Resenha: "Chico Xavier"

Realizar uma crítica sobre uma cinebiografia de um homem como Chico Xavier, considerado um santo ou, no mínimo, um personagem intrigante, é um grande desafio. Principalmente em se tratando de um filme nacional.
Me arrisco a dizer aqui que a honorável biografia do Chico, por si só e em sua essência, é uma fórmula certa para o sucesso do filme. Ao mesmo tempo caracteriza um trabalho árduo transportar essa história para o cinema, devido a complexidade do personagem.

O filme desenrola-se a partir de uma famosa entrevista realizada com o Chico Xavier na extinta TV Tupi. A reconstrução dessa entrevista é a coluna vertebral que conduzirá o filme com idas e vindas no tempo, ilustrando a biografia do ícone. De um lado a linha histórica de sua vida e, do outro, o programa Pinga Fogo desenrolando-se e revelando a ligação que Orlando (personagem interpretado por Toni Ramos) tem com Chico Xavier. Aprofundando mais um pouco, sem acarretar em um spoiler, Orlando, diretor do Pinga Fogo, sofre uma evolução psíquica ao longo da obra muito bem desenvolvida, concretizando, por fim, um dos principais objetivos, ou seja, mostrar o papel importante que Chico Xavier teve com seu trabalho espiritual dentro das famílias entre as quais teve contato. 

O desenrolar da trama caracteriza-se pela complicada infância do protagonista, passa pela descoberta e aceitação de seu dom na pré-adolescência e a partir daí se torna um caminho de luta e doação em prol do espiritismo, dos carentes e dos desolados pela perda de um ente querido. Descrevendo dessa maneira, até poderíamos cair em uma narrativa entendiante, porém, espaços de humor não faltam durante o filme, principalmente nas cenas em que está presente o espírito Emmanuel (muito bem interpretado por André Dias), guia espiritual de Chico. A cena ápice de humor, sem dúvida (pare por aqui se você ainda não olhou o filme), é aquela em que Chico está em um avião, cujo os motores entram em pane e ele começa a gritar pedindo a "misericórdia de Deus" enquanto "Emanno" aparece e diz para Xavier morrer com educação!

O roteiro de Marcos Bernstein, baseado na obra “As Vidas de Chico Xavier” do jornalista Marcel Souto Maior é formidável, como já afirmado antes, não poderia ser diferente, visto o homem que retrata. A partir deste roteiro, a direção de Daniel Filho (Se Eu Fosse Você 1 e 2) é eficiente na medida que transita entre as fases do personagem e entre a linha do tempo, realizando cortes e introduções de cenas suaves que não distoam com a delicadeza do filme. As atuações, destacando a de Nelson Xavier que interpreta o protagonista na última fase de sua vida, são louváveis, podendo-se perceber que foram trabalhadas cuidadosamente pela direção da película.

A filmagem e fotografia se apresentam nesta obra como uma tecnologia avançada ainda não vista no cinema brasileiro. Além das cultuadas câmeras digitais RED, que têm uma resolução muito maior do que as digitais normalmente utilizadas, o filme utilizou câmeras réplicas da original RCA TK60, dando um tom, ao mesmo tempo antigo em certas tomadas e moderno em outras. A qualidade da fotografia surpreendeu, bem como da focalização e movimento das câmeras, que fugiram do padrão telenovela global. Enfim, o filme superou vários clichês do cinema brasileiro e deu a este um viés mais moderno de cinematografia.

Presenteando o público com uma bela interpretação da vida de Chico Xavier, o filme perfaz os três níveis do cinema com astúcia: o entretenimento, a arte e o mercado financeiro, liderando bilheterias pela terceira semana consecutiva. Tenho certeza que este filme conquistou a todos os espectadores, crentes e não crentes na doutrina que prega, pois exaltou a extraordinária vida desse brasileiro, dono de uma alma bondosa, que disciplinou sua vida em favor daqueles que sofrem em função da morte. Para quem tinha alguma dúvida ao término do filme, este não falha e apresenta os créditos juntamente com as cenas reais da entrevista que Chico realizou para o Pinga Fogo, mostrando o homem humilde e, ao mesmo tempo, louvável que era.


Chico Xavier, 2010, Brasil, 125 minutos.
Cotação: 06/10


0 comentários:

Postar um comentário

top