS SEUS TEXTOS.

SOBRE O FILME "CONTA COMIGO", FILMAÇO AO PÉ DA LETRA. EMOÇÃO CLÁSSICA DA SESSÃO DA TARDE.

ABS

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