"Nosso Lar": cinema e religião.



Exagero. Se existe uma palavra que possa resumir o resultado de Nosso Lar, essa palavra deve expressar o excesso de pregação e as excentricidades cometidas no filme. Baseado na obra homônima psicografada pelo médium Chico Xavier, Nosso Lar aproveita a linha de sucesso da temática espiritual, difundida pelo seu antecessor, o longa Chico Xavier.

André Luiz (Renato Prieto) é um espírito que desencarna e atinge a zona inferior do mundo espiritual, chamada de umbral, um local de punição e reflexão sobre a vida na terra. Após um longo período de sofrimento, ele é levado para a Colônia Espiritual Nosso Lar, espécie de cidade onde se reúnem os espíritos entre uma encarnação e outra. Lá, André adquire conhecimentos que mudarão completamente o personagem. Resumidamente, a mensagem que o filme propõe centra-se na glorificação do trabalho justo e nas consequências resultantes das atitudes humanas.

A obra seria louvável se concentrasse seus esforços na mensagem objetivada, porém, observamos um foco muito mais religioso do que reflexivo. A doutrina espírita, sempre caracterizada como alternativa, neste filme consegue ares de instituição, expressando uma preocupação óbvia em pregar suas bases e sua didática, acima de ilustrar lições morais genéricas sobre a vida. Em síntese, o filme não se preocupou em ser (o quanto fosse possível, em razão do livro em que se baseou) impessoal. Diferentemente de Chico Xavier, com caráter mais documental e análise da doutrina como um fato, como uma filosofia a se penetrar conforme a vontade de cada um, Nosso Lar nos apresenta o espiritismo como verdade absoluta.

Partindo dessa análise subjetiva, esse viés absoluto ficou ainda mais reforçado pela exatidão exagerada do filme. Com estruturas prontas e semelhantes a da Terra, a cidade ganha um caráter material muito forte, corroborado, é claro, pela artificialidade dos efeitos visuais. Luzes verdes (que mais lembram veneno) representam a energia que cura; procedimentos (e demora!) que se parecem com o nosso sistema judiciário; organização política e hierarquias que nos fazem até lamentar a vida após a morte. O umbral representado no filme é semelhante a própria concepção de inferno (com desnecessário excesso de fumaça por todos os lados) e apresentou-se como uma punição que liberta, como uma cadeia que ressocializa, o que, na verdade, pioraria as condições do desencarnado.

Com péssimos roteiro e direção de Wagner de Assis (roteirista de alguns filmes da Xuxa), a obra apresenta frases sem contexto, diálogos desconexos, e um principiante descuidado com detalhes importantes (por exemplo, é gritante, em algumas cenas, a dessintonia da trilha sonora com os movimentos e notas que certos músicos fingem tocar). Além disso, as atuações carecem de técnicas interpretativas básicas, como o impulso interno que leva à ação, presente, principalmente no ator Renato Prieto (Bezerra de Menezes), literalmente um robô que às vezes sabia rir. Fernando Alvez Pinto (que interpretou Lísias, o grande amigo de André na cidade espiritual) também não cumpriu seu papel como coadjuvante, talvez por falha de Assis, que prejudicou a maioria dos atores. Salvam-se, porém, Paulo Goulart, que interpreta um bondoso e exigente Ministro Superior, e Aracy Cardoso (ex-paciente de André Luiz, Dona Amélia), simples e engraçada em seu papel.

A bela trilha sonora concebida por Philip Glass (O Ilusionista, As Horas) e gravada pela Orquestra Sinfônica Brasileira procura, a todo momento, encaixar -sena história. A fotografia tem seus momentos de sucesso (com o fotógrafo suíço Ueli Steiger, de Godzilla, 10.000 a.C. entre outros), e os canadenses da Intelligent Creatures (Hairspray, Watchmen), embora, não duvido, tentaram se esforçar na criação dos efeitos especiais, acredito que ficaram confusos com as exigências do roteiro e direção. Cito a equipe, talvez para justificar o orçamento de R$ 20 milhões gastos com a produção, porém, desperdiçados, graças aos grandes e pequenos erros já comentados.

Finalizando, deixo claro que não li o livro e atentei-me, simplesmente, a analisar o filme que, acredito eu, tentou ser fiel à obra literária. Além disso, embora o longa não tenha atingido um bom resultado, reconheço a iniciativa do cinema local em se aventurar nos efeitos especiais nunca antes usados em produções brasileiras. Tento entender, pelo caráter estreante, os erros cometidos, porém, penso não ser uma justificação plausível, em razão dos exageros já reiterados nesta resenha. 

Enfim, não pretendo, com esse texto, enfurecer os espíritas. Respeito o espiritismo e, até certo ponto, surpreendo-me com os fatos que a ciência não consegue explicar. Porém, ainda tenho muitos questionamentos acerca da doutrina (por exemplo, a questão da interpretação do espírito realizada pelo médium), mas não estenderei essa linha de pensamento, pelo menos agora. 

 

"Nosso Lar", 2010, Brasil, 102 minutos.
Cotação: 02/10


3 comentários:

.......colombinha......... disse...

Gostei do Xico Xavier; para quem é ateu, é um filme equilibrado, que leva bem a história,e que faz bem o que propõe. Achei que nosso lar seguiria essa linha,seria algo mais filosófico,fictício. Fico triste em ser um filme com esse orçamento (acho que alto para o Brasil), participações internacionais,mas que acaba se resumindo a isso. Precisamos de pessoas que façam mais cinema,e menos de suas pretensões,suas crenças. Acima de tudo,eles devem ser profissionais; creio que o cinema brasileiro (como muitos filmes já demonstram),tem que ter uma ideia de que todos que vejam entendam,sem precisar pensar muito,e procurar coisas externas. Mas ainda há os que não conseguem se desvincular dos holofotes voltados para si (convenhamos,o que também acontece em Hollywood,mas nem vamos comparar os "créditos" que eles tem lá para fazer isso).Mesmo assim,quero ver o filme. Mas acho que agora com mais ceticismo...
Gostei da crítica ;D.

Edson Coelho disse...

Não vi e me desculpem, não me interessei em ver.
A VEJA disse que a cidade é um protótipo de Brasília; a propósito, a 1ª imagem é o centro da LBV aqui em Brasília?

Anônimo disse...

Poxa, Flávia, fiquei mto feliz com sua crítica.
Eu sou espírita, e confesso que as críticas que o filme recebeu me deixaram um pouco entristecida e preocupada. Explico-me.
Quando anunciaram que iam levar ao cinema a obra do André Luiz (que eu li mais de uma vez, por sinal), eu fiquei bem temerosa e achei que seria um erro. Ora, o livro é extremamente didático, o seu escopo é passar lições. Assim, não há preocupação alguma de fazer uma história pra entreter o leitor, não há clímax e reviravoltas ou qualquer coisa assim. A história/enredo/trama em si do livro é mto fraca, é óbvio que no cinema ia ser difícil de certo.
Mas não foi esse o único problema da película. O filme quis ser didático e passar lições, mas foi mto superficial. E se é pra passar lições, então o filme errou feio, porque uma das principais dela (e que é extremamente importante pras cenas do André Luiz, já morto, com a família na Terra), na minha opinião, foi simplesmente esquecida, negligenciada.

Desta feita, concordo totalmente com aqueles que criticaram o filme e deram-lhe nota ruim ou regular (aliás, os que deram "regular" foram generosos até).

Mas por que eu disse que fico entristecida ou preocupada? Simples, porque mtos misturam as críticas ao filme com críticas aos espíritas e ao espiritismo (só vim parar nesse blog porque vi um comentário do outro blogueiro, o Mateus, questionando a sanidade dos espíritas). Aí é óbvio que não dá certo, é como misturar alhos com bugalhos. Outra: tenho minhas dúvidas se é possível fazer críticas bem fundamentadas ao espiritismo através do contato com o filme Nosso Lar. É foda (desculpe o meu francês) ver gente rindo e ridicularizando os espíritas porque, afinal, é absurda a idéia do sofrimento do personagem logo no começo do filme (a cena da lama) ou que o espírito pode estar doente e tem hospital para se curar no "céu".

Não precisam concordar com a doutrina espírita, podem a achar equívoca sim, não tem problema. O problema é ridicularizar... ou criticar sem ter o mínimo de base para tanto. Eu não acredito no islamismo ou no judaísmo (ou suas correntes), mas nunca saí zombando da crença ou tradições deles; tampouco, p.ex., faço críticas ao uso da burqa porque não sei o que significa a burqa na religião que lhe é própria. Acho que devemos respeitar, por mais absurda que a idéia nos seja em nosso mundo particular.

Novamente, parabéns pelo post e pelo exemplo de tolerância que vc deu.

Abs,
PMCarv

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