Desde que se achou capaz de dirigir e escrever suas próprias produções — ou seja, após o sucesso de Rocky, um Lutador —, Sylvester Stallone escorregou tanto quanto era grande sua ambição. Nesse percurso, em que, claro, também não deixou de atuar, Stallone colecionou dezenas de Framboesas de Ouro, além da fúria de cinéfilos que viram séries como Rambo e Rocky se afundar no ridículo. E volta agora, tentando realizar um filme de ação que reúne os nomes mais prestigiados do gênero nas décadas passadas, do que se esperaria uma grande celebração. Aliás, isso se não fosse ele próprio quem estivesse atrás (e na frente também) das câmeras.

Em parte filmado em cidades do Rio de Janeiro, Os Mercenários trata de um grupo de assassinos profissionais que, notório por suas missões em todo o mundo, acaba sendo contratado para matar um ditador de uma fictícia ilha na América Central, e então trazer de volta a paz e a liberdade no local. Lá, são ajudados por uma mulher — que é (olhem só!) filha do tal general ditador, e por quem um dos mercenários irá meio que se apaixonar —, e mais tarde também acabam descobrindo que um agente dissidente da CIA está financiado todos esses eventos na ilha.

A partir dessa trama ge-ni-al, os roteiristas Dave Callaham e (adivinhem!) Stallone criam diálogos e situações que, se não presentes no filme, seriam um grande alívio à tortura que os pouco mais de 100 minutos de projeção representam. O fato é que, equivocadamante achando que atualmente uma boa história é irrelevante nesse tipo de projeto, a dupla pareceu não se preocupar o mínimo para que o roteiro e as cenas de ação se complementassem com alguma eficiência. Não bastasse essa falha enorme de coesão estrutural, é claro que o filme se rende aos mais repulsivos clichês: o interesse romântico de um dos mercenários lhe troca por outro homem, o qual virá a bater nela mais tarde, apenas como desculpa para que o casal volte a ficar junto; ou o momento, já no final, em que o vilão se dispõe a explicar toda a sua história (como se ninguém já não a tivesse entendido desde o começo do filme).

Com aquela cara endurecida incapaz de oferecer qualquer nuance de expressão, Stallone lidera um elenco homogeneamente ruim (e tão inexpressivo quanto ele): Dolph Lundgren, Jason Statham, Jet Li, Terry Crews, Eric Roberts e muitos outros (além de Giselle Itié) não fazem nada a não ser aparecer em cenas de ação ridículas ou entonar alguma das falas descartáveis do roteiro. Mas quem merece mesmo o rótulo de pior atuação é Bruce Willis, que, a despeito de aparecer por poucos minutos, consegue a proeza de não exibir qualquer sinal de composição de personagem.

Essa cena, aliás, é compartilhada também por Stallone e Arnold Schwarzenegger e representa, portanto, o encontro (inédito) dos mais populares astros do Cinema de ação da década de 80. É, inclusive, talvez a cena mais interessante de todo o filme, apesar da canastrice absurda dos três — que, na vida real, são amigos de longa data, inclusive trabalhando juntos como empreendedores de uma rede de restaurantes e cassinos. As falas são fraquíssimas, mas conseguem atrair alguma atenção por tentarem inserir no contexto do filme detalhes da história dos atores durante suas carreiras, como menções ao fato de um ou outro ser o mais famoso em tal época; referências à série Rambo ("Então dê o trabalho ao meu amigo aqui", diz Schwarzenegger, referindo-se ao personagem de Stallone, e continua: "Ele adora correr pela selva."); ou mesmo o instante final, quando o personagem de Willis pergunta ao de Stallone, após a saída de Schwarzenegger: "Qual é o problema dele?", recebendo como resposta: "É que ele quer ser presidente."

No entanto, deve-se lembrar de Mickey Rourke, que recebeu um injusto papel, mas que merece créditos por se esforçar para não cair no ridículo com seu personagem. Porém, acaba por protagonizar umas das cenas mais estúpidas de Os Mercenários, na qual passa por uma catarse ao se lembrar de quando não salvou uma mulher durante a guerra, o que o leva a dizer a pérola: "Se tivesse salvo aquela mulher, teria salvo o que resta da minha alma."

Claro que, num filme de ação, roteiro e atuações não importariam muito, já que são explosões, perseguições, tiros e lutas que deveriam atrair o espectador. Mas, fazendo questão de ser péssimo em absolutamente tudo, o filme sequer se salva nesse aspecto. Utilizando uma montagem histérica que não permite que o espectador compreenda o que se passa na tela, as sequências de ação são de uma falta de criatividade embaraçosa. Além disso, Stallone opta pelo uso de câmera rápida em várias cenas a fim de realçar o efeito de movimento, mas não percebe que esse artifício é horrível esteticamente. E, para finalizar, os efeitos visuais são de uma artificialidade constrangedora.

Ainda cometendo erros básicos como o descuido da continuidade de certa cena (a qual acompanha uma mulher à noite, logo cortando para outra câmera e exibindo uma claridade não condizente com a situação anterior) ou mesmo o penteado do vilão nos momentos finais do filme (que corre em meio a explosões sem nunca mover um fio de cabelo), Stallone aqui afunda todas as expectativas de qualquer um que quisesse ter uma experiência empolgante ao lado desses atores que são ícones desse gênero tão torturado.


Os Mercenários (The Expendables), 2010, Estados Unidos, 103 minutos.

Cotação: 1/10


4 comentários:

Mateus Selle Denardin disse...

Uma certa rima que acontece no 2º parágrafo foi, claro, não intencional.

vini_dos_santos disse...

Eu quero muito ver esse filme! Parece ser legal ver grandes astros de ação num filme só.

Cristiano Contreiras disse...

Concordo plenamente contigo. Stallone, ao meu ver, ainda que muitos não concorde, nunca foi ator! E aproveito pra dizer aqui que nem a tão conhecida série Rocky me cativou. Achei um absurdo aquela indicação ao Oscar de ator que ele recebeu com o primeiro filme e tudo mais.

Este filme aqui é equívoco duplo, totalmente descartável mesmo!

Abraço, Mateus

ps: te sigo no twitter também! e o perfil do meu blog tb! até, prazer!

lematinee disse...

Esse filme é o cumulo do Epic Fail, rs.
Achei desprezível a aparição de Schwarzenegger de paletózinho fazendo uma ponta fraca só para Stallone colecionar o leque de astros de ação oitentista. E Jet Li que ao meu ver tem muito talento, não mostra nada de interessante, não tem sal, nao tem nada, assim como todos os outros. Agora o roteiro, sem comentarios... Foi tipo um remake de rambo praticamente.

Abs!

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