A versão moderna de "Karate Kid"



Um filme intitulado como remake de "Karate Kid", por si só, nos cria expectativas, tal força têm as lembranças saudosistas das tardes livres no meio da semana (hoje tão raras) em que assistíamos na TV aberta a esse clássico dos anos 80. Ao mesmo tempo, assistindo à nova versão, essa expectativa deve ser deixada de lado, pois se corre o risco de o remake moderníssimo não satisfazer os desejos passadistas.
 
Deixe-me explicar. O filme não é ruim. Pelo contrário. Apesar de alguns tropeços, a essência "Karate Kid" ainda pode ser encontrada com a estreita e comovente relação mestre/pupilo e com a doutrina do kung fu. Ocorre que o filme carrega o compromisso de ser uma grande produção jovem como seu antecessor e, por este motivo, exagera nos novos conceitos modernos, decepcionando àqueles que queriam reviver, através da película, os velhos tempos.
 
Ressaltado isso e já servindo como uma preparação para os que não assistiram, entremos na estrutura do filme. A história gira em torno de Dre Parker (Jaden Smith), um garoto de Detroit que se muda para a China com sua mãe (Taraji P. Henson). No novo país, ele se envolve em conflitos com outros estudantes e acaba se tornando vítima de seus próprios medos e insatisfações com a nova morada. Ocasionalmente, Mr. Han (Jackie Chan) conhece Dre, e os dois partem em uma jornada de treinamento para que o protagonista possa enfrentar seus rivais em um torneio de artes marciais. Paralelamente, o protagonista faz amizade com uma jovem violinista (Wenwen Han) que o ajudará em seus objetivos.

O roteiro, por óbvio, é baseado no filme original. A entonação moderna fica por conta de Jaden que, confortável com o papel, anda de skate, exibe suas tranças e até arrisca uma dancinha (na verdade, ele arrasa). "Filho de peixe", o mesmo transborda carisma e comprova sua eficiência ao conseguir delinear suas emoções, mostrando versatilidade nos papéis que interpreta (vide À Procura da Felicidade).
 
Com a responsabilidade da ótima atuação de Pat Morita na versão original do filme, Jackie Chan incorpora um professor mais amigo do que mestre. Um pouco preso pelo roteiro (que não aprofunda as emoções do personagem), Jackie, mesmo assim, se sai bem ao interpretar um homem sábio, porém introvertido, que aos poucos vai readquirindo sua autoconfiança. Além disso, mostrando a boa forma, há, infelizmente, apenas uma cena de luta propriamente dita envolvendo Chan (o que é uma pena). 

Em um papel secundário e, levemente exagerada e irritante, se encontra a mãe do protagonista, interpretada por Taraji P. Henson (de O Curioso Caso de Benjamin Button). Com um comportamento clichê típico de "mãe negra suburbana" (estilo Tichina Arnold, em Everybody Hates Chris), Taraji acaba por destoar da atmosfera do filme, chamando a atenção de uma forma inadequada.

Em relação a direção, Harald Zwart (do péssimo A Pantera Cor de Rosa 2) faz um trabalho razoável, pois insere um contexto adequado para o desenvolvimento do enredo, porém, ao chegar na trama desejada, acaba sendo incongruente. Por exemplo, seguindo o roteiro meio atrapalhado de Christopher Murphey, o diretor não tem o devido cuidado ao inserir cenas soltas que ilustram a atmosfera chinesa [começa SPOILER], como a visita à Muralha e a ritualização de lendas [termina SPOILER]. Ao se utilizar dessas tomadas para engrandecer a fotografia do filme e impressionar, o diretor parece se esquecer de trabalhá-las com mais cuidado em conjunto com as lições de vida que as mesmas carregam. Também se observa a superficialidade em alguns diálogos entre Dre e Mr. Han, em que ambos chegam a soluções de dramas pessoais de forma repentina, sem um trabalho melhor de direção e diálogos.
 
Outro pecado do diretor foi nas cenas de luta do torneio final, filmadas com cortes constantes, de forma que, em parte, mutilou-se a sequência coreográfica. Essas tomadas chamam tanto a atenção que só consegui pensar em duas possibilidades: ou a direção realmente foi inadequada (espero que essa seja a resposta), ou Jaden Smith não se dedicou ao personagem, faltando-lhe preparação e treino, falha encoberta pelos cortes. Além disso, [começa SPOILER], o golpe com que Dre derrota seu adversário na final não atinge o rosto do mesmo, e é facilmente notável. [termina SPOILER]
 

                                         [Ralph Macchio, o antigo Daniel LaRusso na première do novo "Karate Kid"]

De fato, a fotografia das locações chinesas é belíssima, o que contribui para a conclusão a que cheguei anteriormente sobre a inserção dessas paisagens. As posturas de luta também são capturadas de uma forma satisfatória, engrandecendo o pequeno Jaden. Porém, a arte da imagem presente no filme compensou a trilha sonora torturante.  Chegando ao extremo da modernidade musical, Justin Bieber aparece nos créditos finais. Além dele, o gênero pop e, principalmente, o hip hop, estiveram presentes para ilustrar a jovialidade do filme, generalizando uma tendência da indústria musical. Não bastasse o exagero, é possível observar no filme músicas do estilo pop seguidas de sequências clássicas, sem nenhuma e qualquer piedade dos nossos ouvidos.

"Karate Kid", apesar do tom jovial, traz consigo clichês antiquíssimos, como, por exemplo [começa SPOILER], o entediante e previsível comentário do narrador da luta: "...e o surpreendente semifinalista, Dre Parker.".  Outra cena moderninha é o momento que antecede os créditos, preenchido com um cumprimento de gangues entre Dre e Mr. Han, feito também no início do filme entre o protagonista e um amigo (fórmula de introdução/conclusão medieval). [termina SPOILER]

E é essa mistura de tradicional com moderno que torna o filme interessante e, ao mesmo tempo, vítima de falhas. A adaptação produzida por Jada e Will Smith veio com a missão de conquistar o público, trazendo um agradável elenco, belas paisagens, um misto de cenas de ação, cenas engraçadas, cenas emocionantes e até Justin Bieber, tudo em um pacotão da alegria, onde a arte de fazer cinema acabou ficando em segundo plano. Ainda assim, o filme diverte, e já está com uma sequência garantida, anunciada pelos produtores.


"Karate Kid" (The Karate Kid), 2010, Estados Unidos, 140 minutos.
Cotação: 06/10


2 comentários:

Daniel Isaia disse...

Legal, tô louco pra ver esse filme! Não pretendo assisti-lo pensando que é remake; prefiro olhar o filme pensando que é uma película completamente nova. Espero, assim, amenizar um pouco as diferenças brutais entre filmes que se separam por mais de vinte anos.

Se me permite, gostaria de deixar uma sugestão: quando for adicionar spoiler no texto, muda a cor pra cinza claro ou até branco, pra dificultar a leitura. Porque é difícil de desviar o olhar da frase no meio do texto, mesmo sabendo que é spoiler. Com uma cor mais clara, o leitor tem que selecionar com o mouse o texto pra conseguir ler.

lematinee disse...

Foi uma decepção que eu já esperava, porque eu sou idosa o suficiente para engulir mto secamente remakes, cujo filme original, fez parte da minha "juventude" digamos assim. Apesar disso, tentei ao maximo assistir sem preconceitos. Jaden Smith é mto bom, mas Jackie Chan enfraquece demais o personagem de sifu, na minha opnião. Fiz uma resenha sobre esse filme (e uma outra a respeito de remakes assim), depois dá uma lida lá!

Abs!

Postar um comentário

top