Desde o momento em que li Harry Potter e as Relíquias da Morte, apostei ser esse o livro mais adequado para a adaptação nos cinemas. Isso, contanto, não seria possível se tal tarefa fosse entregue em mãos erradas. Ansiosa, chego aos cinemas para assistir um dos meus anti-heróis favoritos e saio satisfeita e felicíssima.

Em um clima frio e tenso, a primeira parte da história das Relíquias da Morte é cinematografada com explícita qualidade, porém, jamais se esquecendo da sequência literária em que se baseia, pois, desde o início, o longa deixa claro que somente apreciará intensamente o filme aquele que assistiu à todos os anteriores. Isso, além de ser adequado, caracteriza o respeito aos milhares de fãs da saga Harry Potter.

A atmosfera do filme segue um ritmo sombrio, presente, como sempre, um universo de magia, porém esse como pano de fundo, sendo, dessa vez, o viés político a temática destaque. A analogia que o filme faz com uma sociedade em regime ditatorial (“a ditadura dos trouxas”) é muito clara, tendo Lord Voldemort como um vilão extremamente político, que cresce na medida em que consegue se articular com os poderes (Ministério, Hogwarts etc.) e que controla e conquista apoiadores através da opressão e da instigação do medo.

Harry, Rony e Hermione enfrentam juntos uma verdadeira guerra lançada pelos comandos de Voldemort. É gratificante observar a evolução dos laços de amizade entre o trio, o qual se relaciona de maneira simbiótica, onde, ao mesmo tempo em que a sobrevivência de cada um depende de todos os outros, a teste são postos todos os sentimentos de afeição, pois a guerra em questão trouxera o lado negro de cada um.

Ainda assim, há espaço para se emocionar com a relação fraternal existente entre os personagens, com destaque para a cena (SPOILER) em que Harry Potter convida Hermione para uma dança e os mesmos bailam timidamente e engraçadamente (ao delicado som de O'Children, de Nick Cave) como dois amigos que conseguem esquecer, por um momento, o nefasto mundo pelo qual devem intervir. Cena esta não presente no livro, mas que deu a história um belíssimo toque de emoção em uma ação delicada de roteiro e de direção.

Em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 há muitas atuações em destaque. Os olhos que aparecem na tela logo no início do filme já abrem as portas para a atmosfera dramática que estará por vir, em uma bela e enérgica atuação de Bill Nighy, interpretando o ministro Rufus Scrimgeour. Contudo, os grandes nomes da vez são Rupert Grint (Ron Weasley) e, principalmente, Emma Watson (Hermione Granger). Rony destaca-se de uma forma estonteante (SPOILER) na cena em que briga com Harry e, utilizando-se de um diálogo bem elaborado, o ator demonstra estar confortável e, ao mesmo tempo, confiante perante seu papel. Com um emocionante amadurecimento, Emma Watson assume o papel de uma amiga que coloca o seu medo em segundo plano e faz de tudo para lutar pelas pessoas que ama, mantendo uma feição resistente durante todo o longa.

Claro que não se deve esquecer de Daniel Radcliffe, que, assim como seus companheiros de set, evoluiu de uma maneira estrondosa durante a saga, no mesmo compasso em que a história, por si só, exigia dos atores. Interpretar papéis tão alternantes, em que ora versam sobre pessoas normais com os medos e cotidianos comuns, e ora versam sobre atos do inimaginável universo bruxo, não é tarefa fácil, pois se corre o risco de inadequados over actings, tão comuns neste gênero de filme. Esse trio de atores segue para o último filme de cabeça erguida pelos seus méritos pois, longe de exageros e de estagnações, suas atuações merecem consideração devido a evolução que obtiveram ao longo dos anos.

Como leitora cuidadosa e como cinéfila, acredito ter o roteirista Steve Kloves feito um trabalho surpreendente de adaptação, pois se trata de um livro complexo e sequencial, sendo muito difícil dividir a história pela metade. Isso é visível quando, ao final, olhamos para a tela e pensamos "Já acabou? Eu quero ver o resto!”.

Porém, acredito que alguns trechos do livro que não constaram no roteiro se encaixariam perfeitamente sem ocupar um tempo desnecessário, como, por exemplo, (e aqui vai um enorme de um SPOILER) na cena em que Dobby morre, é colocada em cima do túmulo uma placa onde consta “Aqui jaz Dobby, um elfo livre", detalhe este que não aparece no filme. Tal inserção, a meu ver, só teria a contribuir  com a complexidade dramática da história. Além disso, há também algumas adaptações, digam-se de passagem, estranhas, como na mesma cena já citada, quando Dobby é enterrado (no filme) em uma duna de areia. Vai entender.

Deixando de lado tais escorregadas do roteiro, dada a responsabilidade ao diretor David Yates, esse faz um trabalho merecedor, pois cria de forma vitoriosa um contexto sombrio em torno dos personagens, dirigindo corretamente suas ações e expressões. Também, com uma iluminação incrível no estilo Low-key, a fotografia do filme é fantástica e, juntamente com uma trilha sonora eclética e clássica (amo Hedwig's Theme de John Williams!), a atmosfera do livro é traduzida perfeitamente para as telonas.

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 traz o prelúdio do final de uma saga que evoluiu juntamente com seus leitores, fãs, ou apenas apreciadores da sétima arte. Emociono-me quando imagino a quantidade de crianças e pré-adolescentes que cresceram acompanhando o universo mágico de Hogwarts e que consideraram todas as lições morais ensinadas por J. K. Rowling. 

Evoluímos na vida trouxa assim como Harry Potter evolui em seu cotidiano cheio de magia, aprendendo que uma vida segura resulta de pequenos sacrifícios e do apoio daqueles que nos amam. Assim como Harry, por vezes rejeitamos o caminho mais fácil, pois a parcela de coragem do pequeno bruxo que resta conosco sabe que o caminho mais difícil pode ser, também, o mais recompensador.



Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1), 2010, Estados Unidos, 146 minutos.

Cotação: 9/10


15 comentários:

Flávia Hardt Schreiner disse...

Ah, é importante ressaltar a belíssima animação feita no filme para explicar a história das Relíquias da Morte!

Nilson Jr. disse...

Que belo texto, Flávia!

Tenho que dizer que concordo com tudo o que você escreveu, não tenho mais o que acrescentar. Também escrevi sobre o filme e dei a mesma cotação.

Parabéns

Wanderley Teixeira disse...

Olá pessoal do Observatório! Bem-vindos a Sociedade dos Blogueiros Cinéfilos!
A primeira parte de Relíquias da Morte é muito boa sim, aliás a série em si só cresceu de uns anos para cá. Espero um desfecho de cair o queixo!

Daniel Isaia disse...

Flávia!

Parabéns pelo texto, ficou muito coerente e foi extremamente justo com as peculiaridades desse filme. Agora, resta esperar com muita ansiosidade o desfecho da história. Que seja ainda melhor!

Pra mim, a saga do Harry Potter é uma daqueles raros universos literários que o cinema consegue praticamente transformar em "realidade". É o caso, também da trilogia 'O Senhor dos Anéis': ambos os mundos foram retratados com uma verossimilhança incrível na telona.

Beijão!!!

lematinee disse...

Oi Flavia!

Achei fantastico esta adaptação, sem duvida a melhor ate agora da saga toda. É bem verdade que para aprecia-lo tem que conhecer as historias dos livros tb. Afinal, Dobby surge no segundo filme, e apesar de sua constancia nos livros ele desaparece do meio cinematografico até este sétimo...

Os personagens estão maduros, representaram de uma forma excepcional o peso que tornou a missão de vencer Voldemort.

Bjs!

Natalia

Cristiano Contreiras disse...

“Harry Potter e as Relíquias da Morte” mostra o apuro total da série que conquistou milhares de fãs no mundo inteiro – até para os não iniciados no mundo da magia, ou viciados nesse contexto da fantasia.

É um filme que, finalmente, encontra seu teor de maturidade, numa direção mais central e cuidadosa de Yates – que com a ajuda do roteirista Kloves – consegue condensar todas as principais partes do livro, bem como diálogos. Toda a essência está ali, ao contrário dos anteriores que acabavam por correr demais em certas passagens.

É realmente admirável ver como o elenco aqui está mais entrosado, ou melhor: Temos um Daniel Radcliffe mais maduro. Rupert Grint e Emma Watson, num mundo mais justo e acolhedor, poderiam ser indicados ao Oscar. Sim, eles têm uma atuação mais emocional, estão realmente bem no filme, há momentos que até impressiona.

O roteiro consegue fluir bastante, evitando cenas rápidas, explica muito bem certos contextos do filme, é admirável o cuidado em até situações rápidas que no livro parece não ter importancia, mas no filme faz todo o sentido.

Eu gostei muito da forma sombria que o filme tem, da maneira “adulto” estampado em cada cena, nos diálogos até reflexivos do trio central. Inclusive, há mais ousadia nesse, até sensualidade em uns contextos, a puberbade mais evidente…e o senso dark, fora do contexto de magia dentro de Hogwarts – iniciado desde “A Ordem da Fenix” aqui atinge seu ápice…

Diferente mesmo este filme, pois o roteiro não tem partes confusas ou desconexas como muitos trabalhos cinematográficos, adaptados de livros, tendem a demonstrar.

Gostei dos momentos de Harry – Rony – Hermione.
Da forma como a mão de Yates priorizou as atuações deles…
Helena Bonham Carter conseguiu também acertar seu tom como Bellatrix Lestrange, se antes ela parecia meio artificial demais, neste filme assombra demais.

O que foi aquela parte da animação no meio do filme mesmo? muito bom ter colocado o Conto sendo explicado com uma animação.

As cenas de ação, ainda que não tão extensas e intensas, são impressionantes e iguais aos do livro. A trilha de Alexandre Desplat, ainda que correta(talvez, a menos inspirada deste compositor que surpreende a todo trabalho – a trilha dele pros filmes Lua Nova e tantos outros foram perfeitas), é satisfatória – mas, é verdade, de longe é o ponto mais fraco do filme. A fotografia de Eduardo Serra (admiro ele, já havia feito um belo trabalho no “Moça com Brinco de Pérola”)muito boa, dá todo o clima do livro/filme, a forma como o filme usou de referências de outros filmes tambem me agradou.

Há um clima triste que paira todo, algo meio pessimista, intimista até – de fato, o último livro da saga é o mais denso e pesado, precisava de um filme que fizesse jus a ele. Há momenos emocionais, como a passagem de Dobby…há cenas bem emocionantes mesmo.

Eu realmente estou admirado com o trabalho deste filme!
Gostei muito…e quero rever!

Que venha a parte dois!

Flávia Hardt Schreiner disse...

Que venha a parte dois[2]!

Wally disse...

Ótimo texto para um excelente filme. Realmente valorizou o que o filme teve de melhor.

Dr Johnny Strangelove disse...

Não sou fã de Potter e sou um agraciado em não ter visto um filme sequer da franquia. Mas o que se admira é que em 2010 será um marco no qual tudo que amamos ou que acompanhamos durante um bom tempo chegou ao fim. Um dia muito distante, talvez veja algo do bruxo ... mas por agora olho de longe e admirar a paixão dos fãs pela franquia.

boa noite a todos

bruno knott disse...

Nunca fui muito fã dos filmes do HP... sempre achei eles chatos, a partir do quarto filme comecei a gostar. Teu review me motivou bastante para ir ao Cinema.

Abraços.

cleber eldridge disse...

Que venha a parte dois mesmo, porque essa foi um completo desastre.

Matheus Pannebecker disse...

Eu era contra a divisão de "As Relíquias da Morte" (acho que esse é o livro que mais tem momentos dispensáveis), mas depois que assisti ao filme, fiquei extremamente satisfeito com o resultado. Ansioso pela segunda parte!

danielsenos disse...

Acredita que eu não conferi este ainda? Sou fã do Harry Potter porém não consegui vê-lo ainda =/

Weiner disse...

Conseguiram fazer de uma meia parte o melhor de todos os filmes. A maturidade que Harry Potter tanto tentou gozar nos livros, realmente apareceu nos cinemas. Até então, tínhamos filmes vazios, estridentemente inconclusos; agora, pudemos contar com mais substância, e isso certamente advém do competente roteiro e das satisfatórias atuações de todo o elenco. Belo texto.

Rodrigo disse...

De fato, o filme representou um avanço enorme para a franquia. Pena que será curto, pois acaba esse ano.

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