Cinema: "X-Men: Primeira Classe"



De “X-Men: Primeira Classe”, pouco esperavam os fãs e nada esperavam os demais. Mas não foi pela pouca expectativa que o filme acabou por surpreender à todos. A interação dos personagens de Charles Xavier (James McAvoy) e Erik Lensherr (Michael Fassbender) basilou a essência de toda a história. Dentro de uma atmosfera Hobbesiana e Rousseana, Xavier e Magneto são duas personalidades que se contrapõem. Distintos, um aceita a raça humana como desprezível e o outro acredita no homem equilibrado. De um lado, o humilde e sofredor, do outro, o riquinho e privilegiado. E de tal ambiguidade nasce uma amizade curiosa e invejável.

Como pano de fundo, uma atmosfera de Guerra Fria é retratada e consegue impulsionar a intenção dos roteiristas em mostrar questões fundamentais sobre a busca da aceitação pessoal, a evolução do ser humano e os conflitos raciais. O diretor Matthew Vaughn não deixa a trama histórica carente de criatividade e de boas cenas de ação. O filme é moderno, trazendo cenas memoráveis (como a da movimentação do satélite).

O longa, em linhas gerais, vai abordar a adolescência dos mutantes, a descoberta de seus poderes e suas consequências. Nesse contexto, Charles Xavier e Erik Lensherr são os responsáveis para tutelar os inexperientes mutantes a fim de impedir uma Terceira Guerra Mundial (objetivo do vilão Shaw). Porém, a amizade entre Xavier e Erik passa a revelar pontos divergentes entre os personagens, o que define o destino dos mesmos e que mais tarde dará origem a dois grupos distintos, a Irmandade (de Magneto) e os X-Men (de Chavier). 

Michael Fassbender e James McAvoy estão geniais. Impulsão de um, equilíbrio de outro, pessimismo de um lado, do outro, otimismo, porém, o respeito mútuo é que torna a dinâmica dos protagonistas ainda mais complexa. Já Bacon criou um dos melhores vilões de toda a série, exibe concretude no papel, arrepia. Boa parte do longa também se concentra nos poderes dos outros mutantes, retratados como criaturas fascinantes, porém vítimizadas pela complexidade de suas condições anormais.

 “X-Men: Primeira Classe” é um ótimo blockbuster, com qualificadas atuações e cenários, com uma montagem interessante sobre a Guerra Fria, e com um argumento simples, no entanto convincente. Qualquer filme que se propõe a explicar a origem de uma saga, já bem explorada, traz uma grande responsabilidade consigo, pois concluiu a imagem que o expectador (principalmente o grande fã) possui da história. Eis nesse filme uma delicada finalização da essência X-Men, um exemplo a ser seguido.




X-Men: Primeira Classe (X-Men: Primeira Classe), 2011, Estados Unidos, 132 minutos.

Cotação: 7/10

Cinema: "Premonição 5"



A franquia Premonição teve início em 2000 e apresentava uma ideia relativamente curiosa. Um sujeito prevê uma série de mortes interligadas a um evento comum (como uma viagem aérea, no primeiro filme) momentos antes de o acidente deflagrador acontecer. Então tenta convencer o grupo de pessoas que o acompanha sobre a visão que teve e evitar tal fado. Por essa premissa, pois, eles enganaram a Morte e causaram um desequilíbrio na estrutura da vida. Assim, ao que conseguem se safar da tragédia, irão um a um morrer até que o balanço seja novamente restabelecido.

Dessa forma, o ponto alto — mas também o ponto fraco — dos filmes residia nas invencionices por trás das tentativas da Morte de arrebatar os personagens, alternando entre obviedades, originalidade e muita coincidência. Uma tolice, é verdade, mas que não se furtava da diversão (mesmo que por vezes não intencional).

Certamente o sucesso acompanhou uma novidade como essa no ramo do terror, e os produtores não hesitaram em repetir a mesma estrutura em mais quatro filmes, chegando-se agora a Premonição 5, o segundo a utilizar o 3D como ferramenta narrativa (?).

Numa viagem para uma gincana do trabalho, o protagonista tem uma premonição que inclui a morte de vários colegas (e a sua própria) com o colapso de uma ponte em obras sobre a qual o ônibus em que estavam precisa parar. Assim que volta à consciência, consegue livrá-los a tempo do infortúnio (numa cena em que obviamente há um lapso cronológico). Perturbados com a situação, o grupo começa a se preocupar com questões filosóficas (e como é falsamente encenado esse filme!) ao mesmo tempo em que tentam retornar a suas rotinas. Mas eis que os coadjuvantes começam a morrer, e não vai muito até que se descobre que as mortes estão acontecendo na mesma ordem da do sonho premonitório. Eventualmente os que restam acabam encontrando um misterioso homem (uma figura clássica na série) que lhes diz que, para evitar que o mesmo lhes aconteça, precisam tirar a vida de outra pessoa e manter assim o tal equilíbrio, uma vez que não deveriam sobreviver àquele acidente.

Na direção está Steven Quale, diretor de segunda unidade de Avatar, e aqui ele joga tudo quanto é objeto contra a tela (literalmente) já nos créditos iniciais, para depois, infelizmente, mostrar-se bem mais comedido. O roteiro cabe a Eric Heisserer, que escreveu os novos A Hora do Pesadelo, de 2010, e O Enigma de Outro Mundo, este ainda inédito — já se pode temer pelo que virá. Fato é que, à despeito de um roteiro bobo e de uma condução narrativa e visual sem destaques, Premonição 5 vai aos poucos arrumando o campo para a importante e entusiasmada revelação final. E, mesmo que no momento o filme insista em alguns detalhes (a data na passagem aérea, por exemplo) para que se perceba qual é, afinal, essa surpresa, é bem provável que durante toda a projeção o espectador sequer tenha atentado a detalhes no mínimo intrigantes (o principal deles: o ano em que a história transcorre). "Isso já aconteceu antes", diz o tal homem misterioso. Pode ser verdade (e seria lógico), mas é uma bela pegadinha.

Ainda assim, é uma produção sofrível em diálogos e atuações (sem contar o enredo principal, totalmente lugar-comum), com incontáveis erros de continuidade, poucas sequências de impacto e tensão rarefeita. Tão ordinária que nem o uso da terceira dimensão consegue animar.


Premonição 5 (Final Destination 5), 2011, Estados Unidos, 92 minutos.

Cotação: 4/10

Cinema: "Transformers: O Lado Oculto da Lua"


Seria inútil comparar Transformers: O Lado Oculto da Lua com seus predecessores não fosse isso fonte de comentários — positivos e negativos — a se fazer sobre o filme. Terceiro na franquia criada a partir dos brinquedos da Hasbro (que ainda antes viraram série animada para a tevê na década de 80), O Lado Oculto da Lua se distancia do extremo constrangedor que fora A Vingança dos Derrotados, de 2009, mas também falta com a sensação de novidade (e um até certo comedimento) que o primeiro Transformers trouxe em 2007.

Admitindo publicamente o fracasso artístico que a série tomou com o segundo capítulo, o diretor Michael Bay disse que se esforçaria para não cometer os mesmos equívocos no trabalho seguinte. As melhoras se observam na estrutura geral da trama, aqui um pouco mais coerente, e em algumas cenas de ação mais elaboradas. Mas ainda há o punhado de atores relegados a papéis coadjuvantes vergonhosos, as tentativas de humor inadequadas, as soluções toscas do roteiro e os vícios de filmagem do próprio Bay, por si só um incômodo à parte.

É curioso observar, no decorrer da franquia, como sempre foram os robôs que sustentaram a dramaticidade da história. Totalmente concebidos em computação gráfica, os "transformers" trazem expressões e movimentos muito mais verossímeis que os de qualquer ator em cena. Envolver-se com esses personagens é importante, claro, mas é visível que falta a identificação com os personagens humanos, que, à exceção vez por outra de Shia LaBeouf, não têm um mínimo desenvolvimento.

E Bay tampouco está preocupado com isso. Quando há suspensão dessas necessidades em favor de grandes sequências de ação, resta ver os méritos que ali se aplicam. Junto a um uso excelente do 3D e de ótimos efeitos visuais, O Lado Oculto da Lua se esquiva dos deméritos com não poucas cenas vibrantes, montadas com a cautela de se preservar o formato e carregadas com efeitos sonoros detalhados.

Transformers nunca escondeu suas intenções comerciais — de veículo de propaganda para diversas marcas à venda de produtos relacionados aos personagens. É de se lamentar que agora seja apenas isso a movimentar a franquia (que surgiu a partir do interesse pessoal de Steven Spielberg nos brinquedos). Um fracasso nas bilheterias poderia ser sinal para alertar os produtores a repensar os rumos dos filmes. Mas, com seu mais de bilhão em arrecadações mundiais, é difícil que alguém queira interferir.


Transformers: O Lado Oculto da Lua (Transformers: Dark of the Moon), 2011, Estados Unidos, 154 minutos.

Cotação: 6/10

Cinema: "Namorados para Sempre"


O cineasta Derek Cianfrance diz que trabalhou na história de Namorados para Sempre durante doze anos. Chegou a escrever quase setenta tratamentos do roteiro (que foi praticamente descartado), enquanto realizava curta-metragens e documentários para ajudar a financiar a produção. A ideia surgiu com a separação de seus pais, quando ele tinha vinte anos, o que o impulsionou a buscar compreender o processo de formação e dissolução dos relacionamentos. Fiel à sua percepção, procurou desenvolver um conto de amor que refletisse a realidade e que, portanto, fosse capaz de criar conexão com seu público sem se apoiar em falsos convencionalismos de nula verossimilhança. O resultado, produto de imensa dedicação de todos os envolvidos, não poderia ser mais arrebatador.

O filme acompanha um casal, Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams), em dois momentos de sua relação — o início e o colapso , alternando-os na forma de fragmentos que expõem (não raro implacavelmente) as qualidades que ao mesmo tempo aproximaram e afastaram os dois jovens. Cianfrance pretendia filmar esses momentos no intervalo real de seis anos, algo que, além de utópico, certamente encontraria obstáculo na figura dos produtores. Porém, num árduo envolvimento com seus protagonistas, encontrou por onde extrair a densidade de que precisava. Após filmadas as cenas do início do romance, o diretor colocou Gosling e Williams para fazer as vezes de casal por um mês numa casa alugada, e aí, numa intimidade solidificada, eles exercitariam como desmantelar esse relacionamento.

A lógica estética e narrativa de Cianfrance, aliás, é cheia significado. Quando Dean e Cindy se conhecem, a câmera dá mais espaço aos atores, permite-lhes a experiência com certo distanciamento; já casados, além das mudanças naturais da fotografia pelo uso de outro tipo de câmera, há uma necessidade de se esquadrinhar cada reação, cada nuança dos personagens. Letras de músicas, objetos que se interpõe na cenografia e diálogos carregados de sentimento, por outro lado, completam uma abordagem de detalhes e metáforas reveladores.

Dean, jovem que não completou os estudos mas que é esforçado e inteligente, e Cindy, aluna aplicada que pretende cursar medicina, acabam ficando juntos, a despeito do amor que aos poucos surge de um pelo outro, por um evento que, não do melhor modo, funciona como um catalisador na aproximação dos dois. Há um jogo de conquistas, uma dedicação dele para com ela que estabelece uma reciprocidade de confiança e amizade; há carinho, há atração. Já casados e com uma filha, sob o peso da frustração e do arrependimento de objetivos não realizados, experienciando que, embora não desejem, não há mais nada ali capaz de sustentá-los juntos, o desfecho é doloroso.

Gosling e Williams, viscerais, entregam-se livres de qualquer vaidade a essa trajetória e transformação. Da juventude de sonhos e perspectivas, de paixão pulsante e do encanto de uma canção que os dois compartilham numa calçada, à decadência física e emocional que se observa em cada olhar e em cada inflexão, os atores parecem absorver cada partícula de ressentimento e condescendência que se formou durante aqueles anos e transpor a seus personagens com um realismo e sensibilidade perturbadores.

Namorados para Sempre, o título nacional, mesmo que criado com fins equivocados, é perfeito ao permitir ainda mais contraste com a força da história que é contada. A felicidade que ficará com os personagens é aquela daqueles momentos de idealização e romance que eles experimentaram no início, quando eram namorados. A convivência, se desgastou as possibilidades de se seguir assim, ao menos não apaga o que já foi vivido.

Um filme que descobre esse tema com tamanho realismo e razão não é frequente no Cinema, e por isso mesmo merece ser notado. Quando, mais que relevante, consegue ser comovente e devastador, é possível que se tenha uma obra-prima.


Namorados para Sempre (Blue Valentine), 2010, Estados Unidos, 112 minutos.

Cotação: 10/10

top