O Cinema dos anos 1990: "Contato"


O ano de 1997 foi especialmente marcante para o Cinema: Titanic lotou salas por meses e também arrebatou a crítica; Los Angeles: Cidade Proibida mostrou que ainda se podia e se sabia fazer um bom noir; A Vida É Bela encantou e levou três Oscar dois anos depois; Boogie Nights: Prazer sem Limites apresentou definitivamente o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson. Houve muitos outros destaques, claro, mas ao menos um filme ficou esquecido, sendo-lhe relegada uma mísera indicação ao Oscar, pouco mais de 170 milhões de dólares em bilheteria e até certo desprezo pela crítica e público.

Pois Contato, dirigido por Robert Zemeckis com o vigor, a criatividade e a ousadia vistos em suas obras mais notórias (a trilogia De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit e Forrest Gump: O Contador de Histórias), é tão bom quanto os mais aplaudidos lançamentos daquele ano. Se não for o melhor, aliás, é o mais inteligente. O roteiro é baseado no livro homônimo vencedor do Pulitzer, escrito pelo astrônomo Carl Sagan, o qual, além de trabalhar na história, foi consultor do diretor durante a produção, vindo a morrer, no entanto, meses antes de o filme ser lançado.

A história acompanha a astrônoma Eleanor Arroway (Jodie Foster), que, desde criança e estimulada pelo pai, já se mostrava completamente intrigada pelo Universo e os mistérios que sua vastidão esconde. Ela cresce, forma-se astrônoma e tem uma carreira prodigiosa de cientista, mas lhe interessa mesmo é conseguir fazer algum contato com alguma forma de vida extraterrestre. Obviamente, seus esforços nessa direção são apontados não como Ciência, mas como ficção-científica, como chega a dizer um personagem.

Mas, afinal, o filme se chama Contato e, de fato, esse vem a acontecer; no entanto, revelar mais sobre a trama só significa privar o público do grande clima de tensão que percorre a história, tão bem engenhado que nem é preciso tanto para deixar o espectador com o coração taquicárdico — em certo momento, só o som de ondas de rádio transmitindo um código numérico é suficiente.

Mais uma vez, Jodie Foster entrega uma atuação magnífica, interpretando com intensidade todos os sentimentos de sua complexa personagem, o que é fundamental para que se crie uma identificação por parte do público. Da dor da perda do pai tão cedo (e da qual ela, cética, em parte se culpa, não aceitando, justificadamente, um simples “nem sempre podemos entender por que algo acontece” que lhe é dito por um padre), passando por seus esforços para conseguir levar seu sonho adiante e seus conflitos com um interesse amoroso, um teólogo (Matthew McConaughey), e finalmente chegando ao desespero de não ser ouvida por ninguém, a atuação de Foster é visceral e poderosa por representar tão profundamente o drama de sua personagem.

Um elenco secundário bastante sólido é encabeçado por Matthew McConaughey, mas também contando com William Fichtner (interpretando o colega e grande amigo da Dra. Ellie Arroway), Tom Skerrit (que faz o chefe oportunista da protagonista), James Woods e Angela Bassett (interpretando os consultores do presidente). Vale destacar, no entanto, as curtas mas intensas participações de Jena Malone, como a jovem Ellie, de David Morse, como o seu pai, e de John Hurt, irreconhecível e com uma voz estrondosa, perfeito no papel do magnata (meio misterioso) que financia as atividades de Ellie, mas não apenas isso.

Robert Zemeckis, discípulo de Steven Spielberg, utiliza dos mesmos recursos que já haviam feito de Forrest Gump memorável quanto aos efeitos visuais. Aqui novamente vemos cenas em que pessoas famosas (como o presidente Bill Clinton) aparecem contracenando com os atores da produção, resultado de um vasto e cuidadoso trabalho de pesquisa de arquivo e utilização irrepreensível de efeitos visuais. Esses, aliás, são empregados com certa moderação no longa (ou, melhor, não se mostram tão óbvios). Após uma sequencia de abertura absolutamente fantástica, de pouco mais de 3 minutos, em que a “câmera” vai se afastando da Terra e percorrendo o Universo conhecido até atravessar a pupila de uma criança e passar a acompanhá-la, o diretor se concentra em explorar o poder de sua narrativa, e não em jogar efeitos na cara do espectador, como se querendo dizer “ei, sou um filme de ficção-científica!”. Mas eles estão lá, claro, e nos momentos em que se é preciso abusar deles, o pessoal da Sony Pictures Imageworks faz um trabalho excelente, sendo apoiada pela Weta Digital (o próprio Peter Jackson realizou alguns efeitos) e pela poderosa Industrial Light & Magic.

Aqui o diretor também usa dos longos planos-sequências que o fizeram famoso; e se para alguns pode parecer apenas exibicionismo técnico, vale dizer que eles sempre são usados de forma a construir a narrativa, como na impossível mas deslumbrante cena em que se acompanha a jovem Ellie correndo desesperada em busca dos remédios do pai, saindo do primeiro andar, subindo as escadas e chegando ao banheiro, de onde os efeitos visuais fazem parecer que acompanhamos tudo pelo espelho dessa peça.

A trilha sonora, composta pelo parceiro habitual do diretor, Alan Silvestri, é discreta em muitos momentos, aparecendo quase sempre junto à ação e pouco chamando a atenção para si. No entanto, quando isso acontece, é difícil não se lembrar da música de Forrest Gump, o que não chega a ser um defeito, mas uma falta de originalidade. Mesmo assim, é emocionante e dá o tom certo para as cenas em que é usada, especialmente nas mais tensas.

Os outros aspectos técnicos do filme são igualmente competentes, sempre contribuindo com o desenvolvimento da história e dos personagens. Seja a fotografia de Don Burgess ou a edição do ótimo Arthur Schmidt (que já venceu dois Oscar por filmes de Zemeckis, Roger Rabbit e Forrest Gump). O aspecto sonoro também é ótimo (a única indicação do filme ao Oscar foi, inclusive, na categoria de Melhor Som), talvez apenas pecando pelo exagero em algumas cenas nas quais se ouvem barulhos que normalmente não são audíveis, como no momento em que a Dra. Ellie junta um punhado de areia.

Mas nem todo o virtuosismo técnico seria suficiente se o filme não conduzisse e abordasse com inteligência o tema que propõe. Pois Contato o faz com maestria. Nunca se rendendo a explicações bobas ou desnecessárias ou mesmo a grandes reviravoltas inverossímeis, a trama se apresenta admiravelmente simples — e por isso tão encantadora —, e seu desenvolvimento é igualmente fluido, sem as complexas e absurdas teorias ininteligíveis ou as longas sequencias de ação tão presentes nos filmes do gênero (por exemplo, Independence Day, de um ano antes). Em vez disso, fala sobre ciência e religião, fé e descrença, e, acima de tudo, sobre a solidão e a busca da personagem. Ainda prestando homenagem a partir de referências à maior obra-prima da ficção-científica, 2001: Uma Odisseia no Espaço, essa também obra-prima de Zemeckis acaba por ser um dos filmes mais importantes da década de 90 e, não menos, merece elogios por tratar de forma tão honesta temas tão profundos e intrigantes.

“Pai, será que tem gente em outros planetas?” / “Eu não sei, Estrelinha. Mas sabe o que eu acho? Se só nós existíssemos, seria um tremendo desperdício de espaço.”

Contato (Contact), 1997, Estados Unidos, 150 minutos.

Cotação: 10/10


1 comentários:

Marcus Cramer disse...

Assisti ao filme nessa semana e fiquei maravilhado. Esperava uma simples ficção científica e me deparei com um drama que, como você disse, aborda profundamente um tema difícil e que muito me interessa, particularmente.

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